Por causa da ocupação irregular, as áreas de ressaca perderam a finalidade de dar vazão às águas pluviais. No período de inverno, as pessoas que moram nestes locais sofrem as consequências dos alagamentos
A casa onde Fabíola do Nascimento mora com o marido e seus três filhos, um chalé de madeira erguida sobre palafitas, é exemplo típico da arquitetura ribeirinha amazônica.
O lilás vibrante das paredes contrasta com a exuberante paisagem que a cerca, onde predomina o majestoso buritizeiro, típica palmeira das florestas de igapó.

Uma armação formada pelo cruzamento de ripas de madeira adorna a varanda de entrada. No pátio que dá acesso à sala, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, em sua capela esculpida na própria parede, vigia a entrada da casa.
Ao contrário do que você deve estar pensando, esta não é uma imagem colhida no interior do Amapá. Fabíola mora com sua família na ponte da Hamilton, no final de uma das principais vias da capital, no tradicional bairro Jesus de Nazaré.
Ela é uma das mais de oitenta mil pessoas que hoje moram sobre as áreas de ressaca de Macapá, um problema que está dando a maior dor de cabeça a ambientalistas e ao poder público estadual e municipal.
As invasões das áreas de ressaca é um problema que já tem mais de meio século. Começou na década de 1950 quando da fundação do território do Amapá. Atraídas pela oportunidade de vida próspera no novo território federal brasileiro, milhares de pessoas migraram para o Amapá. Mas, ao contrário do que dizia a propaganda oficial, a prosperidade não era para todos. Aos milhares que não tinham qualificação profissional, restaram os subempregos. Sem dinheiro para uma habitação digna, esse povo todo não teve outra alternativa a não ser construir suas casas nas áreas baixas da cidade.

O problema se manteve como um incomodo a ser ignorado até o final da década de 1980 quando o Amapá deixou de ser território e passou a estado. Na década seguinte são criadas a Área de Livre Comércio de Macapá e o Distrito Industrial de Santana, dando novo impulso a nossa incipiente economia e ao processo de invasões de ressacas
Um mundo entre pontes
Robson, 30 anos, marido de Fabíola, passou a infância brincando na ponte da Hamilton. Hoje seus filhos, um menino de 12, outro de 3 anos e uma menina de 25 dias, curtem suas brincadeiras de criança na mesma rua de madeira.
Igual aos filhos de Robson e Fabíola, centenas de outras crianças vivem sua ludicidade infantil brincando entre, uma realidade que a artista plástica Bárbara Damas, retratou em 2007 em sua exposição “Lacunas: Um Mundo entre Pontes”, na galeria do SESC Araxá. O trabalho refinado da artista chamava a atenção para a lacuna entre o poder público e a realidade das famílias que vivem nessas áreas, se equilibrando como podem enquanto não têm seu direito a habitação garantidos.

LITERATURA AMAZÔNICA
O escritor e jornalista Emanoel Reis, editor deste site, publicou recentemente o romance intitulado “Trezoitão”. A obra é ambientada em duas cidades da Amazônia, Belém (PA) e Macapá (AP), e tem como personagens centrais o jornalista Eliano Calazans, 30 anos, repórter investigativo de um famoso jornal de grande circulação em Belém, capital do Pará, e o pistoleiro Cici Silveira, de codinome Trezoitão, muito ligado ao latifúndio (pecuaristas, madeireiros, carvoeiros, grileiros). Quer saber mais sobre esta obra?
A engenheira civil Sara Neri dedicou sua tese de mestranda às meninas e meninos das áreas de ressaca. Em seu trabalho, aprovado na banca de avaliação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a pesquisadora utiliza as ferramentas do geoprocessamento para identificar as comunidades expostas a hepatite A nas áreas de ressaca de Macapá e Santana.
Sua investigação concluiu que a maior concentração de casos da doença ocorreu nas áreas de ressacas em consequência das condições desfavoráveis de saneamento básico, estudo tido por especialistas da área como importante contribuição à compreensão da relação entre a doença e o meio ambiente.
Sara explica que a “Ressaca é uma expressão regional empregada para designar um ecossistema
típico da zona costeira do Amapá. São áreas encaixadas em terrenos Quaternários que se
comportam como reservatórios naturais de água, caracterizando-se como um
ecossistema complexo e distinto, sofrendo os efeitos da ação das marés, por meio de
uma intricada rede de canais e igarapés e do ciclo sazonal das chuvas.”
As áreas de ressacas (expressão regional que tem sua origem no dialeto dos negros guianenses que vieram habitar as áreas baixas do Laguinho) formam um intricado sistema de absorção das águas dos rios. Essas áreas são comuns no Amapá e garantem grande parte de sua rica biodiversidade.
Pobreza em espiral crescente motiva as ocupações em áreas de proteção ambiental

