POLÍTICA

Parlamentares preparam contra-ataque à tentativa do STF e PGR de acabar com benefícios do Congresso

Em nova rodada da queda de braço com o governo pelo controle de emendas, Congresso já articula estratégia para ampliar controle do orçamento

Ministro Flávio Dino manteve transparência nas emendas pix, mas abriu exceção para obras em andamento — Foto: ASCOM/STF


Em mais um episódio da queda de braço contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo controle do Orçamento, o Congresso Nacional cogita adotar uma série de medidas para contra-atacar as investidas do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) para limitar os repasses de emendas pix e de comissão. Na prática, essas medidas podem acabar aumentando o controle do Parlamento sobre o orçamento anual, como já ocorreu em outras situações.
Recentemente, decisões do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e pedidos da Procuradoria-Geral da República acabaram por limitar o repasse de emendas de comissão e das transferências especiais – as emendas pix – pelo Congresso a municípios.

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Diante dessas ações e de um pedido da PGR que pede a extinção das emendas pix, parlamentares já preveem algumas alternativas de contra-ataque. Na prática, a briga acaba sendo pelo controle do orçamento, já que grande parte dos recursos do Congresso Nacional são transferidos para os estados e municípios via emendas eleitorais. O restante dos recursos é gerido pelo Executivo, ou seja, se a fatia do Parlamento diminuir, o governo poderia ter mais recursos à sua disposição.
Para evitar que isso ocorra, os parlamentares apostam em um novo calendário para o pagamento das emendas, na criação de um novo tipo de emenda, de pagamento obrigatório e que cumpra com as medidas de transparência solicitadas por Dino, e que favoreça os partidos com mais representantes no Congresso e em uma nova Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que aumente o volume de recursos destinados para as emendas individuais no próximo ano.

Congresso avalia criar nova forma de destinação de recursos

Sessão do Congresso Nacional no plenário da Câmara dos Deputados — Pedro Ladeira/Folhapress

A peleja sobre o controle do Orçamento é antiga. Da última vez em que o STF proferiu uma decisão sobre as emendas parlamentares, em novembro de 2021, quando suspendeu a execução das emendas de relator, que ficaram conhecidas como orçamento secreto, o Congresso não tardou em aprovar a PEC da Transição. Com ela, o valor destinado às emendas individuais, que correspondia a 1,2% de tudo o que o governo arrecadou no ano anterior, passou para 2%.
Essa mudança foi significativa porque, como são de execução obrigatória, ou seja, o governo precisa pagá-las, as emendas individuais acabam por reduzir o poder de barganha do Executivo, que não tem como negociar a liberação desses recursos para conseguir apoio em votações de seu interesse.

Uma das opções do Congresso deve ser elevar o percentual de verbas destinadas às emendas individuais para mais de 2% (o número pretendido não foi divulgado ainda).
Outra possibilidade é a criação da emenda de líder ou de partido, uma iniciativa do deputado Danilo Forte (União-CE). Segundo a assessoria do parlamentar, a proposta é que os recursos – antes destinados às emendas pix e de comissão – sejam direcionados de forma proporcional às bancadas dos partidos.


Assim, as legendas com maior número de deputados teriam, proporcionalmente, mais recursos a seu dispor. Como o governo não tem a maioria no Congresso, caso seja levada adiante e aprovada, a proposta também fortalece o Parlamento. Isso porque ela redireciona os recursos que a PGR e o STF tentam limitar para os partidos mais influentes no Parlamento, favorecendo o PL e o Centrão. O PT ganha em certa medida por ter a segunda maior bancada.

Na volta do recesso parlamentar, no início deste ano, esse foi um dos vetos presidenciais que o Congresso decidiu não derrubar. Para tanto, foi feito um acordo com o governo, que se comprometeu a fazer os repasses das emendas seguindo as datas previstas no calendário. A verba acabou chegando a tempo nos estados e municípios antes do início oficial da corrida eleitoral. Até as investidas do STF e da PGR, esse acordo vinha sendo cumprido.
O relator do arcabouço fiscal na Câmara, deputado Cláudio Cajado (PP-BA), afirma que o aumento do volume de recursos reservado para as emendas individuais é a melhor opção, caso o STF realmente venha a suspender as emendas pix, conforme pedido da PGR. Ele também é favorável à reinserção e aprovação do calendário de pagamentos para as emendas na LDO.

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O parlamentar afirma que o calendário “tira aquela coisa de toma lá da cá. Em véspera de votação, o governo libera [o pagamento das emendas]. Execução orçamentária tem que ter planejamento”, afirmou ele à Gazeta do Povo. No ano passado, o Executivo fez pagamentos bilionários para aprovar seus projetos. Na véspera da votação da Reforma Tributária, por exemplo, R$ 5,3 bilhões em emendas foram liberados de uma vez só.

