Miséria se alastra na Amazônia com distribuição desigual de recursos do Calha Norte, diz TCU

Auditoria revela que o Programa Calha Norte converteu-se em duto de emendas, priorizando redutos políticos como Macapá, que recebeu R$ 500 milhões. Enquanto a capital amapaense revitaliza pontos turísticos, como o Trapiche Eliezer Levy (foto), municípios com pior IDH do país, como Melgaço, são completamente ignorados



O Tribunal de Contas da União (TCU) revelou recentemente que o Programa Calha Norte, originalmente concebido para a defesa das fronteiras, transformou-se entre 2015 e 2025 em um “emendoduto” que favorece capitais politicamente influentes como Macapá, em detrimento de municípios miseráveis da Amazônia. Movimentando R$ 4,5 bilhões na última década, o programa concentrou 80% de suas verbas em apenas 10% das cidades atendidas, aprofundando o abismo social na região ao priorizar obras de infraestrutura urbana e lazer em centros com IDH alto (o Índice de Desenvolvimento Humano é uma medida internacional criada pela ONU para avaliar a qualidade de vida e o desenvolvimento de um país, estado ou município. Ele utiliza três pilares principais: saúde: expectativa de vida; educação: anos de estudo; e renda: PIB per capita), variando de 0 a 1: quanto maior, melhor), enquanto localidades em situação de vulnerabilidade extrema, como Melgaço, no Pará, permanecem desassistidas por falta de articulação parlamentar em Brasília.


O contraste é visível nas margens do rio Amazonas. Enquanto Macapá e a vizinha Santana abocanharam sozinhas 11% do orçamento total do programa no decênio — cerca de R$ 500 milhões distribuídos em 215 convênios —, cidades com os piores indicadores de saneamento e desenvolvimento humano do país lutam para figurar no mapa das emendas. Na capital amapaense, o Calha Norte financiou projetos de alta visibilidade, como a revitalização do Píer Eliezer Levy, que conta com bondinho elétrico, e a reforma do Mercado Central. Essas intervenções, embora melhorem a estética urbana, levantam questionamentos sobre o desvio de finalidade de um programa que nasceu sob a égide da segurança nacional e da ocupação estratégica de fronteiras.

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A metamorfose do Calha Norte em um balcão de negócios políticos acentuou-se nos últimos cinco anos, quando o fluxo de emendas parlamentares passou a ditar o destino dos recursos. O Ministério da Defesa, que operacionalizou o programa até 2025, alegava que a escolha dos municípios era prerrogativa exclusiva de deputados e senadores, eximindo o governo de selecionar beneficiários por critérios técnicos ou socioeconômicos. Essa lógica resultou em uma distribuição perversa: quase 70% das verbas foram para cidades de IDH médio ou alto. Com a transferência do programa para o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional em 2025, o foco em infraestrutura civil consolidou-se, mas o desequilíbrio permanece como uma cicatriz na gestão pública.

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Para o cidadão da Amazônia profunda, o “emendoduto” é uma realidade distante. Em municípios como Melgaço, onde a água encanada é luxo e o lixo é queimado a céu aberto, a existência de bilhões de reais para o desenvolvimento regional soa como ficção. O cenário em 2026 desenha uma política pública fragmentada, onde a soberania nacional deu lugar ao fortalecimento de redutos eleitorais, transformando o que deveria ser um projeto de integração em um símbolo de desigualdade institucionalizada no Norte do Brasil.

O relatório técnico do TCU corrobora a tese de que o programa sofre de uma “hipertrofia política”. Segundo os auditores, a concentração de recursos é assustadora: apenas 2,5% das localidades atendidas ficaram com metade de todos os repasses realizados no decênio pesquisado. O critério para o envio do dinheiro não é a carência social ou a importância estratégica da faixa de fronteira, mas sim a conveniência parlamentar. Cerca de 21,64% dos municípios situados exatamente na linha de fronteira — área que justificou a criação do programa em 1985 — foram completamente ignorados pela União nos últimos anos.

A realidade cruel do Pará: sem saneamento ou dignidade, crianças crescem à margem do Programa Calha Norte. Onde faltam emendas parlamentares, sobra a miséria de quem habita os barracos do bairro Tucumã, em Melgaço, no Marajó

Os números detalham uma lógica perversa de “dar a quem já tem”. Municípios com IDH considerado alto ou médio ficaram com quase 70% das verbas, enquanto as localidades com IDH baixo ou muito baixo tiveram uma cobertura de apenas 34,7%. Esse desequilíbrio é alimentado por uma estrutura onde o Ministério da Defesa, gestor do programa até o início de 2025, exime-se da responsabilidade técnica sobre a escolha dos destinos. A pasta alega que a indicação das cidades é prerrogativa exclusiva de deputados e senadores, argumentando que não cabe ao Executivo selecionar os beneficiários com base em indicadores socioeconômicos.

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Essa transferência de responsabilidade cria um “ponto cego” na transparência pública. A Câmara dos Deputados reforça que a motivação das escolhas deve ser buscada com os próprios autores das emendas, enquanto o Senado mantém o silêncio sobre os critérios que levaram Macapá, Boa Vista (R$ 415 milhões), Porto Velho (R$ 235 milhões) e Rio Branco (R$ 200 milhões) a serem as grandes vencedoras do certame orçamentário. O resultado é um descontrole orçamentário onde a missão estratégica original de ocupar e desenvolver as fronteiras foi substituída pela pavimentação de caminhos eleitorais em centros urbanos já consolidados.

A expansão desordenada do programa também chama a atenção: das 783 cidades que hoje compõem o Calha Norte, 589 foram incluídas às pressas entre 2016 e 2022, período que coincidiu com o fortalecimento das chamadas “emendas de relator” e o aumento do poder do Legislativo sobre o orçamento federal. Ao pulverizar o atendimento para incluir cidades longe da Amazônia Legal ou já desenvolvidas, o programa perdeu sua identidade e tornou-se um balcão de negócios políticos. Em Melgaço, o prefeito Zé Viegas descobriu a existência das verbas através da Imprensa, lamentando que, até o início de sua gestão em 2025, o município nunca tenha sido procurado por nenhum parlamentar para discutir projetos estruturantes.


O cenário desenhado pela auditoria é o de um Brasil de duas faces dentro da própria Amazônia. De um lado, o luxo de obras não essenciais em capitais politicamente conectadas; do outro, a fumaça tóxica dos lixões a céu aberto em cidades que carecem do básico para a dignidade humana. O Tribunal de Contas da União concluiu que o programa falha em sua missão estratégica e carece de diagnósticos realistas. Sem uma reforma profunda que priorize critérios técnicos e a redução de desigualdades, o Calha Norte continuará a ser, em 2026, um exemplo de como o dinheiro público pode atravessar a floresta sem jamais tocar o solo daqueles que mais precisam. No final, a “defesa nacional” parece ter sido reduzida à defesa de mandatos e influências, deixando Melgaço e centenas de outras cidades esquecidas na densidade da selva e do descaso.


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