Pragmatismo de Alcolumbre pode servir à transição para um Senado de perfil conservador

As conversas do presidente do Senado para recuperar a liderança do Congresso levaram em consideração o contexto político favorável ao centro e à direita



A Presidência de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) no Senado e, sobretudo, detalhes não revelados de acordos que ele firmou com a direita para voltar a comandar a Casa no biênio 2025-2026, poderão servir à transição para o período seguinte, com a perspectiva de um plenário de viés conservador.
A principal razão disso é que a oposição e o próprio Alcolumbre calculam que uma maioria direitista entre os 81 senadores pode ser formada a partir de 2027. Dois terços das vagas no Senado serão renovadas nas próximas eleições.

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Sabe-se nos bastidores que suas negociações para retomar a chefia do Congresso consideraram a tendência geral do cenário político, em favor do centro e da direita. Nesse cenário, a escolha de Eduardo Gomes (PL-TO) como vice-presidente adveio, por exemplo, de acertos com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados, para garantir à oposição postos de decisão.


Discurso pela autonomia do Senado atende à maior demanda da oposição

A ampla coalizão de partidos que elegeu Alcolumbre – do PT de Lula ao PL de Bolsonaro –, consolida a hegemonia de políticos do Norte e do Nordeste no Senado e aprofunda o domínio de partidos de centro. Com 73 votos, apenas três a menos do obtido por José Sarney (MDB), o mais poderoso ex-presidente da Casa, Alcolumbre revela seu apetite por continuidade.
Alcolumbre chegou ao Senado em 2015 e quatro anos depois se tornou presidente pela primeira vez, aos 41 anos, o mais jovem da história. Hábil articulador nos bastidores, ele é tido pelos pares como confiável em acordos e sempre disposto a ouvir. Além de alianças robustas com velhos caciques, o jogo de poder no Senado se dá por uma intensa troca de favores pessoais.
O esforço de Alcolumbre para voltar à presidência do Senado focou tanto demandas dos colegas no varejo quanto no atacado dos grupos políticos. No seu discurso ainda como candidato, ele destacou que a defesa do mandato parlamentar seria o maior compromisso da sua gestão.
Segundo ele, democracia forte depende de “Congresso livre”, “Parlamento firme” e um “Senado soberano e independente”. Esses termos se casam inteiramente com a principal demanda da oposição. Dentro do campo da direita, contudo, o apoio a Alcolumbre gerou fortes discussões internas e candidaturas de protesto. Depois de eleito, sua postura contra a anistia de condenados do 8 de Janeiro também foi criticada.

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Pragmatismo de Alcolumbre pode ajudar o seu projeto de continuidade

Leandro Gabiati, diretor da consultoria política Dominium, não tem dúvidas de que Alcolumbre continuará tendo atuação política pautada pelo absoluto pragmatismo. “Ele manterá o diálogo aberto com o governo enquanto conversa com a oposição”, aposta.
Mas o cientista político sugere cautela quanto à perspectiva de maioria conservadora no Senado após as eleições de 2026. “É preciso aguardar. A polarização será uma constante, mas partidos de centro, como MDB e PSD, tendem a crescer”, observa.
Em paralelo, Alcolumbre deve manter o governo sob pressão, usando um espaço ocupado até o ano passado pelo então presidente da Câmara, Arthur Lira (PL-AL). O perfil do novo presidente da Câmara, Hugo Mota (Republicanos), é mais parecido com o do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG), porém tem se mostrado mais independente.


Decadência da esquerda conduz Alcolumbre no rumo da direita ou do centro

O cientista político Ismael Almeida acredita que os rumores sobre o acordo entre PL e Alcolumbre envolver a renovação do apoio partidário a ele na próxima eleição para a Presidência do Senado, em 2027, fazem sentido diante do desgaste da esquerda.
Segundo o especialista, a incapacidade de o PT de apresentar nomes alternativos para disputas nacionais – evidenciada pelo afastamento de aliados como Paulinho da Força, do Solidariedade, e pelo provável racha com o PSol –, favorece a direita. Alcolumbre sabe disso. “Ele nem precisa fazer uma guinada. Será levado naturalmente pela onda que está arrastando todo o establishment político para a direita”, conclui.
Luiz Filipe Freitas, coordenador de relações governamentais do escritório Malta Advogados, avalia que Alcolumbre já projeta sua gestão à frente ao Senado com um horizonte de quatro anos, na qual exercerá sua característica principal de negociador, seja lá qual for o espectro ideológico do Executivo.
Ele adverte que a tendência conservadora para o Senado deixou de ser absoluta após os resultados das eleições municipais de 2024, que exibiram viés centrista. “Podemos ver surpresas, com a vitória nos estados de duplas de candidatos de direita e centro, apesar da estratégia dos Bolsonaro”, diz. Ele se refere ao projeto do PL de tentar eleger dois senadores por estado em 2026.


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