Comissão suspendeu leitura de relatório prévio da Lei Orçamentária

Diante das decisões do STF, o presidente da Comissão Mista de Orçamento da Câmara, deputado Júlio Arcoverde, adiou a discussão da LDO 2025, que estava programada para a segunda quinzena de agosto. Em nota, o parlamentar afirmou que considera "prudente" aguardar a definição da questão levantada pela PGR.
"Como podemos abrir um prazo de apresentação de emendas à LDO, se não sabemos o que vai resultar dessa discussão jurídica? Seria uma irresponsabilidade iniciar um processo sem saber as regras que estarão valendo", justificou Arcoverde.
Ainda que o deputado se coloque em tom de neutralidade diante da peleja entre o Executivo e o Parlamento pelo controle do Orçamento, o adiamento da LDO não deixa de ser um recado para o governo. Além disso, pode abrir margem para que o Congresso implemente seu plano de contornar novamente as medidas do STF contra as emendas.
Cláudio Cajado afirmou que o adiamento se deve ao prazo apertado e, portanto, ficará somente para depois das eleições municipais.
Ele disse que não tem como fazer discussão ampla, e que é até melhor deixar para depois a discussão, quando será mais fácil definir as destinações após resultado do pleito municipal, “para ver melhor o cenário”.

Decisões do STF e da PGR redefinem controle do Orçamento

Todo esse novo episódio na disputa pelo orçamento começou no dia 1º de agosto, quando o ministro Flávio Dino analisou uma ação protocolada no STF pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). A entidade solicitou a suspensão total das emendas pix. Caso o pedido fosse negado, a Abraji pediu que a Corte obrigasse o Congresso a prestar esclarecimentos detalhados sobre origem e destinação dessas emendas.


Para se ter uma ideia, somente em 2024, há 942 emendas pix previstas, sendo que R$ 7,68 bilhões já foram previstos para pagamento, dos quais R$ 4,48 bilhões já foram pagos. Os dados são da plataforma Siga Brasil.
Na tarde da quinta-feira (8), no entanto, Dino autorizou a execução de “emendas Pix” somente para obras em andamento e em casos de calamidade pública, desde que o repasse seja transparente e rastreável. Esta decisão de Dino foi tomada diante de pedido da PGR que apontou como “inconstitucionais” as emendas pix e, portanto, solicitou o fim imediato da modalidade.
O ministro ainda apontou que as decisões em relação a todas as emendas poderão ser revistas se o Legislativo e o Executivo apresentarem “medidas concretas” para “remover os vícios” apontados pela PGR nesses pagamentos.


A nova arma dos parlamentares para fiscalizar o governo

Parlamentares consultados pela Gazeta do Povo, no entanto, opinaram que não há falta de transparência em relação às emendas pix. O deputado Cláudio Cajado disse que as emendas pix foram criadas para acelerar a execução orçamentária. Ele argumentou ainda que é errôneo dizer que não são fiscalizadas, pois esse papel cabe aos órgãos de controle nos estados ou municípios.
Em relação às decisões de Dino, o parlamentar afirmou que, se for para “garantir a transparência, dá para ajustar, disciplinar regras”. “Se tiver que clarear mais não vejo problema nenhum”, ressaltou. Apesar de respeitar a opinião da PGR, que opinou pelo fim desse tipo de emenda, ele vê ingerência da Justiça, pois essa é uma prerrogativa do Congresso.
Já o deputado Filipe Barros (PL-PR), líder da oposição na Câmara, afirmou que as emendas pix são uma “modalidade prevista em lei de recursos da União para prefeituras de todo o Brasil” e que é um processo com “total transparência”.
“A integridade já começa na indicação da emenda, indo até seu devido pagamento, com fiscalização pelo Ministério Público de cada estado, Ministério Público Federal, polícias Civil e Federal, além dos Tribunais de Contas – seja dos estados ou da União”, disse.

Congresso dá o troco: recorre de pedido da PGR sobre emendas pix

Recentemente, o Congresso recorreu da decisão do ministro Flávio Dino. Os parlamentares da Câmara e do Senado defenderam a legalidade das emendas pix e criticaram as exigências estabelecidas por Dino, afirmando que ele desconsidera as circunstâncias do sistema de transferências especiais e dá ao governo um poder excessivo sobre o Orçamento.
“A pretensão de subverter essa divisão constitucional, delegando ao Executivo uma autonomia desmedida sem a devida regulamentação legislativa, implica um atentado às determinações constitucionais que estruturam o Estado Democrático de Direito”, apontou o recurso.
Filipe Barros afirmou que o PT não está acostumado a governar com o Parlamento e que “quer voltar aos tempos sombrios nos quais achacava deputados em troca de votos – embora, ironicamente, a autora do projeto que criou esse formato de emenda [emenda pix] seja a presidente do PT, Gleisi Hoffmann [em 2019, por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição]”.
Independente das ações que o Congresso adotar em razão das decisões do STF e da PGR, as perspectivas são de que, mais uma vez, os parlamentares saiam ganhando nessa nova queda de braço, obtendo maior controle sobre o Orçamento e levando à redução da margem de manobra do governo, que busca reverter a situação e para isso conta com um decisão favorável da Corte.

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