Relatório revela que grupo usou gravação adulterada para simular suborno de R$ 60 mil e proteger ex-prefeito após ele agredir jornalistas com palavrões e aplicar mata-leão em um deles
Um relatório final da Polícia Civil do Amapá, concluído em 20 de fevereiro de 2026 e somente revelado agora, desarticulou uma rede de desinformação acusada de forjar provas e disseminar notícias falsas para proteger a imagem do ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan. A investigação da Delegacia de Crimes Cibernéticos, agora sob análise do Ministério Público, indiciou dez pessoas por calúnia e denunciação caluniosa após a perícia técnica comprovar que um áudio viral, utilizado para acusar jornalistas e um deputado de receberem propina para forjar uma agressão do político, foi grosseiramente adulterado.

O enredo que culminou no indiciamento em massa teve origem em um episódio de violência física ocorrido no canteiro de obras do Hospital Municipal de Macapá. Na ocasião, ao ser interpelado sobre o cronograma da construção, o então prefeito Antônio Furlan reagiu de forma intempestiva, desferindo um golpe de “mata-leão” em um integrante da equipe de reportagem. O ato, registrado em vídeo, envolveu diretamente os jornalistas Heverson dos Santos Castro, Iranes Froes da Silva e Marshal dos Anjos Vasconcelos. O que deveria ser um caso de agressão e cerceamento à liberdade de imprensa, entretanto, foi rapidamente convertido em uma sofisticada peça de contrapropaganda digital.
“A perícia técnica da Polícia Civil
foi categórica: o termo real no
áudio era ‘cinegrafistas’, e não
’60 mil à vista’, provando que a
prova do crime foi fabricada.”
Dias após o incidente, uma gravação feita de forma clandestina por Giovanna de Pádua Dias Sant’Angelo dentro da Assembleia Legislativa capturou um diálogo entre o deputado estadual Jory Osvaldo Queiroz Oeiras e os jornalistas agredidos. A partir desse arquivo, uma narrativa incendiária tomou conta das redes sociais: a de que o grupo teria articulado a provocação ao prefeito mediante o pagamento de R$ 60 mil. A versão espalhou-se como pólvora, alimentada por perfis que buscavam inverter a culpa do episódio no hospital, transformando agressores em vítimas de um complô político-midiático.

Contudo, o rigor da Polícia Científica impôs um limite técnico à ficção digital. O laudo pericial contido no relatório final é categórico ao afirmar que em nenhum momento da gravação original menciona-se qualquer valor monetário. A investigação descobriu que a expressão “você cinegrafista” foi deliberadamente substituída pela frase “60.000,00 à vista” por meio de edição de áudio ou inserção de legendas enganosas nos vídeos que circularam em aplicativos de mensagem. A manipulação transformou um diálogo rotineiro em uma confissão de corrupção inexistente, ferindo a honra de profissionais da comunicação e de um parlamentar.

Diante das evidências, a autoridade policial indiciou dez pessoas, separando-as por níveis de responsabilidade. Giovanna de Pádua Dias Sant’Angelo responde por denunciação caluniosa, por ter levado a acusação falsa ao conhecimento das autoridades via boletim de ocorrência, dando contornos jurídicos a uma mentira. Outros nove indivíduos — Eduardo Neves Trindade, Edson Martini Junior, Felipe dos Santos Paixão, Jackson Jonas Gualberto Ferreira, Jean Augusto Neves de Melo, Jonatas do Nascimento, José Welton Barros Goes, Oziel dos Santos Coutinho e Wallex Bruno Lobato da Igreja — foram indiciados por calúnia e disseminação. O relatório descreve a atuação desse grupo como uma engrenagem de amplificação, responsável por garantir que a narrativa adulterada alcançasse o maior número possível de eleitores.
“Com o envio do inquérito ao MP,
o cerco se fecha contra aliados de
Antônio Furlan, expondo os limites
entre a liberdade de expressão e
a imputação criminosa de fatos.”
O documento da Delegacia de Crimes Cibernéticos vai além da tipificação dos crimes e promove uma reflexão sobre os limites da atuação em ambiente virtual. O texto ressalta que a liberdade de expressão, pilar da democracia, não serve de salvo-conduto para a imputação falsa de crimes. Para os investigadores, quando uma acusação é específica, carente de provas e amplificada deliberadamente por uma estrutura organizada, ela abandona a esfera da opinião política para ingressar no campo penal. O caso expõe a face mais sombria das chamadas “milícias digitais”, que operam para destruir reputações e controlar o debate público através do medo e da desinformação.

Com o encerramento do inquérito e o envio das mais de centenas de páginas ao Ministério Público, a pressão sobre o entorno político do ex-prefeito aumenta. Cabe agora aos promotores decidir se oferecem denúncia formal à Justiça, o que transformaria os indiciados em réus, ou se solicitam diligências complementares. Independentemente do desfecho judicial, o relatório já cumpre um papel histórico no Amapá ao registrar, com selo oficial e perícia técnica, como o ecossistema das notícias falsas é capaz de subverter a realidade para proteger interesses de poder, transformando um golpe físico em uma agressão moral ainda mais profunda contra a verdade e a liberdade de informar.

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