Câmara de Macapá inicia fase de instrução para investigar vice-prefeito (no centro da imagem, ladeado por vereadores governistas) por suposta corrupção e fraudes em obras de hospital municipal
O cenário político de Macapá sofreu uma reviravolta sem precedentes quando o vereador Pedro DaLua (União), presidente da Câmara Municipal, assumiu a prefeitura interinamente por 60 dias, após o afastamento de Antônio Furlan determinado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A ascensão do parlamentar ocorre em substituição ao vice-prefeito Mário Rocha Neto, que, embora fosse o sucessor natural, também se tornou alvo da Polícia Federal e passou a responder a um processo de cassação no Legislativo. A crise é o desdobramento da segunda fase da Operação Paroxismo, que investiga um esquema de peculato, corrupção e fraudes em licitações na construção do hospital público municipal, ferindo o cerne da gestão da capital amapaense.

A vacância no comando da cidade é o ápice de um enredo de instabilidade que se arrastava nos bastidores jurídicos. Antônio Furlan, em um movimento que pegou parte do eleitorado de surpresa, optou pela renúncia imediata ao cargo logo após a decisão do STF. A estratégia, segundo analistas políticos locais, seria uma tentativa desesperada de evitar que um processo de cassação em curso na Câmara avançasse, o que resultaria em sua inelegibilidade por oito anos. Ao renunciar, Furlan tenta preservar seus direitos políticos, mas deixa para trás uma prefeitura mergulhada em suspeitas de malversação de recursos públicos e uma coalizão governista em frangalhos.

“Antônio Furlan renunciou
ao cargo em um movimento
interpretado como tentativa
de evitar a cassação e a
sua inelegibilidade futura.”
O foco das atenções agora recai sobre Mário Rocha Neto. O vice-prefeito, que deveria ser o porto seguro da continuidade administrativa, viu sua possibilidade de assumir a titularidade esvair-se conforme o relatório da Polícia Federal detalhava sua suposta participação na formação de quadrilha. A Câmara Municipal de Macapá (CMM) agiu com celeridade incomum para os padrões locais e já deu início à fase de instrução do processo que apura infrações político-administrativas atribuídas a ele. O rito segue estritamente o Decreto-Lei nº 201/1967, o que significa que o destino de Mário Neto agora está nas mãos de seus antigos aliados e adversários no parlamento.

A condução dessa investigação interna está sob a responsabilidade de uma Comissão Processante composta por nomes de diferentes matizes partidárias. O vereador Ezequias (PSD) preside o grupo, tendo Alexandre Azevedo (Podemos) como relator e Zé Luiz (PT) como membro. A diversidade da comissão sugere uma tentativa da Câmara de conferir um ar de imparcialidade e rigor técnico ao processo, evitando acusações de perseguição puramente política. A base legal para os trabalhos é a Representação nº 002/2026, aprovada em plenário sob um clima de forte tensão e pressão popular por transparência.
“A Operação Paroxismo
investiga desvios de verbas,
peculato e corrupção na
construção do hospital
público municipal de Macapá.”
O trabalho que se inicia agora é minucioso e promete paralisar as discussões legislativas de outros temas. O primeiro passo formal é a notificação oficial de Mário Rocha Neto para que ele apresente sua defesa prévia. Contudo, a comissão já sinalizou que não se limitará aos depoimentos. Estão previstas solicitações de documentos sigilosos, análises técnicas de contratos da Secretaria de Saúde e diligências diretas aos órgãos públicos envolvidos na construção do polêmico hospital municipal. A força da investigação reside no compartilhamento de provas autorizado pelo Judiciário, que coloca dados contábeis e quebras de sigilo telefônico à disposição dos vereadores.

Enquanto a comissão trabalha, a cidade de Macapá tenta entender o novo organograma de poder. Pedro DaLua assume o palácio municipal com o desafio de manter os serviços essenciais funcionando em meio a um vácuo de liderança executiva. Para a população, a crise não é apenas uma disputa de nomes, mas um impacto direto no atendimento à saúde, uma vez que o hospital que deveria estar servindo à comunidade é o próprio objeto do suposto crime. O clima nos corredores da prefeitura é de apreensão, com servidores temendo que a Operação Paroxismo revele ramificações ainda mais profundas na máquina administrativa.

“Mário Neto, que deveria
assumir a prefeitura, agora
enfrenta processo de cassação
por suposto envolvimento em
formação de quadrilha.”
O desfecho desta crise política terá como palco o plenário da Câmara. Após a fase de coleta de provas e oitivas de testemunhas, a comissão emitirá um parecer final. Se a recomendação for pela cassação e os vereadores a aprovarem, Macapá confirmará uma das maiores limpezas éticas de sua história recente. Caso contrário, o arquivamento pode selar o retorno de Mário Neto, embora com o desgaste político já consolidado. O que está em jogo vai além de mandatos: é a credibilidade das instituições públicas do Amapá diante de acusações que pintam um retrato sombrio de como o dinheiro que deveria salvar vidas foi, supostamente, desviado para o bolso de quem deveria protegê-lo.

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