Prefeitura de Macapá é alvo de críticas após divulgar vídeo enganoso sobre tragédia no Buritizal
Prefeitura de Macapá é acusada de espalhar desinformação após vídeo de secretário sobre incêndio no Buritizal

O cenário de destruição deixado pelo incêndio que atingiu uma área próximo ao conjunto Açucena, no bairro Buritizal, na zona sul de Macapá, na última quarta-feira, 7 de janeiro, transformou-se rapidamente em um palco de tensões políticas e desencontros de informações entre as esferas estadual e municipal. O fogo, que consumiu cerca de 13 imóveis de madeira, encontrou terreno fértil na dificuldade de acesso característica das áreas de ponte e na proximidade extrema entre as residências, fatores que desafiaram o trabalho do Corpo de Bombeiros e aceleraram a disseminação das chamas. Apesar das perdas materiais severas, o balanço oficial confirmou que não houve registro de feridos, permitindo que o foco das autoridades se voltasse imediatamente para o suporte humanitário e a limpeza da área afetada.

Desde os primeiros momentos da tragédia, a resposta do Governo do Estado foi marcada pela mobilização direta da Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas). Sob a coordenação da secretária Aline Gurgel, uma equipe técnica foi deslocada para o coração do Buritizal com o objetivo de realizar o acolhimento das famílias que viram seus lares serem reduzidos a cinzas. O trabalho estadual concentrou-se no levantamento socioeconômico detalhado de cada núcleo familiar, garantindo que o auxílio chegasse de forma precisa. Como medida imediata de mitigação do sofrimento, foram entregues kits de alimentos, itens de higiene pessoal e, de forma estratégica, materiais específicos para crianças na primeira infância, com idade entre 0 e 6 anos, público considerado de maior vulnerabilidade em situações de desastre.

No entanto, o clima de cooperação esperado em momentos de crise foi rompido na quinta-feira, 8 de janeiro, por uma publicação oficial que gerou profunda estranheza e desconforto nos corredores do Palácio do Setentrião. Um vídeo divulgado nos canais oficiais da Prefeitura de Macapá trouxe à tona o secretário municipal de Zeladoria Urbana, Helson Freitas, em uma performance que muitos moradores e agentes estaduais classificaram como tragicômica.

Na gravação, realizada em meio aos escombros e com o ruído de um trator ao fundo removendo entulhos, o secretário apresentava uma aparência visivelmente desordenada, com o cabelo bagunçado e um tom de voz que beirava o desespero.
O conteúdo da fala, que buscava exaltar a presença da prefeitura desde o início do sinistro, acabou por evidenciar falhas técnicas primárias: o secretário não conseguiu sequer citar corretamente o nome da localidade atingida e demonstrou desconhecimento sobre o número exato de imóveis destruídos, limitando-se a um discurso apressado que transparecia a urgência de dar uma resposta política ao seu superior imediato.
A tentativa da gestão do prefeito Antônio Furlan (MDB) de capitalizar apoio eleitoral sobre a tragédia através da Zeladoria Urbana não foi bem recebida pela comunidade local. Uma moradora do Buritizal, vítima do incêndio, tornou-se o rosto da indignação ao exibir o vídeo em seu próprio celular para quem quisesse ver. Para ela e para muitos vizinhos que acompanharam o drama de perto, a narrativa construída pela prefeitura soou como uma “grande fake news”.


A moradora enfatizou que, enquanto o governo estadual estruturava o acolhimento social e a entrega de mantimentos, a presença da zeladoria com maquinário pesado parecia mais uma encenação tardia do que um suporte real às vítimas que perderam tudo. O contraste entre a ação técnica da assistência social estadual e a postura considerada “questionável” do secretário municipal acirrou o debate sobre a ética na comunicação pública em períodos de calamidade.

O episódio no Buritizal acaba por ilustrar um fosso administrativo em Macapá, onde o socorro imediato e o suporte psicológico oferecidos pelo Estado se chocaram com a pressa logística e comunicacional da Prefeitura. Enquanto os tratores da Zeladoria Urbana removiam o que restou das casas de madeira, o sentimento deixado entre os desabrigados era de que a dor das perdas estava sendo secundarizada em prol de uma disputa de narrativas políticas.

O desespero demonstrado pelo secretário Helson Freitas no vídeo oficial da PMM foi interpretado por observadores políticos como um reflexo da pressão interna para que a gestão Furlan não perdesse espaço de visibilidade diante da agilidade demonstrada pela equipe de Aline Gurgel. No final, o que restou para as famílias do Buritizal, além do suporte assistencial que efetivamente chegou por meio da Seas, foi o amargo sabor de ver sua tragédia pessoal ser utilizada como pano de fundo para uma peça publicitária da gestão Antônio Furlan que, na visão dos próprios afetados, faltou com a verdade e com o respeito à precisão dos fatos.




