Prefeito interino de Macapá é alvo de críticas por problemas crônicos na cidade herdados da gestão Furlan

Diante do acúmulo de resíduos no Buritizal, Raimundo Lino expressa a preocupação da comunidade com doenças. A falta de coleta regular na Zona Sul agrava o cenário durante o inverno amazônico.



A população de Macapá assiste, desde o início de março de 2026, a uma reviravolta administrativa e midiática sem precedentes, após o afastamento e posterior renúncia do ex-prefeito Antônio Furlan (PSD) em meio a investigações da Polícia Federal sobre desvios na construção do Hospital Municipal. O vácuo de poder, preenchido interinamente pelo presidente da Câmara, Pedro DaLua (União Brasil), alterou drasticamente o tom das manchetes de blogues, sites e portais, e das emissoras de rádio e televisão: problemas crônicos de infraestrutura nas periferias, como buracos, lama e alagamentos — ignorados por anos pela mídia convencional —, passaram a ser creditados integralmente à nova gestão, que completa pouco mais de um mês no cargo.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP

O terremoto político começou em 4 de março, quando o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o afastamento de Furlan por 60 dias no âmbito da Operação Paroxismo. A investigação aponta um esquema de fraudes e lavagem de dinheiro envolvendo emendas federais destinadas à saúde. Em uma manobra estratégica para evitar um processo de cassação na Câmara e preservar sua elegibilidade para o governo estadual em 2026, Furlan renunciou ao mandato apenas 24 horas após a decisão judicial. A saída abrupta entregou as chaves do Palácio Laurindo Banha a DaLua, que herdou uma cidade com sérios gargalos estruturais acumulados.

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Durante os mais de cinco anos da gestão anterior, moradores de bairros periféricos utilizavam as redes sociais como único refúgio para denunciar o abandono. Ruas transformadas em canais de lama e o avanço do mato sobre o asfalto eram realidades cotidianas raramente retratadas pela mídia atrelada à gestão Furlan, que mantinha uma linha editorial de preservação da imagem do ex-prefeito. Emissoras de TV, com destaque para a TV Equinócio, focavam em entregas pontuais e eventos festivos, enquanto as reclamações das comunidades mais distantes do centro eram filtradas ou silenciadas.

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Contudo, o cenário mudou assim que o gabinete principal trocou de dono. Nas últimas semanas, o que se vê é uma “redescoberta” das mazelas urbanas por parte dos veículos de comunicação. Reportagens extensas agora detalham a buraqueira e a precariedade da iluminação pública, mas com um novo alvo: Pedro DaLua. O prefeito interino passou a ser cobrado por soluções imediatas para problemas que se arrastam desde 2021, enfrentando uma onda de críticas que ignora o curto tempo de sua gestão e a crise financeira gerada pela suspensão de repasses federais sob investigação.

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Nos bastidores políticos, a narrativa da mídia é vista como parte de um jogo de pressões que visa isolar o atual gestor. Enquanto Furlan se mantém em silêncio sobre as graves suspeitas levantadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, a pauta da infraestrutura é utilizada para desgastar DaLua. A rejeição ao interino nas redes sociais é alimentada por questionamentos sobre a continuidade da coleta de lixo e o ritmo de obras inacabadas, muitas das quais estão paralisadas devido ao bloqueio de recursos vinculados à operação policial que derrubou o titular anterior.


A situação em Macapá revela a fragilidade da infraestrutura urbana quando submetida às conveniências políticas e editoriais. Para o cidadão da periferia, pouco importa o nome de quem ocupa a cadeira se a buraqueira continua à porta, mas o fenômeno atual expõe como a denúncia do abandono pode ser seletiva. Enquanto o Judiciário se debruça sobre as planilhas de custos do Hospital Municipal, o eleitor observa uma cidade dividida entre o lodo da corrupção investigada e a lama das ruas que, subitamente, tornaram-se visíveis aos olhos das câmeras. O desfecho dessa crise administrativa ainda é incerto, mas a memória seletiva da comunicação local já definiu seu próximo campo de batalha.



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