POLÍTICA

Aprovação da reforma tributária mostra poder de articulação de Arthur Lira no Congresso

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), escolheu a reforma tributária como principal legado de seu mandato, que acaba em fevereiro de 2025 — Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados.

A regulamentação da reforma tributária foi aprovada na Câmara dos Deputados, mostrando a influência de Arthur Lira e seu modelo de liderança forte apelidado de “trator”

A aprovação da regulamentação da reforma tributária, na Câmara dos Deputados, foi uma prova clara da força do presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), e do seu modelo de encaminhamentos apelidado de “trator”. Menos de 24 horas após o grupo de trabalho responsável ter apresentado o texto de mais de 500 páginas, o projeto avançou com placares largos, atendendo a interesses políticos, eleitorais e de setores econômicos influentes representados por frentes parlamentares – apesar da rejeição vinda, sobretudo, das bancadas do PL e do Novo.
Toda a sessão de votação histórica foi conduzida de forma acelerada, com o ritmo ditado pelo rígido controle de Lira, em estreita articulação com líderes partidários e retirada de entraves regimentais. O texto agora seguirá para análise do Senado.

A aprovação da reforma é estratégica para Lira, que fez dela uma prioridade absoluta, para transformá-la em um dos principais legados de sua gestão à frente da casa legislativa, que se encerra em fevereiro de 2025.

Após conseguir encaminhar a votação, Lira disse: “Mais importante do que essa polarização é a reforma que a gente entregou para o país.” Nos bastidores, o presidente da Câmara continuou investindo na candidatura de Elmar Nascimento (União Brasil-BA), seu preferido para sua própria sucessão.
Ao longo da sessão de votação foram protocoladas quatro versões do texto.  “A 30 segundos de abrir o painel de votação, novo texto da reforma foi protocolado.  Aberta a votação, quase nenhum deputado sabia o que estava votando”, protestou Marcel Van Hattem.

Grupo de trabalho buscou consensos até o último minuto da votação em plenário

A aprovação mediante consensos construídos em plenário consagrou um modelo de Lira na qual, em vez de tramitar por comissões temáticas, onde blocos partidários são representados de forma proporcional ao plenário, a matéria foi discutida em um grupo de trabalho sem regras claras de funcionamento.
O colegiado integrado pelos deputados Reginaldo Lopes (PT-MG), que foi o relator do projeto, Augusto Coutinho (Republicanos-PE), Claudio Cajado (PP-BA), Hildo Rocha (MDB-MA), Joaquim Passarinho (PL-PA), Luiz Gastão (PSD-CE) e Moses Rodrigues (União Brasil-CE) se incumbiu de selar consensos.

Só os sete membros do grupo de trabalho participaram das negociações para a elaboração do texto, que passou por 22 audiências e 231 mesas de diálogo, em 218 horas de conversas com 1.344 representantes de governos e setores econômicos. O acerto do colégio de líderes acabou, contudo, mudado pela pressão do público e lobbies.


Segundo analistas, o número expressivo de votos na emenda de inclusão das proteínas animais na cesta básica revela também o receio de deputados com a exposição de votos contrários a uma proposta com apelo popular, sobretudo em ano eleitoral.

Além disso, os deputados excluíram armas e munições do chamado Imposto Seletivo (IS), ou “imposto do pecado”. Na prática, produtos dentro dessa categoria pagariam mais impostos para compensar concessões feitas na reforma e para desestimular seu consumo, em consonância com políticas públicas específicas, como o desarmamento.
Essa exclusão revelou a influência da bancada da segurança pública, que tem se articulado com as outras bancadas conservadoras, a evangélica e a agropecuária.



Ministério da Fazenda alerta para o risco de exceções elevarem a alíquota média

Mesmo com a derrota para o governo na desoneração das carnes e peixes, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), elogiou Lira pelo empenho na votação da regulamentação da reforma, afirmando que a decisão final cabe ao Congresso. Mas sublinhou que os parlamentares não podem alegar falta de dados sobre os impactos tributários, especialmente no setor de carnes.
Haddad também tem alertado para o fato de que cada nova exceção à regra fará com que a alíquota padrão tenha que ser mais alta. Ele tinha sugerido ampliar a devolução de impostos em dinheiro (cashback) como alternativa para desonerar carnes aos mais pobres, tese que não avançou.

Com preocupações eleitorais, Lula por outro lado, passou a defender publicamente a inclusão de frango e alguns cortes de carne mais consumidos pela camada mais pobre da população na lista de produtos isentos da CBS e do IBS.
Ao final, a queda de braços em torno da isenção de imposto para as proteínas animais resultou na alíquota zero também para todos os tipos de queijos. Especialistas alertam que essa decisão deve elevar a alíquota média, prejudicando a população, especialmente a menos favorecida.
“O teto de alíquotade 26,5% é um delírio, colocado apenas para gerar manchete de jornal”, disse o tributarista Luiz Gustavo Bichara à CNN Brasil.

Debate sobre distribuição da carga tributária continua, diz especialista

O cientista político Leonardo Barreto, diretor da I3P Consultoria, destaca que a regulamentação das alíquotas no projeto aprovado na quarta-feira (10) reflete o embate distributivo no país, determinando quem contribuirá com quanto. Nesse sentido, a definição da calibragem da carga tributária está por ser definida.
“De todo modo, o debate de um limite à carga tributária está posto. É consenso entre muitos atores que circulavam no Congresso durante a votação que o Imposto Seletivo, que deveria ter fins regulatórios, para desestimular comportamentos, tem embutido finalidade arrecadatória, acrescentado setores que não tem nada a ver com hábitos de consumo”, observou.

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