O Tribunal Regional Federal da 3ª Região reverteu uma medida que foi considerada há quase duas décadas como uma evolução no combate à lavagem de dinheiro e crimes financeiros: a exclusividade de varas na capital para julgar esses casos
Por José Marques
Um provimento que entra em vigor em 7 de janeiro prevê que as três varas criminais federais que julgam lavagem de dinheiro na cidade de São Paulo também passarão a decidir sobre crimes comuns.Ao mesmo tempo, as varas federais locais que atualmente julgam crimes comuns passarão a receber crimes de lavagem —à exceção de uma.
A retirada da exclusividade é defendida pelo tribunal como uma forma de diminuir conflitos de competência (que decidem quem será o juiz do caso) em processos com suspeitas de lavagem.
Em 2004, quando duas varas de São Paulo passaram a atuar somente em ações de lavagem, houve cerimônia com presença do então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.
A presidente do TRF-3 à época, Anna Maria Pimentel, disse em discurso que “os crimes de colarinho branco e de lavagem de dinheiro requerem especialização de juízes, para atender aos anseios da sociedade”.

Este é um momento importante para enfrentar o aumento da criminalidade, e a Justiça agita-se para realizar este trabalho, é preciso agir
— Anna Maria Pimentel/Ex-presidente do TRF-3
O modelo a ser implantado em 2022, que desfaz essa mudança, foi criado a partir de estudo solicitado pela cúpula do tribunal.
Embora a exclusividade de 2004, diz o estudo, tenha sido “uma iniciativa para aprimorar o controle desta espécie de criminalidade [lavagem]”, se acreditava que garantiria “maior qualidade e celeridade na prestação jurisdicional, especialmente quanto aos delitos de maior complexidade”.
LITERATURA AMAZÔNICA
O romance intitulado “Trezoitão”, de autoria do jornalista Emanoel Reis, está à venda na Loja Kindle. A história inicia com o assassinato de um deputado estadual, conhecido defensor de pequenos agricultores no interior do Pará. O autor do crime, codinome “Trezoitão”, é um matador de aluguel financiado por consórcio montado nos escaninhos do governo estadual, comandado pelo próprio governador. Ele é muito ligado ao latifúndio (pecuaristas, madeireiros, carvoeiros, grileiros). Toda a trama é ambientada nos Estados do Pará e Amapá. Quer saber mais sobre esta obra?
Mas esses objetivos, continua o estudo, não foram alcançados nas varas exclusivas.
“Para além de não se ter atingido a finalidade de concentração de esforços para uma resposta estatal mais efetiva, a especialização também acarretou maior atraso na tramitação”, diz o texto, atribuindo esse atraso às dúvidas sobre competência.
Apesar da defesa da mudança feita pelo tribunal, pessoas que trabalham com o tema acham que a solução encontrada só irá piorar o andamento dos processos.
Se assim proceder, o tribunal estará indo na contramão de uma estratégia internacional de combate à lavagem de dinheiro
— Odilon de Oliveira/Juiz federal aposentado

Especialistas entendem medida como “mera redistribuição dos casos”
Um magistrado que atua em São Paulo afirmou, em reservado, que a mudança vai no sentido contrário das metas da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro, rede que envolve os três Poderes para discutir políticas públicas a respeito do tema.
A advogada Ludmila Groch, sócia do Lefosse Advogados e especialista em anticorrupção e crimes de colarinho branco, afirma que, embora a ideia do TRF-3 “possa parecer benéfica, não parece a melhor solução”.

O crime de lavagem de dinheiro é especialmente elaborado e multifásico, envolvendo esquemas complexos que exigem grande estudo e experiência por parte do magistrado e do Ministério Público para sua correta elucidação
— Ludmila Groch/Advogada especialista em anticorrupção
Segundo a advogada, juízes e promotores especializados acumulam experiência para avaliar esses casos com mais precisão.
Caso o tribunal esteja preocupado com uma eventual morosidade dos casos de lavagem, diz, o ideal seria a criação de novas varas especializadas, não a mera redistribuição dos casos. “É essa, inclusive, a orientação geral do Conselho Nacional de Justiça e das melhores práticas internacionais.”
Na contramão dessas opiniões, o advogado criminalista Conrado Gontijo acha a medida positiva e diz que não trará prejuízo às apurações.

Membros do MPF classificam o novo modelo como um retrocesso
O procurador-chefe do Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul, Silvio Pettengill Neto, também criticou a medida. Segundo ele, a mesma mudança foi feita em varas federais de Campo Grande e houve prejuízo no andamento dos processos de lavagem.
.
“Tivemos muitas prescrições. Em São Paulo vai acontecer a mesma coisa que acontece em Mato Grosso do Sul. Há crime organizado no Brasil inteiro, mas casos complexos de crimes contra o sistema financeiro, como insolvência de bancos e operações fraudulentas na bolsa de valores, são em São Paulo”, afirma.
“São processos com muitos réus, muitos deles já na casa dos 60 anos e que têm advogados caros. Fatalmente vão acabar em prescrição.”
Para ele, o tribunal está “buscando uma estrutura que é fadada ao insucesso, misturando complexidade com volume”.
“Uma boa analogia é que misturaram velocista com fundista. É uma competição que você não sabe se está correndo maratona, meia maratona ou prova de velocidade. Usain Bolt não seria campeão da maratona de Nova York.”
Alterações foram avalizadas por colegiado de magistrados, diz juíza federal
Uma das responsáveis por implantar o novo modelo é a juíza Raecler Baldresca, auxiliar da presidência do TRF-3. Ela afirma que, além de partirem de estudos, as mudanças foram elaboradas a partir de uma comissão de magistrados que se aprofundou no assunto e escutou a sugestão de colegas.
Segundo a juíza, com menos conflitos de competência, os processos tramitarão de forma mais célere. Além disso, diz ela, a mudança até facilitará a divisão do trabalho na provável implementação do juiz das garantias —quando a condução dos processos criminais será dividida entre dois magistrados, um deles será responsável pela fase da investigação, enquanto o outro se encarrega do julgamento.

Cadastre seu e-mail no AMAZÔNIA VIA AMAPÁ para receber atualizações diárias com as últimas notícias da AMAZÔNIA e do AMAPÁ
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
