Para analistas políticos, o prefeito interino de Macapá, Pedro DaLua, deveria anunciar ampla auditoria nas contas da Prefeitura de Macapá e nos contratos da Saúde e Obras após denúncias de rombo e falta de transparência evidenciadas com a renúncia do ex-prefeito
A renúncia do ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan (PSD), foi uma estratégia para preservação de seus direitos políticos após ser afastado por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão de largar o segundo mandato pela metade ocorreu em meio à Operação Paroxismo, deflagrada pela Polícia Federal, que investiga um sofisticado esquema de fraudes em licitações e desvios de recursos públicos na Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) destinados à construção do Hospital Municipal. Ao abandonar o cargo, Furlan tentou evitar um processo de cassação na Câmara de Vereadores que inviabilizaria sua pretensão de concorrer ao Governo do Estado nas próximas eleições.

O terremoto político que abalou Macapá teve seu epicentro na decisão do ministro Flávio Dino, que autorizou a imediata execução de 13 mandados de busca e apreensão cumpridos em Macapá, Belém (PA) e Natal (RN). Além de Furlan, o vice-prefeito Mario Neto (MDB) também foi alvo das diligências, que buscavam colher provas sobre o direcionamento de contratos públicos. A Operação Paroxismo atingiu em cheio o coração financeiro da prefeitura com apurações sobre verbas federais que foram drenadas por meio de empreiteiras suspeitas e licitações viciadas.
O afastamento inicial, determinado pela Justiça por um prazo de 60 dias, serviu como o gatilho final para que o agora ex-prefeito calculasse o risco de permanecer no posto sob a sombra de uma intervenção judicial e o desgaste de uma iminente destituição pelo Legislativo.

Para evitar a cassação
e manter o sonho de
disputar o Governo,
Furlan renunciou sob a
pressão da PF e do STF.
Minutos após a renúncia, Furlan utilizou suas redes sociais para modular a narrativa de sua saída. Em um vídeo gravado em tom alarmista, ele ignorou os detalhes técnicos da investigação da Polícia Federal e não mencionou os indícios de corrupção apontados pelos investigadores. Em vez disso, declarou-se vítima de “ataques e perseguições” das elites políticas amapaenses, referindo-se às famílias tradicionais do Amapá como “conservadoras e bairristas”, e anunciou sua pré-candidatura ao governo do Amapá.
A manobra foi vista por analistas políticos como uma tentativa clássica de transferir o foro de discussão do campo criminal para o campo eleitoral, buscando apoio popular sob o pretexto de um suposto “lawfare” (o uso do sistema jurídico como parte de uma estratégia contra adversários — ou seja, o uso das leis como uma arma política).

Além de crescentes escândalos político-financeiros, Antônio Furlan também deixou para trás uma administração marcada por um déficit histórico de R$ 332 milhões e uma crise profunda nos serviços essenciais. A realidade financeira de Macapá, conforme revelam dados recentes, é alarmante. A capital, que se tornou a segunda maior beneficiária do país em “Emendas Pix” — modalidade de transferência de recursos parlamentares sem fiscalização imediata — recebendo R$ 128,9 milhões, não conseguiu traduzir esse montante em estabilidade fiscal. Pelo contrário, a gestão Furlan caracterizou-se por um apetite voraz por empréstimos bancários de curto e longo prazo.
Mesmo com recorde de
Emendas Pix, Macapá
enfrenta déficit de R$ 332
milhões e salários de
prestadores atrasados.
Esse endividamento sistêmico gerou um déficit estratosférico, comprometendo a capacidade de investimento da cidade pelas próximas décadas. O “super endividamento”, termo que passou a ser recorrente nos debates da Câmara Municipal, é o legado visível de uma administração que priorizou obras de fachada em detrimento da saúde financeira do município.

O impacto dessa crise financeira já é sentido diretamente pela população e pelos servidores. Nos corredores da prefeitura, o clima é de incerteza. Diversos setores da gestão municipal enfrentam atrasos salariais crônicos, com destaque para os trabalhadores da limpeza urbana. Coletores de lixo e varredores, que já lidam com condições precárias de trabalho, acumulam meses de vencimentos não pagos, o que tem gerado paralisações pontuais e o acúmulo de detritos em avenidas principais da capital.
Fornecedores de insumos básicos, desde materiais de escritório a medicamentos para as Unidades Básicas de Saúde (UBS), também acumulam notas fiscais pendentes, criando um efeito dominó que paralisou serviços essenciais.

A investigação da Polícia Federal detalha que o esquema de fraude no Hospital Municipal não era um fato isolado, mas parte de um método de gestão de contratos. A Operação Paroxismo aponta que a escolha das empresas vencedoras passava por um crivo político-financeiro, onde o superfaturamento servia para alimentar o caixa 2 de grupos ligados à cúpula da gestão Furlan.

Os documentos apreendidos em Macapá, Belém e Natal estão passando por perícia para rastrear o caminho do dinheiro e identificar se houve remessa de valores para contas no exterior ou ocultação de patrimônio em nome de terceiros. A participação do vice-prefeito Mario Neto nas suspeitas amplia o isolamento do grupo político que comandava a cidade, uma vez que ele também foi impedido de exercer funções públicas durante o período de investigação.
A Operação Paroxismo
investiga fraudes em
licitações na Saúde e
o desvio de verbas do
novo Hospital Municipal.
O desafio do sucessor interino de Antônio Furlan, o ex-presidente da CMM, vereador Pedro daLua (União), no cargo desde 5 de março, tem sido implementar uma auditoria abrangente sobre as contas municipais e buscar renegociar as dívidas com os bancos e fornecedores para evitar o colapso total dos serviços públicos. A oposição, que vinha alertando sobre a dependência excessiva de empréstimos e a falta de transparência nas “Emendas Pix”, agora pressiona por uma auditoria independente em todos os contratos firmados pelas Secretarias de Saúde (Semsa) e Obras e Infraestrutura Urbana (Semob). Para os críticos, a injeção recorde de recursos federais deveria ter sanado o déficit da cidade, mas, sob a gestão passada, serviu apenas para mascarar um rombo estrutural.

Enquanto o processo judicial segue seu curso no STF, a atenção se volta para o tabuleiro eleitoral. A renúncia estratégica de Antônio Furlan mantém, por ora, sua elegibilidade, mas o peso das acusações de corrupção e o estado de insolvência da prefeitura serão os principais obstáculos em sua jornada rumo ao governo estadual. Para os moradores de Macapá, o momento é de apreensão; entre as promessas de um hospital que virou centro de um escândalo e as ruas que sofrem com a falta de manutenção, a cidade busca agora uma saída para a maior crise institucional de sua história recente. O desfecho da Operação Paroxismo promete novos desdobramentos que podem atingir outros escalões da política amapaense, à medida que os investigadores avançam na análise do fluxo financeiro do milionário esquema de fraude e corrupção montado nos escaninhos da Prefeitura de Macapá.

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