Diante do acúmulo de resíduos no Buritizal, Raimundo Lino expressa a preocupação da comunidade com doenças. A falta de coleta regular na Zona Sul agrava o cenário durante o inverno amazônico.
A população de Macapá assiste, desde o início de março de 2026, a uma reviravolta administrativa e midiática sem precedentes, após o afastamento e posterior renúncia do ex-prefeito Antônio Furlan (PSD) em meio a investigações da Polícia Federal sobre desvios na construção do Hospital Municipal. O vácuo de poder, preenchido interinamente pelo presidente da Câmara, Pedro DaLua (União Brasil), alterou drasticamente o tom das manchetes de blogues, sites e portais, e das emissoras de rádio e televisão: problemas crônicos de infraestrutura nas periferias, como buracos, lama e alagamentos — ignorados por anos pela mídia convencional —, passaram a ser creditados integralmente à nova gestão, que completa pouco mais de um mês no cargo.

O terremoto político começou em 4 de março, quando o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o afastamento de Furlan por 60 dias no âmbito da Operação Paroxismo. A investigação aponta um esquema de fraudes e lavagem de dinheiro envolvendo emendas federais destinadas à saúde. Em uma manobra estratégica para evitar um processo de cassação na Câmara e preservar sua elegibilidade para o governo estadual em 2026, Furlan renunciou ao mandato apenas 24 horas após a decisão judicial. A saída abrupta entregou as chaves do Palácio Laurindo Banha a DaLua, que herdou uma cidade com sérios gargalos estruturais acumulados.

“Furlan renunciou para
evitar a cassação e a
inelegibilidade, tentando
limpar o caminho para o
Governo do Estado em 2026.”
Durante os mais de cinco anos da gestão anterior, moradores de bairros periféricos utilizavam as redes sociais como único refúgio para denunciar o abandono. Ruas transformadas em canais de lama e o avanço do mato sobre o asfalto eram realidades cotidianas raramente retratadas pela mídia atrelada à gestão Furlan, que mantinha uma linha editorial de preservação da imagem do ex-prefeito. Emissoras de TV, com destaque para a TV Equinócio, focavam em entregas pontuais e eventos festivos, enquanto as reclamações das comunidades mais distantes do centro eram filtradas ou silenciadas.

Contudo, o cenário mudou assim que o gabinete principal trocou de dono. Nas últimas semanas, o que se vê é uma “redescoberta” das mazelas urbanas por parte dos veículos de comunicação. Reportagens extensas agora detalham a buraqueira e a precariedade da iluminação pública, mas com um novo alvo: Pedro DaLua. O prefeito interino passou a ser cobrado por soluções imediatas para problemas que se arrastam desde 2021, enfrentando uma onda de críticas que ignora o curto tempo de sua gestão e a crise financeira gerada pela suspensão de repasses federais sob investigação.

“Problemas ignorados pela
mídia por cinco anos agora
são usados para desgastar
o prefeito interino após
apenas um mês de gestão.”
Nos bastidores políticos, a narrativa da mídia é vista como parte de um jogo de pressões que visa isolar o atual gestor. Enquanto Furlan se mantém em silêncio sobre as graves suspeitas levantadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, a pauta da infraestrutura é utilizada para desgastar DaLua. A rejeição ao interino nas redes sociais é alimentada por questionamentos sobre a continuidade da coleta de lixo e o ritmo de obras inacabadas, muitas das quais estão paralisadas devido ao bloqueio de recursos vinculados à operação policial que derrubou o titular anterior.

“Ruas tomadas por lama e
mato na periferia, antes
escondidas, ganham as telas
para isolar politicamente
o sucessor de Antônio Furlan.”
A situação em Macapá revela a fragilidade da infraestrutura urbana quando submetida às conveniências políticas e editoriais. Para o cidadão da periferia, pouco importa o nome de quem ocupa a cadeira se a buraqueira continua à porta, mas o fenômeno atual expõe como a denúncia do abandono pode ser seletiva. Enquanto o Judiciário se debruça sobre as planilhas de custos do Hospital Municipal, o eleitor observa uma cidade dividida entre o lodo da corrupção investigada e a lama das ruas que, subitamente, tornaram-se visíveis aos olhos das câmeras. O desfecho dessa crise administrativa ainda é incerto, mas a memória seletiva da comunicação local já definiu seu próximo campo de batalha.
Moradores da zona sul enfrentam crise sanitária devido ao acúmulo de lixo
Moradores da zona sul de Macapá vêm enfrentando, desde o ano passado, o agravamento de uma crise sanitária relacionada ao acúmulo de lixo e pela intensidade do inverno amazônico nos bairros Buritizal, Santa Rita, Congós e Muca. A irregularidade na coleta, que chega a atrasar seis dias, somada às fortes chuvas, transformou vias públicas em focos de doenças e áreas de alagamento crônico, gerando revolta e medo em quem reside na região.
A precariedade do serviço de limpeza urbana é visível em pontos críticos como o conjunto habitacional Açucena, onde os depósitos de resíduos transbordaram, ocupando calçadas e exalando mau cheiro. Para os moradores, a situação atingiu o limite da tolerância. Raimundo Lino, residente da área, descreve um cenário desolador onde as ruas, tomadas pela água das chuvas e pelo lixo espalhado, assemelham-se a um “oceano” de sujeira.
Com o solo encharcado e os bueiros obstruídos pelos detritos, o risco de proliferação de vetores e a contaminação da água tornam-se ameaças imediatas à saúde pública. A comunidade cobra providências urgentes da prefeitura, alegando que o descaso administrativo, potencializado pelo período sazonal, coloca em risco a segurança e o bem-estar de milhares de famílias que hoje convivem com o lixo na porta de casa.

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