
O deputado federal Vinícius Gurgel indicou Fábio Vilarinho para o DNIT Amapá. Agora, a Polícia Federal quer saber o destino final do dinheiro público que deveria ser usado para melhorar as rodovias amapaenses. Uma das mais atingidas pela corrupção endêmica no Amapá é a rodovia BR-156, que tem início no município de Laranjal do Jari, segue em direção a Macapá, e termina em Oiapoque, após o fim do trecho brasileiro da Ponte do Oiapoque, concluída em 2011. A situação é tão crítica que recentemente o Ministério Público Federal no Amapá (MPF/AP) ajuizou ação civil pública, com pedido de urgência, contra a União, o DNIT e o governo do Estado do Amapá. A instituição pede à Justiça Federal que obrigue União e DNIT a realocar as aldeias Tukay, Samaúma, Ywanka, Estrela, Ahumã e Kariá, interceptadas pela obra de pavimentação da rodovia BR-156, no município de Oiapoque. Além disso, quer também a condenação dos réus ao pagamento de indenização por danos morais coletivos. Há mais de 12 anos, conforme o MPF/AP, as obras das aldeias – parte dos projetos de pavimentação e de manutenção da rodovia – são conduzidas sem o devido compromisso pelo Estado do Amapá e a União. A instituição enfatiza que a realocação é uma obrigação estipulada como condicionante na licença de instalação das obras da rodovia, emitida em 2005. É, também, objeto do termo de ajustamento de conduta firmado em 2011 entre o MPF, lideranças indígenas e o Estado do Amapá – primeiro responsável pelas obras.
Por Emanoel Reis
Preso pela Polícia Federal durante a “Operação Pedágio”, deflagrada em Macapá, no dia 27 de junho, o ex-superintendente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte no Amapá (DNIT/AP), Fábio Vilarinho, está inconformado com os rumos que seu caso vem tomando. Ele já soube, por meio de seus advogados de defesa, que a Justiça Federal pretende prolongar sua permanência no Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen). E isso o abalou profundamente.
Acusado pelo Ministério Público Federal de cobrar até 3% de propina para agilizar pagamentos a empreiteiras em obras de rodovias federais, Vilarinho cumpre prisão preventiva em uma cela mal-ajambrada do Iapen. Nos últimos dias, tem enviado da cadeia mensagens cifradas endereçadas a antigos aliados com dois pedidos recorrentes: ampla cobertura jurídica e a manutenção do mesmo apoio político que tinha antes de ser preso. Caso contrário, ressalta ele em confidência a amigos e familiares, poderá contar ao MPF e à PF tudo o que sabe sobre o esquema criminoso que comandou nos três anos em que esteve à frente do DNIT Amapá.
Informações de agentes penitenciários que estiveram em contato com Fábio Vilarinho, revelam que o ex-superintendente está literalmente “à beira de um ataque de nervos”. A todo momento, reclama da Justiça, apontando uma suposta “arbitrariedade” de quem decretou sua prisão preventiva, queixa-se da qualidade do alimento servido aos presos, jura inocência, sofre de tremores, tem crises de insônia e ansiedade.

Elogiado por uns e visto com reservas por outros, desde que assumiu a superintendência do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte no Amapá (DNIT/AP), em 21 de novembro de 2013, Fábio Vilarinho coleciona polêmicas e denúncias como quem coleciona selos e tampinhas de refrigerante.
Logo no início de sua gestão, apareceu como grande entusista da retomada das obras de conclusão da BR-156. Nas entrevistas que concedeu à imprensa amapaense, costumava repetir que “estrada [era] integração e o Brasil precisa estar integrado, especialmente para esta parte do Norte, compreendida pela imensa floresta amazônica”.
A retórica empolgava os crédulos, mas, atiçava a desconfiança dos céticos.
Com o tempo, os sinais de riqueza de Fábio Vilarinho não passaram despercebidos em Macapá. De xerimbabo do deputado federal Vinícius Gurgel (PL), Vilarinho passou a proprietário de mansões, apartamentos, carros de luxo, joias, lanchas. Uma fortuna amealhada em menos de três anos, tempo em que exerceu o cargo de superintendente do DNIT no Amapá.
Mas, assinalam os agentes, o que Vilarinho sente, mesmo, é uma profunda sensação de abandono pelo grupo político do qual fora destacado integrante. Na cela onde cumpre a determinação judicial, tem deixado escapar, entredentes, que “não pretende cair sozinho”, insinuando que, se não tiver o devido apoio, revelará à PF nomes de figurões da política local que também foram beneficiados com a propina paga pelas empreiteiras.
Nas investigações efetivadas pela Polícia Federal, que sedimentaram a “Operação Pedágio”, aparece com relativa frequência o nome do deputado federal Vinícius Gurgel (PL). Conforme a instituição, por cinco anos consecutivos, o parlamentar comandou o DNIT/AP com plena liberdade na escolha de seus gestores. E, segundo a PF, Fábio Vilarinho sempre apareceu como “amigo pessoal do deputado”, de quem se gabava em público ser o principal preposto no Amapá.
Os recados enviados por Fábio Vilarinho têm dois propósitos distintos, mas, no final das contas, destinam-se a único destinatário. Suas imprecações, aparentemente direcionadas à Justiça, começam a surtir o efeito desejado por ele porque, segundo observações dos agentes contatados, o preso temporário tem recebido a visita de renomados advogados com mensagens reservadas para que mantenha-se calmo.
Por enquanto, a manobra tem sido exitosa. Os queixumes não soaram extemporâneos e Fábio Vilarinho poderá deixar a cadeia com a promessa de duradoura proteção. Dizem, só ele acredita nisso.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