Ressaca é uma expressão regional amapaense usada para nomear regiões costeiras alagadas que servem como reservatórios naturais de águas, tanto das chuvas, como das cheias dos rios, é um ecossistema tipicamente amapaense, e único em sua geomorfologia, sua biodiversidade, seu valor paisagístico e microclimático, este importantíssimo ecossistema, que circunda e permeia o tecido urbano macapaense, tem sofrido ataques violentos ao longo das últimas décadas.
Muito se comenta das ocupações de famílias pobres em área de ressaca, é um problema intensamente debatido na mídia, no senso comum e no meio acadêmico, que trata o tema da habitação nestas áreas com grande romantismo, entretanto o que estes veículos raramente debatem é que as ocupações não são o epicentro do problema e sim a manifestações de uma série de problemas sociais que resultam nas ocupações. Falo da ausência de uma política pública habitacional por parte do estado amapaense, e do papel que cumpre a especulação imobiliária e parte do empresariado local, na falta de acesso à terra firme para habitação, razão que forçou, e continua forçando dezenas de milhares de famílias de baixa renda a morarem nestas áreas.

Em Macapá, não faltam terrenos baldios ou subutilizados nos bairros centrais, assim como muitos prédios particulares abandonados, localizados, sobretudo nestes bairros mais valorizados, onde estão as maiores ofertas de serviços, empregos e estudo, apenas recentemente o empresariado local passou a investir em grandes loteamentos voltados para as classes médias, todos bem distantes do centro, vários deles nos limites de algumas ressacas, por outro lado, o mesmo empresariado tem investido na construção de edifícios residenciais para a classe alta nos bairros centrais. Em suma, o mercado tem estimulado a classe alta e permanecer no centro e as classes médias a migrar para os subúrbios, e situação ainda pior enfrentam as famílias de baixa renda que vivem no aluguel, onde o constante aumento dos preços, as expulsa para regiões cada vez mais periféricas, quando não para as ressacas.
Durante décadas o poder público, seja municipal e estadual, assistiu apático o processo massivo de ocupação das ressacas, tanto por empreendimentos como faculdades, distribuidoras, transportadoras, assim como por milhares de famílias, algumas na terceira geração vivendo em ressacas, de certo modo, houve até mesmo gestões que estimularam estas ocupações, apenas nos últimos anos com a chegada dos investimentos do Minha Casa, Minha vida (MCMV), que se voltou a construir habitações de interesse social no Amapá. O programa MCMV construiu mais de 40 mil unidades no Amapá nos últimos 10 anos, entretanto de acordo com imagens de satélite as ocupações em áreas de ressaca não diminuíram, em algumas inclusive continuam crescendo.
Além de todas essas ameaças já citadas, nos últimos anos, as sucessivas gestões estaduais, continuam apostando no urbanismo sem planejamento, que privilegia o veículo particular, construindo novas rodovias ou duplicando outras, passando literalmente por cima das áreas de ressacas, tais como a rodovia norte-sul, a duplicação da rodovia Duca Serra e a rodovia linha verde (construída sem nenhum tipo de debate público e de serventia duvidosa) as três com trechos que cortam a ressaca da Lagoa dos índios. Além destas existem outras vias em projeto, todas com trechos aterrando áreas de ressaca, colocando a existência deste ecossistema em sério risco. Isto é, o próprio estado é um dos principais agentes de destruição das ressacas, seja por ação, ou por omissão. (Fonte: http://realidadeurbanas.blogspot.com).
VOCÊ GOSTOU DESSA REPORTAGEM?
Preencha o cadastro abaixo para receber notícias do AMAZÔNIA VIA AMAPÁ em seu e-mail
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
