CIDADES

Ação da prefeitura entrega próteses dentárias gratuitas e combate histórico de perda de dentes em Macapá

Iniciativa da Secretaria Municipal de Saúde beneficia principalmente idosos da capital amapaense, reduzindo filas históricas do SUS e garantindo acesso a próteses gratuitas que transformam a saúde nutricional e a autoestima

A transformação do semblante de uma das beneficiárias idosas durante a entrega de próteses dentárias ilustra o impacto humanizado e a recuperação de funções essenciais para o dia a dia Foto: SEMCOM/PMM

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
24/08/2026 | 11h57

Quando a aposentada Raimunda Nonata, de 68 anos, recebeu o pequeno espelho de mão no Centro de Especialidades Odontológicas Municipal (CEO) de Macapá, no sábado (22), o gesto hesitante de abrir a boca deu lugar a um choro contido e a um sorriso há muito reprimido. A entrega das novas próteses dentárias pela Secretaria Municipal de Saúde (SEMSA), acompanhada por um mutirão de moldagem voltado a novos pacientes, marcou mais uma etapa do esforço da capital amapaense para combater um drama silencioso que afeta milhões de brasileiros: o edentulismo, a perda total ou parcial da dentição. A iniciativa reuniu dezenas de moradores, sobretudo idosos, que buscaram na rede pública municipal a chance de recuperar funções vitais como mastigar, articular palavras com clareza e, acima de tudo, voltar a conviver socialmente sem constrangimento.


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A ação integra o programa continuado de saúde bucal do município, estruturado a partir das diretrizes do Brasil Sorridente, a Política Nacional de Saúde Bucal do Sistema Único de Saúde (SUS). Dados da última Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil), conduzida pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), revelam que quase metade da população idosa brasileira (cerca de 46%) necessita de próteses totais em pelo menos uma das arcadas. O quadro é reflexo direto de décadas de um modelo assistencial historicamente focado em extrações em detrimento de tratamentos conservadores, somado à ausência prolongada de políticas de saneamento básico e fluoretação da água em regiões periféricas e no Norte do país.

Neste sábado, o Centro de Especialidades Odontológicas transformou a rotina dos corredores em um mutirão humanizado de acolhimento e escuta. “Além da entrega de próteses, também realizamos um mutirão de moldagem para próteses totais e parciais, destinado aos pacientes que vieram pela primeira vez. Está sendo um sucesso a nossa manhã de sábado”, destacou a cirurgiã-dentista e coordenadora de Próteses da rede municipal, Luana Romani. Segundo a profissional, o processo clínico não se restringe à mera colocação da peça mecânica de resina; demanda um rigoroso acompanhamento técnico que envolve etapas de moldagem anatômica e funcional, testes de mordida e orientações individualizadas de higienização e adaptação muscular, evitando ferimentos e assegurando estabilidade durante a fala e a mastigação.

Para além dos aspectos técnicos, especialistas apontam que a reabilitação oral tem impacto direto na nutrição e na saúde mental dos cidadãos. Estudos publicados pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) apontam que idosos sem dentição adequada tendem a restringir sua dieta a alimentos pastosos e ultraprocessados, o que eleva a incidência de desnutrição, perda de massa magra e desregulação glicêmica em diabéticos. O isolamento social decorrente da vergonha de sorrir é também um gatilho documentado para quadros depressivos na terceira idade.

O caminho percorrido pelo usuário até alcançar o tratamento especializado segue o fluxo de regulação do SUS. O cidadão deve, inicialmente, procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) do seu bairro, onde a equipe de Estratégia Saúde da Família realiza a triagem e o tratamento odontológico clínico primário (como restaurações, raspagens e controle de infecções). Havendo indicação expressa para reabilitação protética, o paciente recebe a guia de encaminhamento para o CEO Municipal, onde realiza o agendamento formal. Com o objetivo de reduzir o tempo de espera na fila regulada e conferir celeridade à confecção laboratorial das peças, o centro especializou-se em realizar um mutirão mensal exclusivo para essa demanda reprimida.

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Para o secretário municipal de Saúde e gestores locais, a ampliação do acesso à odontologia especializada responde a uma dívida histórica com os extratos mais vulneráveis da população urbana de Macapá. Em um cenário onde os custos de confecção de próteses na rede privada chegam a ultrapassar um salário mínimo por arcada — tornando o tratamento inacessível para quem sobrevive de benefícios previdenciários básicos —, o serviço público gratuito devolve autonomia física e resgata a cidadania. Para quem passou anos escondendo o rosto atrás das mãos a cada conversa, o sábado ensolarado às margens do Rio Amazonas não representou apenas uma consulta odontológica, mas o reencontro com a própria dignidade.

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