VARIEDADES

Diretor do Salgueiro comanda workshop de samba no pé e impulsiona passistas de Macapá

Com três décadas de experiência no Carnaval carioca, Carlinhos do Salgueiro comanda imersão cultural no Theatro Francisco Lino para democratizar o ensino da dança e valorizar talentos da periferia amapaense

No coração de Macapá, o consagrado coreógrafo carioca celebra a potência do samba ao lado de integrantes do Boêmios do Laguinho, incentivando a formação de novos talentos para os desfiles — Foto: Divulgação

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
21/08/2026 | 11h57

O suor que escorre pela testa encontra o compasso acelerado da bateria e a poeira que sobe do tablado do Theatro do Samba Francisco Lino da Silva, no tradicional bairro do Laguinho, em Macapá. Entre os dias 21 e 22 de agosto, a capital amapaense torna-se o epicentro de um intercâmbio cultural histórico: Carlinhos do Salgueiro, aos 53 anos, consagrado diretor artístico do Acadêmicos do Salgueiro e referência internacional na dança carnavalesca, desembarca no extremo Norte do país para ministrar uma imersão intensiva de samba no pé. A iniciativa, batizada de projeto “Passistas da Nação” e capitaneada pela emblemática agremiação Boêmios do Laguinho, busca preencher uma lacuna histórica de capacitação técnica fora do eixo Rio-São Paulo, oferecendo oficinas acessíveis a R$ 40 — com direito a abadá personalizado — para dezenas de jovens, veteranos e entusiastas que sonham em transformar a paixão pelo ritmo em instrumento de expressão cívica e ascensão profissional.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

O encontro marca uma ponte vital entre duas geografias que respiram a mesma matriz afro-brasileira, mas que frequentemente lidam com disparidades de investimento e visibilidade. De acordo com mapeamentos setoriais sobre a economia criativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as manifestações carnavalescas no Norte e Nordeste mobilizam milhares de postos de trabalho informais, mas enfrentam gargalos crônicos na profissionalização e no acesso a metodologias cênicas de ponta. Em Macapá, onde o Carnaval de rua mobiliza anualmente mais de 30 mil pessoas no Sambódromo e dinamiza o comércio popular, o fortalecimento das alas de passistas é visto por mestres e lideranças comunitárias como um divisor de águas para elevar a competitividade dos desfiles e resgatar a juventude da periferia por meio da arte.

Nascido e criado no Andaraí, zona norte do Rio de Janeiro, Carlinhos começou sua trajetória nas festas juninas e brincadeiras de quintal antes de conquistar as passarelas globais. Ao longo de mais de três décadas de carreira, ele preparou figuras de projeção pública e ícones do Carnaval, como Sabrina Sato, Viviane Araújo, Carol Castro, Virgínia Fonseca e Bruna Griphao, acumulando passagens por mais de 20 países para lecionar a complexa biomecânica e a ancestralidade do samba. Para o coreógrafo, pisar no solo amapaense faz parte de um plano mais amplo de descentralização cultural. Ele pontua que o menino que saiu da periferia carioca para rodar o mundo tem o dever ético de devolver essa vivência às agremiações de base, permitindo que talentos ocultos pela distância geográfica descubram a potência do próprio corpo e do próprio passo.

No tablado do Laguinho, o impacto do workshop se faz sentir no olhar de quem há anos sustenta o cortejo local na base da intuição. Dançarinas locais relatam que o acesso a técnicas de postura, respiração, giros rápidos e expressividade cênica representa um rito de valorização pessoal e comunitária, rompendo a invisibilidade enfrentada por quem constrói o espetáculo longe dos holofotes da televisão aberta. Gestores culturais e pesquisadores de etnomusicologia da Universidade Federal do Amapá (Unifap) reforçam que a presença de figuras proeminentes do grupo especial carioca em estados amazônicos valida a memória dos bairros de formação negra de Macapá — como o próprio Laguinho, berço de pioneiros como mestre Francisco Lino — e estimula políticas públicas permanentes voltadas à formação de quadros artísticos.

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Para além do aprendizado mecânico dos passos, a passagem de Carlinhos do Salgueiro pelo Amapá sintetiza uma reação necessária à elitização do Carnaval contemporâneo, resgatando a essência formadora dos barracões. Com vagas abertas sem restrição de idade ou experiência prévia, as inscrições — geridas pela Universidade Boêmios do Laguinho — revelam uma procura que ultrapassou as fronteiras municipais, atraindo passistas de municípios vizinhos como Santana e Mazagão. Ao transformar a cadência do Andaraí em estímulo para a juventude amapaense, a vivência reafirma que o samba no pé, longe de ser mero adereço estético, permanece como a mais vigorosa e democrática linguagem de afirmação social do país.