CIDADES

Avanço da exploração petrolífera no extremo norte muda a rotina e acirra desigualdades históricas no Oiapoque

Enquanto o governo federal celebra o petróleo como passaporte para o futuro, moradores e especialistas alertam para os riscos de desastres ecológicos, especulação imobiliária galopante e os graves desafios enfrentados pelas famílias vulneráveis na fronteira brasileira

A movimentada orla de Oiapoque, no Amapá, onde dezenas de embarcações com coberturas azuis aguardam passageiros para a travessia internacional, revelando a intensa dinâmica de fronteira no extremo norte do país — Nelson Almeida/AFP

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
20/09/2026 | 11h45

A descoberta de hidrocarbonetos pela Petrobras a 175 quilômetros da costa de Oiapoque, no Amapá, iniciada há um ano e confirmada em agosto, transformou a pacata rotina da cidade fronteiriça em uma tensa corrida pelo ouro negro, onde promessas de redenção econômica colidem com o medo de um desastre socioambiental. A cerca de 600 quilômetros de Macapá, o município de 28 mil habitantes — conforme o Censo do IBGE de 2022, onde mais da metade sobrevive com o Bolsa Família — viu sua população flutuante saltar para até 45 mil pessoas atraída pela miragem da riqueza fóssil, impulsionada por projeções do Observatório Nacional da Indústria que estimam a criação de até 50 mil empregos em todo o estado.

CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
CLASSIFICADOSCLASSIFICADOS12 de maio de 2020Emanoel Reis, Macapá – AP

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classifica a exploração offshore como um indispensável passaporte para o futuro e para custear a transição verde, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, pondera que a extração comercial demandará entre seis e sete anos de investimentos, gerando um abismo imediato entre a escassez urbana e a febre migratória.

Na aldeia Mangá, a 20 quilômetros do centro, o impacto já é sentido antes mesmo do primeiro barril bombeado. O cacique Wagner Karipuna, 57, contempla o rio Curipi com apreensão diante do risco de vazamentos e da quebra do silêncio da mata pelo tráfego de helicópteros da estatal. A vulnerabilidade também atinge a pesca artesanal: Joelso Mendonça, 50, vice-presidente da colônia Z03, alerta que um eventual acidente destruiria a economia de subsistência de 400 pescadores da comarca devido ao estigma da contaminação.

Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras e chairman do Cerne, sintetiza o ceticismo técnico ao lembrar que nenhuma atividade offshore é imune a falhas, possuindo potencial destrutivo para ecossistemas frágeis. Em defesa institucional, a petrolífera afirma que estudos descartam óleo na costa e mantém interlocução com a sociedade civil.

Do outro lado, a cidade vive um fervor que mistura religiosidade e pragmatismo. A pastora Jacqueline Cadete, 45, retornou do exterior no final de 2025 atraída pela riqueza fóssil e habita os novos bairros periféricos. No entanto, a bonança fictícia cobra tributos reais da precária infraestrutura municipal. O prefeito Inácio Monteiro Maciel reconhece o drama de estruturar serviços básicos em uma cidade com ruas sem asfalto e calçadas.

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Na periferia do bairro Nova Conquista, Thais Pereira de Souza, 32, divide um casebre de tábuas e zinco sem água encanada com quatro familiares para fugir dos aluguéis proibitivos do centro, mas ainda nutre a esperança de dias melhores. Lilma Campos, presidente da Associação Comercial e Industrial de Oiapoque (ACOI), pondera o frenesi econômico e afasta a ilusão de que o município se converterá repentinamente em uma nova Dubai.

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