Ciclo do Marabaixo 2026 é oficialmente aberto com o tema “Encontro de Gerações e Saberes da Nossa Terra”

Manifestação que é Patrimônio Cultural do Brasil une gerações em Macapá, celebrando a fé e a resistência da identidade afro-amapaense



O rufar das caixas e o rodar das saias coloridas voltam a ditar o ritmo da fé e da resistência no Amapá a partir do próximo dia 4 de abril, data que marca a abertura oficial do Ciclo do Marabaixo 2026. A manifestação, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, mobiliza comunidades quilombolas e bairros tradicionais de Macapá em um calendário que se estende do Sábado de Aleluia até o “Domingo do Senhor”, em 7 de junho, unindo ritos católicos ao culto ao Divino Espírito Santo e à Santíssima Trindade. Com o tema “Encontro de Gerações e Saberes da Nossa Terra” e o apoio estratégico do Governo do Estado, a festividade busca preservar a ancestralidade afro-amapaense enquanto fomenta o turismo e o empreendedorismo local em sete barracões históricos da capital e da zona rural.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Por Emanoel Reis, Macapá – AP
CLIMACLIMA30 de julho de 2019Por Emanoel Reis, Macapá – AP

Para o povo amapaense, o Marabaixo não é apenas uma data no calendário; é a respiração de uma identidade que sobreviveu ao tempo. A tradição, que remonta aos lamentos e celebrações dos negros escravizados na construção da Fortaleza de São José de Macapá, hoje se manifesta em uma explosão de cores, sabores e sons que transformam a cidade. Sob a coordenação da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) e da Fundação Marabaixo, o ciclo deste ano reforça a ideia de que a cultura é um organismo vivo, passado de mão em mão, de avós para netos, garantindo que o legado dos antigos não se perca no silêncio da modernidade.

CLIQUE NA IMAGEM

A engrenagem que move essa celebração começa muito antes do primeiro toque do tambor. Na comunidade de Campina Grande, localizada às margens do trecho sul da BR-156, o movimento é intenso. Ali, três gerações da mesma família se dividem nas tarefas de organizar o barracão Jesus, Maria e José. Solange Costa, coordenadora do grupo, personifica a dedicação que define o Ciclo. Para ela, a união familiar é o alicerce que sustenta a grandeza da festa. Entre a limpeza dos espaços, o preparo da gengibirra — a bebida tradicional à base de gengibre e cachaça — e a confecção das roupas, o sentimento predominante é a devoção. É um trabalho que mistura o suor do esforço físico com a leveza da espiritualidade, preparando o terreno para receber visitantes e grupos convidados em um abraço coletivo de hospitalidade.

CLIQUE NA IMAGEM

Na área urbana de Macapá, o cenário de efervescência se repete em pontos emblemáticos. Seis grupos culturais são os guardiões desses rituais, divididos em sete barracões que funcionam como verdadeiros templos da cultura popular. No bairro Santa Rita, antigo bairro da Favela, o Berço do Marabaixo, o Raízes da Favela Dica Congó e a Associação Zeca e Bibi Costa (Azebic) mantêm viva a chama da tradição. Já no Laguinho, berço histórico da resistência negra na capital, os grupos Marabaixo do Pavão e Raimundo Ladislau preparam seus mastros e bandeiras. Na zona rural, além da Campina Grande, a Santíssima Trindade da Casa Grande completa o cinturão de proteção dessa herança imaterial.

A diretora-presidente da Fundação Marabaixo, Josilana Santos, observa que a gestão estadual compreende o Ciclo como um pilar de valorização da dignidade humana e da igualdade racial. Segundo ela, o apoio governamental, que envolve pastas como Turismo, Trabalho e Desporto, é uma forma de reconhecer que o marabaixeiro é, antes de tudo, um produtor de saberes. O reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial, obtido em 2018, trouxe uma responsabilidade adicional: a de não deixar que a manifestação seja vista apenas como folclore, mas como uma política de Estado que respeita a ancestralidade e promove o desenvolvimento social por meio da cultura.

CLIQUE NA IMAGEM

Um dos destaques da programação de 2026 é a quarta edição da Central do Ciclo do Marabaixo, que acontecerá entre 30 de abril e 2 de maio no Centro de Cultura Raimundinha Ramos, no Laguinho. O espaço foi pensado para ser uma vitrine pedagógica e sensorial da tradição. Lá, o público poderá mergulhar nos elementos que compõem o universo marabaixeiro: o aroma da murta, o simbolismo das bandeiras, o significado dos mastros e a poesia improvisada dos “ladrões”, como são chamados os versos cantados durante as rodas. Com estandes de todos os grupos e uma feira de afroempreendedorismo, a Central conecta a fé à economia criativa, gerando renda para artesãos e cozinheiros tradicionais.

Para os mais dispostos, o Ciclo também se faz caminho de superação física. No dia 4 de junho, a segunda edição da Corrida do Ciclo unirá esporte e cultura em um percurso que atravessa cinco barracões da área urbana de Macapá. A largada, prevista para as primeiras luzes da manhã no Barracão Tia Gertrudes, simboliza o dinamismo de uma tradição que sabe ocupar as ruas. A integração entre a Secretaria de Desporto e Lazer (Sedel) e as entidades culturais demonstra que o Marabaixo transborda os limites dos barracões, ocupando o espaço público e convidando toda a sociedade a participar, independentemente de credo ou origem.


Ao final do Ciclo, em junho, o que se espera é que o tema “Encontro de Gerações” tenha cumprido seu papel de ponte. Quando uma criança segura a baqueta para aprender o toque da caixa com um mestre veterano, ou quando uma jovem aprende a rodar a saia observando a elegância de uma baluarte, o Marabaixo se renova. É essa continuidade, alimentada pela fé e pelo apoio institucional, que garante que, ano após ano, o Amapá continue a celebrar a sua essência mais profunda. O Ciclo do Marabaixo de 2026 promete ser, assim, mais um capítulo de uma história de resistência que começou nos quilombos e hoje ecoa em cada esquina da “Terra Tucuju”, reafirmando que a ancestralidade é o combustível para o futuro.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.