Prefeito de Macapá é afastado por 60 dias em operação contra esquema de corrupção

A Operação Paroxismo provou que nenhum índice de popularidade é alto o suficiente para blindar gestores do rigor da caneta do STF



Em um desdobramento que redesenha o tabuleiro político em Macapá às vésperas de eleições decisivas, o prefeito Antônio Furlan (PSD) foi afastado do cargo por 60 dias. A ordem, emanada do Supremo Tribunal Federal (STF), serviu como o ápice de uma nova fase da Operação Paroxismo, conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, que investiga um suposto esquema de corrupção montado sob as fundações do novo Hospital Municipal de Macapá.


O impacto da decisão não se limitou ao gabinete principal do Palácio Laurindo Banha. No vácuo de poder criado pela operação, o vice-prefeito Mário Neto e a secretária municipal de Saúde, Erica Aymoré, também foram removidos de suas funções, deixando a administração municipal em um estado de paralisia institucional temporária. Enquanto as viaturas da PF cumpriam 13 mandados de busca e apreensão em endereços que se estendiam de Macapá a Belém (PA) e Natal (RN), a cidade tentava processar a imagem de uma gestão que, até então, ostentava altos índices de aprovação popular, agora sob o punho rigoroso da justiça criminal.

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Vice-prefeito Mário Neto (E) e o prefeito Antônio Furlan foram afastados de suas funções na PMM

As digitais do esquema, segundo os investigadores, apontam para uma relação criminosa entre o poder público e a iniciativa privada. No centro das suspeitas está o empresário Rodrigo Moreira, empreiteiro responsável pela construção da unidade hospitalar na zona norte da capital. O nome de Moreira já frequentava os relatórios de inteligência desde que foi flagrado por agentes federais transportando R$ 400 mil em espécie. O rastreamento desse montante, segundo fontes ligadas à investigação, indicou que o dinheiro teria como destino final um veículo de propriedade direta do prefeito Furlan, configurando o que os promotores descrevem como uma propina em trânsito.

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O roteiro traçado pela Polícia Federal descreve uma engrenagem clássica de desvio de dinheiro público: o direcionamento de licitações, o superfaturamento de medições de engenharia e a subsequente lavagem de dinheiro. O Hospital Municipal, que deveria ser o símbolo de uma virada na precária saúde pública da região, transformou-se, nas palavras dos investigadores, no palco de um “esquema criminoso estruturado”. A gravidade das evidências apresentadas ao STF foi suficiente para que a Corte optasse pelo remédio amargo do afastamento cautelar, uma medida drástica que visa interromper a continuidade de possíveis delitos e impedir a destruição de provas dentro da máquina pública.

O silêncio nos corredores da prefeitura durante o cumprimento dos mandados contrastava com o alvoroço na Câmara Municipal. Com a cúpula do Executivo fora de combate, a linha sucessória levou o comando da cidade para as mãos de Pedro da Lua (União), presidente do Legislativo municipal. Conhecido por sua trajetória de embates e alianças voláteis, Da Lua foi notificado pela Polícia Federal ainda nas primeiras horas do dia e empossado interinamente. A transição, embora prevista em lei, carrega uma carga de incerteza para o funcionalismo público e para os serviços essenciais, que agora dependem de uma gestão de crise conduzida por um interventor político.

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A Operação Paroxismo, cujo nome remete ao ponto de maior intensidade de uma dor ou de um processo, parece ter atingido seu clímax técnico, mas inicia um período de agonia política para o PSD no Amapá. Antônio Furlan, médico de formação que construiu sua imagem política com base na onipresença nas ruas e na agilidade de obras de pavimentação, vê agora seu prontuário político manchado por acusações que ferem justamente sua vitrine administrativa: a gestão da saúde. A defesa do prefeito, em notas preliminares, costuma falar em “perseguição” e “equívocos interpretativos”, mas o peso das notas de dinheiro apreendidas e os depoimentos colhidos ao longo das fases anteriores da operação sugerem um cerco jurídico difícil de romper.

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Para o cidadão macapaense, o afastamento de Furlan levanta questões que vão além das páginas policiais. O Hospital Municipal, cujas obras são o epicentro do escândalo, corre o risco de se tornar mais um esqueleto de concreto à espera de decisões judiciais, enquanto a fila por atendimento especializado continua a crescer. O afastamento de 60 dias é um prazo que, na dinâmica do Judiciário brasileiro, pode ser tanto um respiro para a defesa quanto o preâmbulo de uma saída definitiva. A política amapaense, mestre em reviravoltas, observa agora se este é apenas um soluço institucional ou o fim de uma era de hegemonia do grupo de Furlan.


Enquanto Pedro da Lua assume o comando da cidade prometendo manter a normalidade administrativa, a Polícia Federal analisa o material colhido nas buscas em três estados diferentes. Documentos, computadores e registros financeiros devem preencher as lacunas que ainda restam sobre como o dinheiro saído das medições de obra chegava, supostamente, aos bolsos dos gestores.


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