Declaração de Kassab sobre “ficha limpa” de Paes é interpretada como recado a Lucas Barreto e Antônio Furlan

Ao exaltar a gestão de Eduardo Paes, Gilberto Kassab envia recado amargo ao grupo de Lucas Barreto e Antônio Furlan. O presidente do PSD demonstra insatisfação após o afastamento judicial do ex-prefeito de Macapá por suspeitas de corrupção e fraudes



O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, sinalizou um profundo desconforto com os rumos da legenda no Amapá ao elogiar publicamente a “ficha limpa” do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, em uma manobra interpretada como um recado direto ao senador Lucas Barreto e ao recém-filiado Antônio Furlan. A declaração, que sublinhou a ausência de acusações de corrupção contra o pré-candidato carioca, ocorre pouco mais de um mês após a filiação de Furlan, em Brasília, ter sido ofuscada pelo seu afastamento do cargo de prefeito de Macapá por ordem do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). O racha interno, motivado pelas investigações da Polícia Federal que apontam o envolvimento de Furlan em fraudes e desvios de recursos federais destinados à construção do Hospital Municipal de Macapá, coloca sob xeque o suporte da Executiva Nacional às pretensões eleitorais do grupo amapaense para o governo estadual.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP

A distância de 3.686 quilômetros entre o Rio de Janeiro e Macapá não foi suficiente para abafar o ruído causado pelas palavras de Kassab. Nos corredores da sede central do PSD, em Brasília, o comentário é unânime: o presidente nacional sente-se “traído” pelo padrinho da filiação, o senador Lucas Barreto. A cerimônia de ingresso de Furlan, realizada em 3 de março de forma simples, deveria ser o ponto de partida para uma candidatura robusta ao Governo do Estado do Amapá (GEA). No entanto, o roteiro político sofreu um revés dramático apenas 48 horas depois, quando o STF autorizou a operação policial que retirou o então prefeito do comando da capital amapaense. A gravidade das acusações — que incluem formação de quadrilha e malversação de verbas públicas — teria sido apresentada a Kassab apenas após o fato consumado, gerando uma crise de confiança que agora transborda para o público.

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A tática de Kassab, um veterano na arte da política de bastidores, foi sutil e devastadora. Ao exaltar Eduardo Paes pelo fato de este “não ter nenhuma acusação de corrupção”, o dirigente nacional estabeleceu um padrão ético que, por tabela, exclui Antônio Furlan do rol de prioridades da legenda. Para fontes próximas ao senador Lucas Barreto, que falaram sob condição de reserva, o clima é de apreensão. Kassab estaria contrariado não apenas com o desgaste de imagem que o episódio trouxe ao partido, mas com o que ele classifica como uma omissão de informações cruciais sobre a vulnerabilidade jurídica de Furlan antes da assinatura da ficha de filiação. O apoio irrestrito que se esperava da máquina nacional do PSD para a corrida ao Palácio do Setentrião agora parece condicionado a um desfecho judicial que, no momento, é amplamente desfavorável ao ex-prefeito.

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As investigações da Polícia Federal sobre o Hospital Municipal de Macapá são descritas por investigadores como detentoras de indícios “irrefutáveis”. O esquema teria desviado milhões de reais em recursos que deveriam socorrer o precário sistema de saúde da capital amapaense. A participação de Furlan, segundo o inquérito que tramita no STF, não seria periférica, mas central na engrenagem que viabilizou fraudes em processos licitatórios. Para um partido como o PSD, que busca se consolidar como uma força de centro capaz de dialogar com diferentes espectros políticos e manter uma imagem de eficiência administrativa, carregar o peso de uma intervenção judicial dessa magnitude no Amapá tornou-se um fardo estratégico que Kassab parece pouco disposto a carregar.

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A reação de Antônio Furlan nas redes sociais, onde mantém uma postura desafiadora e reafirma sua pré-candidatura ao GEA, contrasta com o isolamento que começa a ser desenhado no plano nacional. Embora ele tente manter o discurso de que as investigações são “perseguições políticas”, a fala de Gilberto Kassab funciona como uma barreira de contenção. A mensagem descortinada para o diretório amapaense é clara: se Furlan conseguir oficializar sua disputa nas convenções, terá de fazê-lo com recursos próprios e sem o prestígio ou o fundo partidário que seriam destinados a um candidato considerado viável e eticamente incontestável, como Paes no Rio de Janeiro.

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O papel de Lucas Barreto neste imbróglio também é central. O senador, que gozava de prestígio junto à cúpula do PSD, agora enfrenta o desafio de reconstruir pontes com Kassab. A aposta em Furlan, que parecia ser um trunfo para fortalecer o domínio regional da sigla, transformou-se em um passivo político. Barreto agora se vê entre a lealdade ao seu afilhado político no Amapá e a necessidade de manter relevância no diretório nacional em Brasília. A “fuzarca” jurídica em que o PSD-AP se meteu expõe uma erosão de credibilidade que atinge não apenas os nomes citados, mas a própria estrutura partidária no estado, que agora é vista com desconfiança pelos estrategistas nacionais.

A crise no PSD do Amapá reflete um momento de tensão institucional mais amplo no país, onde a política e o judiciário se entrelaçam em disputas de poder que fogem ao controle das legendas. Para o eleitor amapaense, o episódio serve como um alerta sobre os bastidores das alianças que visam o pleito de outubro. A percepção de que as instituições partidárias estão mais preocupadas em proteger seus quadros ou em se distanciar de escândalos do que em apresentar soluções para problemas crônicos como a saúde e a infraestrutura, amplia o abismo entre a classe política e a sociedade.


Enquanto Eduardo Paes colhe os frutos do apoio explícito de Kassab no Rio, Antônio Furlan e Lucas Barreto observam o distanciamento do dirigente nacional do partido. O desfecho dessa queda de braço dependerá, em grande parte, da velocidade com que o STF julgará os méritos das acusações. No entanto, o dano político já foi causado. No xadrez de Gilberto Kassab, a peça amapaense foi movida para a reserva, deixando claro que, no PSD de 2026, a “parceria” tem limites muito bem definidos e eles terminam onde começam as investigações da Polícia Federal. O recado foi enviado, recebido e, ao que tudo indica, não haverá pedido de desculpas.


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