As milícias digitais perderam seu general; sem o comando central, o enxame de ataques virtuais perde o rumo e o poder de fogo
Com o afastamento de Antônio Furlan (PSD) do cargo de prefeito de Macapá por 60 dias, por determinação do Supremo Tribunal Federal, o Palácio Laurindo Banha não perdeu apenas o seu gestor; perdeu o seu centro de comando digital. Levantamentos realizados pela redação do portal Região Norte Notícias apontam que o afastamento de Furlan desarticulou o que fontes e investigadores classificam como uma milícia digital organizada, um exército de influência que operava nas sombras dos gabinetes para blindar o prefeito e triturar reputações de adversários.

A estrutura desse “enxame” virtual não era fruto do acaso. Segundo as apurações, a gênese desses grupos remonta à atuação de Diego Santos, ex-secretário de Comunicação e atual secretário de Articulação Institucional. Santos teria sido o arquiteto inicial de uma rede composta por uma mistura híbrida de perfis reais e robôs, programados para manipular algoritmos e garantir que a narrativa oficial de Furlan fosse a única voz audível no ecossistema digital macapaense. A missão era clara e impiedosa: utilizar redes sociais e plataformas de mensagens para difundir desinformação, disseminar discursos de ódio e intimidar qualquer instituição ou indivíduo que ousasse questionar os métodos da administração municipal.

A gestão desse grupo, contudo, passou por turbulências internas antes mesmo da intervenção judicial. Por um período considerável, o comando desses “terroristas virtuais” esteve sob influência de Juarez Menescal, outro ex-secretário de Comunicação da prefeitura. Menescal, no entanto, deixou o cargo em meio a um cenário de polêmicas e rachas internos. Fontes próximas ao gabinete revelam que o estopim para sua saída foi um embate direto com outros secretários do núcleo duro de Furlan, expondo que até mesmo as estruturas de ataque digital sofriam com a erosão de alianças e o canibalismo político. Esse racha interno já havia começado a fragilizar o poder ofensivo do grupo, mas foi a caneta do ministro Flávio Dino que desferiu o golpe de misericórdia.

De acordo com interlocutores que acompanham de perto a rotina do palácio, as milícias digitais eram financiadas para atuar como uma guarda pretoriana moderna, capaz de gerar pânico e desestabilizar o debate público sempre que o prefeito enfrentava crises de imagem. A estratégia de agir em bloco permitia que narrativas falsas ganhassem ares de verdade absoluta pela simples repetição exaustiva. Com Furlan alijado do tabuleiro político pelo prazo de dois meses, o fluxo de financiamento e a coordenação centralizada dessas manobras transversas entraram em colapso. O silêncio desses grupos não é apenas uma consequência jurídica, mas uma mudança climática no debate político da cidade.

A ascensão do vereador Pedro DaLua à chefia do Executivo municipal trouxe consigo uma promessa implícita de assepsia administrativa. Sendo historicamente um ator político com suas próprias bases, DaLua não herdou os comandos desse exército de bots e perfis fakes. Pelo contrário, a nova gestão interina sinaliza que a desarticulação dessas milícias é um passo necessário para retomar a normalidade institucional e baixar a temperatura da agressividade política nas redes. Sem o suporte do principal gabinete e sem a liderança estratégica de seus antigos comandantes, os integrantes dessa rede de desinformação veem seu poder de fogo minguar, perdendo a capacidade de influenciar as tendências do Google e as conversas de WhatsApp.

A queda temporária de Furlan expõe o quão dependente a política moderna se tornou dessas estruturas paralelas. O que antes era resolvido no palanque, hoje é decidido por cliques coordenados, mas a Operação Paroxismo mostrou que as fundações digitais são tão frágeis quanto as de concreto se houver suspeita de ilegalidade. Macapá agora observa, em um silêncio digital incomum, se essa desarticulação será definitiva ou se os enxames virtuais estão apenas aguardando a próxima troca de comando para voltarem a sapatear sobre a democracia macapaense.

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