Macapá (AP) — Domingo, 01 de março de 2026
Aeroporto Internacional de Macapá sofre abandono precoce em apenas cinco anos após inauguração
Do sonho da modernidade ao ‘terminal das goteiras’: por que o novo Aeroporto de Macapá envelheceu tão rápido?

O que deveria ser o cartão de visitas moderno do Amapá tornou-se, em apenas cinco anos, um exercício de paciência e desconforto para quem chega ou sai de Macapá. Inaugurado com pompa em 2019, o Aeroporto Internacional Alberto Alcolumbre agora está sob a mira do Ministério Público Federal (MPF), que abriu um inquérito civil para investigar por que um prédio tão novo envelheceu tão mal. O cenário descrito pelos procuradores e por quem frequenta o terminal é de um abandono precoce: goteiras que exigem baldes no saguão, elevadores parados que isolam passageiros com deficiência e um calor sufocante que desafia a lógica do clima equatorial da região.

A investigação do MPF não nasceu de suposições, mas do acúmulo de queixas de passageiros que se sentem desrespeitados. Em uma vistoria técnica recente, os peritos confirmaram o que os usuários já relatavam nas redes sociais: o sistema de climatização, vital em uma cidade onde os termômetros encostam facilmente nos 35°C, opera de forma sofrível. Nas salas de embarque, o ar pesado transforma a espera pelo voo em um teste de resistência. O problema afeta até os funcionários e o funcionamento de equipamentos eletrônicos, que começam a falhar devido ao calor excessivo nos guichês de check-in.

Para quem tem mobilidade reduzida, o transtorno é ainda mais profundo e toca na dignidade humana. O MPF identificou que elevadores e escadas rolantes permanecem inoperantes por períodos prolongados, forçando idosos e pessoas com deficiência a dependerem da ajuda de terceiros ou de esforços físicos penosos para transitar entre os pavimentos. É uma falha grave de acessibilidade em uma estrutura que nasceu sob a promessa de seguir os mais modernos padrões de desenho universal, mas que hoje parece ignorar o direito básico de ir e vir com autonomia.

O medo também ocupa o saguão. A presença de infiltrações severas no teto e o registro de placas do forro que despencam em áreas de circulação transformaram o teto do aeroporto em uma ameaça constante. Em Macapá, onde as chuvas são frequentes e intensas, as goteiras não são apenas um detalhe estético, mas o sintoma de uma estrutura que pode estar sofrendo danos na rede elétrica e nos sistemas de combate a incêndio. O MPF agora quer saber se o problema está na qualidade dos materiais usados na construção — ainda sob garantia — ou se houve uma negligência pura e simples na manutenção cotidiana por parte dos gestores.

O inquérito agora pressiona a administração do aeroporto a apresentar soluções reais e um cronograma de obras que não fique apenas no papel. O objetivo dos procuradores é entender o destino das taxas aeroportuárias pagas pelos viajantes: se o dinheiro entra, por que o elevador continua parado e o forro continua caindo? Mais do que multas, o Ministério Público busca um Termo de Ajustamento de Conduta para garantir que o passageiro não precise mais desviar de baldes ou subir escadas com malas pesadas nas costas.

A frustração da sociedade amapaense é palpável. Após décadas aguardando um terminal digno, a população vê o “portão de entrada” do estado se degradar antes mesmo de completar sua primeira década de operação. O desdobramento deste inquérito será o termômetro para saber se o Aeroporto de Macapá voltará a ser um símbolo de progresso ou se continuará sendo, como muitos já o apelidaram ironicamente, o “terminal das goteiras”.




