Em meio a auditoria na Prefeitura, gestor interino de Macapá também se vê envolvido em investigações

Sob comando de Pedro DaLua, prefeitura de Macapá encaminha relatórios semanais à Polícia Federal sobre supostas fraudes na saúde durante a gestão Furlan. Paralelamente, o atual prefeito interino enfrenta investigações do Ministério Público por movimentações financeiras atípicas e suspeitas de rachadinha



O prefeito interino de Macapá, Pedro DaLua (União-AP), deu início em março de 2026 a um pente-fino rigoroso nas contas da capital amapaense para subsidiar as investigações da Polícia Federal sobre desvios milionários na saúde, após o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar o afastamento do então prefeito Antônio Furlan (PSD) por 60 dias. A medida, tomada no âmbito da Operação Paroxismo deflagrada em 4 de março, visa esquadrinhar o suposto esquema de fraudes em licitações e lavagem de dinheiro nas obras do Hospital Geral Municipal, enquanto o novo ocupante do Palácio Laurindo Banha tenta se equilibrar entre o papel de auditor da gestão anterior e a condição de investigado pelo Ministério Público Estadual por suspeitas de “rachadinha”.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP
FINA ESTAMPAFINA ESTAMPA30 de julho de 2019Por Emanoel Reis, Macapá – AP

A capital do Amapá vive dias de sobressalto institucional desde que o ministro Flávio Dino autorizou 13 mandados de busca e apreensão, estendendo a operação para Belém (PA) e Natal (RN). O impacto político foi imediato: a cúpula do Executivo municipal, incluindo o vice-prefeito e a secretária de Saúde, foi removida de seus cargos para evitar a continuidade de práticas que a Polícia Federal classifica como uma organização criminosa infiltrada na administração pública de Macapá. Os relatórios que agora saem do gabinete de DaLua e chegam semanalmente à Superintendência Regional da PF detalham o que técnicos chamam de modus operandi da corrupção: o direcionamento de contratos de obras públicas para empresas parceiras, o superfaturamento de insumos e o desvio direto de recursos que deveriam socorrer a combalida rede de saúde da capital.

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Nos corredores da prefeitura, o clima é de devassa. DaLua tem concentrado o trabalho de seu secretariado na identificação de “esqueletos” deixados pela gestão Furlan (2021-2026). Entre as frentes de investigação interna, destaca-se a denúncia da existência de um “gabinete do ódio”, uma estrutura de comunicação paralela supostamente financiada com verbas públicas para atacar opositores políticos e blindar a imagem do prefeito afastado. A equipe técnica do atual governo interino afirma estar esmiuçando contratos de publicidade e folha de pagamento para identificar servidores que estariam dedicados exclusivamente a essa função digital, o que caracterizaria malversação de fundos e peculato.

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Entretanto, a tentativa de imprimir uma marca de transparência e moralidade à gestão interina enfrenta obstáculos jurídicos e éticos consideráveis. O próprio Pedro DaLua viu seu nome figurar em um procedimento investigatório do Ministério Público do Amapá (MP-AP) após um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) apontar movimentações atípicas em suas contas, sugerindo a prática de “rachadinha” — a apropriação de parte dos salários de assessores. O contra-ataque jurídico não tardou, e a Justiça já impôs uma derrota significativa ao prefeito interino ao suspender o “Gabinete de Crise” criado por ele, sob o argumento de que a estrutura extrapolava competências administrativas e poderia ser usada para fins políticos em meio ao vácuo de poder.

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A despeito das suspeitas que pairam sobre o seu próprio histórico, DaLua mantém a estratégia de reuniões frequentes com o novo secretariado para garantir a continuidade dos serviços essenciais. A prioridade técnica, contudo, permanece nas obras do Hospital Geral Municipal de Macapá. Os contratos milionários ligados a essa construção são o coração da Operação Paroxismo. Investigadores apuram se a construção do hospital serviu como fachada para o escoamento de recursos para grupos políticos e se a pressa na execução das obras visava ocultar falhas estruturais e superfaturamentos que comprometem o erário.

A complexidade da transição em Macapá reflete uma crise de confiança que atinge os dois lados do tabuleiro político local. De um lado, Antônio Furlan tenta no STF reverter o afastamento, alegando perseguição e ausência de provas cabais sobre seu envolvimento direto no direcionamento das licitações. Do outro, Pedro DaLua busca se consolidar como o “limpador” da máquina pública, ciente de que o sucesso de sua imagem depende da capacidade de provar que os desmandos da gestão anterior eram sistêmicos e prejudiciais à população. No meio dessa disputa de narrativas, o eleitor macapaense observa a paralisia parcial de projetos estruturantes e a judicialização extrema da política.


O desenrolar das próximas semanas será decisivo para o futuro da capital. Enquanto a Polícia Federal analisa o material colhido nas buscas e apreensões em três estados, o MP-AP acelera a apuração sobre as contas de DaLua. A prefeitura, hoje um território de auditorias constantes, aguarda o fim do prazo de 60 dias estabelecido pelo ministro Flávio Dino para saber se retornará às mãos de Furlan ou se o afastamento será prorrogado, aprofundando a interinidade de um prefeito que, ao tentar apontar os crimes alheios, precisa constantemente explicar suas próprias finanças. O que resta, por ora, é um município administrado sob o signo do controle externo, onde cada contrato assinado passa pelo crivo de autoridades que tentam, em meio ao caos, preservar o que sobra do patrimônio público de Macapá.


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