Superaquecimento no Pacífico coloca o Brasil sob alerta de queimadas e secas sem precedentes
Relatório conjunto do Inmet e Censipam adverte que aquecimento anormal das águas do Pacífico pode adiar estação chuvosa no país, agravando seca na Amazônia Legal e castigando comunidades ribeirinhas vulneráveis

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
04/09/2026 | 11h51
Milhões de brasileiros começam a sentir na pele e na rotina a aproximação de um dos fenômenos climáticos mais extremos dos últimos anos: entre setembro e novembro de 2026, o Brasil enfrenta 90% de probabilidade de vivenciar um episódio de El Niño de intensidade muito forte. A constatação, confirmada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e detalhada no Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026-2027, desenha um mapa de contrastes severos para o país.


Enquanto a Região Sul se prepara para tempestades com acumulados muito acima da média histórica, o Norte e o Nordeste encaram a perspectiva de uma seca profunda e prolongada, com termômetros em patamares atípicos em quase todo o território nacional. Por trás da matemática das probabilidades atmosféricas e do aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, desenha-se uma crise humana e ambiental de grandes proporções, marcada pelo risco de incêndios florestais descontrolados e pelo atraso crítico no início da estação chuvosa.


A dimensão do desafio foi articulada em um esforço conjunto sem precedentes que reúne os principais órgãos científicos do país: o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec). Juntas, as instituições emitiram um sinal de alerta vermelho para o atraso da transição climática. Habitualmente, os meses de primavera assinalam o fim da estiagem e a chegada gradual da umidade na Amazônia Legal e no Pantanal. Em 2026, contudo, esse ciclo natural deve ser interrompido, mantendo o solo ressequido e a vegetação sob condições de estresse térmico por um período muito superior ao habitual.

Para quem vive na ponta dessa engrenagem da natureza, a estatística ganha contornos dramáticos de sobrevivência. Na comunidade ribeirinha de Manacapuru, no interior do Amazonas, o produtor rural Raimundo Silva, de 54 anos, observa com desassossego a retração precoce das águas dos igarapés. Ele relata que a terra já perdeu a umidade habitual e que os barcos, único meio de transporte para levar os frutos da lavoura de mandioca à cidade, começam a encalhar em bancos de areia antes do tempo previsto. Silva conta que a fumaça de focos distantes já arde nos olhos das crianças ao amanhecer, um prelúdio do pesadelo que ribeirinhos, indígenas e pequenos agricultores enfrentam quando o fogo encontra a floresta desidratada.

Projeções do Censipam revelam que o deficit hídrico atingirá pelo menos nove estados: Amapá, Roraima, Pará, Maranhão, Amazonas, Acre, a porção norte de Mato Grosso e faixas central e norte de Tocantins e Rondônia. A combinação perversa de calor persistente, ausência prolongada de chuvas e ar seco transforma a biomassa florestal em combustível inflamável, ampliando de maneira alarmante o potencial de propagação de incêndios, sejam eles provocados por faíscas acidentais ou pela queima criminosa para abertura de pastagens.

Especialistas e gestores públicos ressaltam que compreender as causas do fenômeno é fundamental para evitar a paralisia. O El Niño decorre do enfraquecimento dos ventos alísios no Pacífico, permitindo que uma imensa massa de água quente se desloque para o leste, alterando o padrão global de circulação de ventos e massas de ar. Conforme apontam os cientistas da NOAA, eventos intensos não se convertem automaticamente em catástrofes lineares, mas elevam exponencialmente as chances de ocorrência de desastres climáticos, exigindo resposta prévia do poder público.

O coordenador da Defesa Civil Nacional, coronel Marcelo dos Anjos, reforça que os protocolos de contingência já estão em operação para socorrer tanto os municípios que devem enfrentar enchentes severas no Sul quanto aqueles que precisarão de caminhões-pipa e brigadas de combate a incêndios florestais no Centro-Norte. Em nota oficial, o Inmet enfatizou a urgência de um monitoramento contínuo das condições meteorológicas, em escalas diária e sazonal, para antecipar ondas de calor e estiagens extremas antes que o dano social se torne irreparável. À medida que a primavera se aproxima sob a sombra de um Pacífico superaquecido, o país se equilibra entre a previsão científica rigorosa e a urgência de proteger vidas nas frentes onde a emergência climática já é uma realidade cotidiana.




