Gestão Antônio Furlan priorizou obras de fachada e deixou legado de super endividamento em Macapá

Para analistas políticos, o prefeito interino de Macapá, Pedro DaLua, deveria anunciar ampla auditoria nas contas da Prefeitura de Macapá e nos contratos da Saúde e Obras após denúncias de rombo e falta de transparência evidenciadas com a renúncia do ex-prefeito



A renúncia do ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan (PSD), foi uma estratégia para preservação de seus direitos políticos após ser afastado por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão de largar o segundo mandato pela metade ocorreu em meio à Operação Paroxismo, deflagrada pela Polícia Federal, que investiga um sofisticado esquema de fraudes em licitações e desvios de recursos públicos na Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) destinados à construção do Hospital Municipal. Ao abandonar o cargo, Furlan tentou evitar um processo de cassação na Câmara de Vereadores que inviabilizaria sua pretensão de concorrer ao Governo do Estado nas próximas eleições.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP
CONJUNTURACONJUNTURA30 de julho de 2019Por Emanoel Reis, Macapá – AP

O terremoto político que abalou Macapá teve seu epicentro na decisão do ministro Flávio Dino, que autorizou a imediata execução de 13 mandados de busca e apreensão cumpridos em Macapá, Belém (PA) e Natal (RN). Além de Furlan, o vice-prefeito Mario Neto (MDB) também foi alvo das diligências, que buscavam colher provas sobre o direcionamento de contratos públicos. A Operação Paroxismo atingiu em cheio o coração financeiro da prefeitura com apurações sobre verbas federais que foram drenadas por meio de empreiteiras suspeitas e licitações viciadas.
O afastamento inicial, determinado pela Justiça por um prazo de 60 dias, serviu como o gatilho final para que o agora ex-prefeito calculasse o risco de permanecer no posto sob a sombra de uma intervenção judicial e o desgaste de uma iminente destituição pelo Legislativo.

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Minutos após a renúncia, Furlan utilizou suas redes sociais para modular a narrativa de sua saída. Em um vídeo gravado em tom alarmista, ele ignorou os detalhes técnicos da investigação da Polícia Federal e não mencionou os indícios de corrupção apontados pelos investigadores. Em vez disso, declarou-se vítima de “ataques e perseguições” das elites políticas amapaenses, referindo-se às famílias tradicionais do Amapá como “conservadoras e bairristas”, e anunciou sua pré-candidatura ao governo do Amapá.
A manobra foi vista por analistas políticos como uma tentativa clássica de transferir o foro de discussão do campo criminal para o campo eleitoral, buscando apoio popular sob o pretexto de um suposto “lawfare” (o uso do sistema jurídico como parte de uma estratégia contra adversários — ou seja, o uso das leis como uma arma política).

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Além de crescentes escândalos político-financeiros, Antônio Furlan também deixou para trás uma administração marcada por um déficit histórico de R$ 332 milhões e uma crise profunda nos serviços essenciais. A realidade financeira de Macapá, conforme revelam dados recentes, é alarmante. A capital, que se tornou a segunda maior beneficiária do país em “Emendas Pix” — modalidade de transferência de recursos parlamentares sem fiscalização imediata — recebendo R$ 128,9 milhões, não conseguiu traduzir esse montante em estabilidade fiscal. Pelo contrário, a gestão Furlan caracterizou-se por um apetite voraz por empréstimos bancários de curto e longo prazo.

Esse endividamento sistêmico gerou um déficit estratosférico, comprometendo a capacidade de investimento da cidade pelas próximas décadas. O “super endividamento”, termo que passou a ser recorrente nos debates da Câmara Municipal, é o legado visível de uma administração que priorizou obras de fachada em detrimento da saúde financeira do município.

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O impacto dessa crise financeira já é sentido diretamente pela população e pelos servidores. Nos corredores da prefeitura, o clima é de incerteza. Diversos setores da gestão municipal enfrentam atrasos salariais crônicos, com destaque para os trabalhadores da limpeza urbana. Coletores de lixo e varredores, que já lidam com condições precárias de trabalho, acumulam meses de vencimentos não pagos, o que tem gerado paralisações pontuais e o acúmulo de detritos em avenidas principais da capital.
Fornecedores de insumos básicos, desde materiais de escritório a medicamentos para as Unidades Básicas de Saúde (UBS), também acumulam notas fiscais pendentes, criando um efeito dominó que paralisou serviços essenciais.

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A investigação da Polícia Federal detalha que o esquema de fraude no Hospital Municipal não era um fato isolado, mas parte de um método de gestão de contratos. A Operação Paroxismo aponta que a escolha das empresas vencedoras passava por um crivo político-financeiro, onde o superfaturamento servia para alimentar o caixa 2 de grupos ligados à cúpula da gestão Furlan.

Os documentos apreendidos em Macapá, Belém e Natal estão passando por perícia para rastrear o caminho do dinheiro e identificar se houve remessa de valores para contas no exterior ou ocultação de patrimônio em nome de terceiros. A participação do vice-prefeito Mario Neto nas suspeitas amplia o isolamento do grupo político que comandava a cidade, uma vez que ele também foi impedido de exercer funções públicas durante o período de investigação.

O desafio do sucessor interino de Antônio Furlan, o ex-presidente da CMM, vereador Pedro daLua (União), no cargo desde 5 de março, tem sido implementar uma auditoria abrangente sobre as contas municipais e buscar renegociar as dívidas com os bancos e fornecedores para evitar o colapso total dos serviços públicos. A oposição, que vinha alertando sobre a dependência excessiva de empréstimos e a falta de transparência nas “Emendas Pix”, agora pressiona por uma auditoria independente em todos os contratos firmados pelas Secretarias de Saúde (Semsa) e Obras e Infraestrutura Urbana (Semob). Para os críticos, a injeção recorde de recursos federais deveria ter sanado o déficit da cidade, mas, sob a gestão passada, serviu apenas para mascarar um rombo estrutural.


Enquanto o processo judicial segue seu curso no STF, a atenção se volta para o tabuleiro eleitoral. A renúncia estratégica de Antônio Furlan mantém, por ora, sua elegibilidade, mas o peso das acusações de corrupção e o estado de insolvência da prefeitura serão os principais obstáculos em sua jornada rumo ao governo estadual. Para os moradores de Macapá, o momento é de apreensão; entre as promessas de um hospital que virou centro de um escândalo e as ruas que sofrem com a falta de manutenção, a cidade busca agora uma saída para a maior crise institucional de sua história recente. O desfecho da Operação Paroxismo promete novos desdobramentos que podem atingir outros escalões da política amapaense, à medida que os investigadores avançam na análise do fluxo financeiro do milionário esquema de fraude e corrupção montado nos escaninhos da Prefeitura de Macapá.


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