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Novas medidas tributárias já implantadas podem encarecer os custos da morte no Brasil, alerta associação de cemitérios

Mudanças na tributação devem elevar carga sobre setor fúnebre em até 26,5%, impactar população mais pobre e sobrecarregar atendimento público

Serviços funerários incluem enterro, cremação, planos e e taxa de manutenção de cemitérios — Imagem Ilustrativa


A população pode passar a pagar mais caro por serviços funerários, alerta Cláudio Bentes, presidente da Associação dos Cemitérios e Crematórios do Brasil (Acembra). Segundo ele, a alíquota de 26,5% do novo imposto sobre o valor agregado (IVA) proposta na reforma tributária, representará um aumento de 206% na carga tributária para o setor.
“Hoje, pagamos 8,65% de impostos, considerando que a maioria das empresas funerárias está no Simples Nacional. Com a nova alíquota, esse valor subiria para 26,5%, o que significa um aumento proporcional de 206% nos impostos”, explica Bentes. A consequência direta, segundo ele, seria um aumento de até 18% nos preços finais.

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Impacto direto no bolso
Atualmente, o custo médio de um enterro no Brasil é de R$ 3.000, enquanto uma cremação chega a R$ 5.000. Com a nova tributação, o custo de um enterro passaria para R$ 3.500, enquanto a cremação subiria para quase R$ 6.000, de acordo com os cálculos apresentados por Bentes. Esse aumento também afetaria os planos funerários que variam entre R$ 30 e R$ 60 por mês, os mais acessíveis.
Bentes alega que o aumento “impactaria especialmente a população de baixa renda” e defende que os serviços sejam considerados essenciais.

Cláudio Bentes, presidente da Acembra, afirma que o reajuste seria consequência de um aumento de 206% na carga tributária — Foto: Arquivo Pessoal

Na ponta do lápis
Segundo Bentes, o aumento dos custos seria inevitável. “Desses R$ 3.000, no caso do enterro, cerca de R$ 750 são insumos, como caixão e flores. Com a nova tributação, o crédito sobre esses insumos seria de apenas R$ 198, mas eu ainda pagaria R$ 596 de impostos, resultando em um aumento de 130% em relação ao que pago hoje”, detalha.

Taxação como serviço essencial
O representante do setor acredita que há espaço para discutir a inclusão dos serviços funerários como essenciais, a fim de garantir uma tributação diferenciada. Ele diz que já esteve com a assessoria do senador Aguinaldo Ribeiro, relator da reforma tributária, e com o senador Eduardo Braga. “Ambos reconheceram que há um equívoco na forma como estamos sendo tributados”, diz.
A Acembra defende a aprovação de uma emenda que equipare os serviços funerários aos de saúde. Na prática, isto garantiria ao setor um abatimento de até 70% nos impostos. “Sem essa equiparação, o aumento dos preços será muito grande, e forçaria muitas famílias a depender de serviços gratuitos oferecidos pelo Estado, algo que muitos querem evitar”, justifica Bentes.

O que diz o governo
No mês passado, a Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal afirmou que os cálculos da Acembra ignoram a possibilidade de recuperação integral dos créditos de impostos pagos em aquisições de insumos. Além disso, o governo garantiu que o Simples Nacional, regime que abriga a maioria das empresas funerárias, não sofrerá mudanças com a reforma.
Segundo o Ministério da Fazenda, a Emenda Constitucional 132, que embasa a reforma, não permite a diferenciação de alíquota para bens ou serviços não previstos na própria emenda, o que inclui os serviços funerários. A Secretaria reforçou que as mudanças trarão uma reestruturação do sistema tributário, mas sem alterar a carga tributária total para o setor.
A reforma tributária prevê a extinção de cinco tributos – PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS – e a criação do IVA Dual, composto pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de estados e municípios, e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), federal. Conforme divulgado esta semana, a proposta de regulamentação da reforma já recebeu mais de 1.200 emendas de senadores.


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