Após renunciar ao cargo sob cerco judicial, Antônio Furlan tenta transferir seu capital político para Rayssa Furlan na disputa estadual, enquanto a Operação Paroxismo avança sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e fraudes milionárias na saúde pública da capital
O ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan (PSD), articula nos bastidores políticos do Amapá o lançamento de sua esposa e ex-primeira-dama, Rayssa Furlan (Podemos), como candidata ao Governo do Estado nas eleições de outubro de 2026. A manobra, tratada por aliados como um “plano B” de sobrevivência política, ocorre após Furlan ser alvo de sucessivas operações da Polícia Federal (PF) e enfrentar o risco iminente de prisão devido às investigações da Operação Paroxismo, que apura o desvio de R$ 129 milhões em verbas destinadas à construção do Hospital Municipal de Macapá. Pressionado pelo afastamento determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em março e pela subsequente renúncia ao cargo, o ex-prefeito busca transferir seu capital político para a esposa como forma de manter o foro privilegiado e a influência do grupo familiar no estado.

A estratégia de Furlan é uma resposta direta ao cerco jurídico que se fechou sobre sua gestão nos últimos meses. Relatórios detalhados da PF indicam que o esquema de corrupção não apenas direcionava licitações, mas também utilizava empresas ligadas ao casal, como a RCF Serviços Médicos, para lavar o dinheiro desviado. Com a quebra de sigilos bancários e fiscais já autorizada pela Justiça, o ex-prefeito tenta agora blindar o futuro da família por meio das urnas. A escolha de Rayssa para a cabeça de chapa ao governo, em vez de uma candidatura ao Senado — onde ela já lidera as pesquisas —, é vista como uma tentativa de garantir uma estrutura de poder executivo que ofereça maior proteção política e visibilidade para contra-atacar as acusações.

No entanto, o plano enfrenta obstáculos significativos dentro da própria base aliada e perante o eleitorado. Embora Furlan ainda ostente altos índices de popularidade na capital, a associação direta de Rayssa com as investigações — ela também teve sigilos quebrados e o celular apreendido em março de 2026 — fornece munição pesada aos adversários. Críticos apontam que a candidatura não passa de um “projeto de imunidade”, utilizando a estrutura partidária para evitar o banco dos réus. A ex-primeira-dama, que teve uma passagem discreta e contestada pela Secretaria Municipal de Mobilização Popular, agora precisa convencer o interior do estado de que sua postulação é um projeto administrativo autônomo, e não apenas um anteparo jurídico para o marido.

A movimentação altera drasticamente o tabuleiro eleitoral amapaense. A entrada de Rayssa na disputa pelo governo fragmenta o apoio de centro-direita e obriga o atual governador, Clécio Luís, a recalcular sua estratégia de reeleição. Para Furlan, a aposta é de “tudo ou nada”: se bem-sucedido, o plano mantém o clã no poder; se fracassar, a derrota nas urnas pode ser o prefácio de um desfecho judicial desfavorável, sem o escudo político que a prefeitura ou o governo estadual poderiam proporcionar. Enquanto as convenções se aproximam, o clima em Macapá é de uma tensa espera, com os olhos voltados tanto para os palanques quanto para os novos desdobramentos vindos da sede da Polícia Federal.

Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



