Influência chinesa cresce na mídia brasileira com foco em tecnologia e parcerias bilionárias da TV Globo

Com a transferência de correspondentes e foco total em tecnologia, a Globo estreita laços narrativos com o maior parceiro comercial do Brasil. A mudança editorial ocorre em meio a investimentos bilionários chineses nos setores automotivo e energético em solo nacional



A Rede Globo deu início, em abril de 2026, a uma profunda reestruturação de sua cobertura internacional ao lançar a série “Entre 2 Mundos” no programa Fantástico, consolidando uma guinada editorial que prioriza o papel da China como a principal potência tecnológica e econômica do século 21. A mudança estratégica, que inclui a transferência do repórter Felipe Santana de Nova York para Pequim como correspondente fixo, ocorre em um momento de intensificação dos investimentos bilionários chineses no Brasil e levanta debates sobre a influência do “soft power” de Pequim na mídia ocidental. Embora os valores financeiros envolvidos em eventuais acordos de cooperação permaneçam sob sigilo, levantamentos recentes sobre a linha editorial da emissora confirmam que o foco da narrativa se deslocou das críticas políticas tradicionais para a exaltação da infraestrutura, da inovação e da comparação direta de eficiência com os Estados Unidos.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Por Emanoel Reis, Macapá – AP

A presença de Santana no gigante asiático marca o fim de um hiato de anos sem um correspondente exclusivo da Globo em solo chinês, sinalizando que o eixo de interesse da maior emissora do país acompanhou o fluxo do capital. Com inserções também no Jornal Nacional, a série “Entre 2 Mundos” mergulha em cidades inteligentes, redes ferroviárias de altíssima velocidade e no domínio da inteligência artificial aplicada ao cotidiano. O tom das reportagens, visivelmente mais benevolente, contrasta com a cobertura histórica que frequentemente focava em restrições de liberdades civis ou questões ambientais. Agora, o espectador brasileiro é apresentado a uma China que soluciona problemas urbanos e lidera a transição energética global, um espelho que a emissora utiliza para questionar, muitas vezes, a estagnação de infraestruturas no Ocidente.

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Essa transformação não acontece no vácuo. A China consolidou-se como o maior parceiro comercial do Brasil, com uma presença que deixou de ser apenas de exportação de commodities para se tornar uma força de investimento direto. Setores como o automotivo, com a invasão das fabricantes de carros elétricos, e o de energia, onde empresas chinesas operam grandes fatias da malha nacional, exigem uma “alfabetização” do público brasileiro sobre quem é esse novo investidor. No entanto, o que estudos acadêmicos sobre comunicação e geopolítica chamam de “ofensiva de charme” parece ter encontrado na TV Globo um canal de escoamento privilegiado. A estratégia de Pequim de firmar parcerias com grupos de comunicação na América Latina é uma tática documentada para moldar a opinião pública e suavizar a percepção sobre seu regime político, focando estritamente em resultados econômicos tangíveis.

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A repercussão dessa nova fase editorial tem sido imediata e diversa. Curiosamente, a abordagem tem atraído elogios de setores da esquerda, como o PCdoB, que enxergam na cobertura uma justa reparação à visão eurocêntrica e a valorização de um modelo de desenvolvimento estatal bem-sucedido. Por outro lado, críticos de mídia e analistas políticos apontam que a emissora estaria minimizando questões espinhosas para não antagonizar com os interesses comerciais que agora permeiam a relação bilateral. Em plataformas digitais e em portais como o DCM, circulam vídeos e análises que questionam se o jornalismo da Globo estaria sendo substituído por um “branded content” diplomático, onde a linha entre a reportagem investigativa e a peça de propaganda se torna perigosamente tênue.

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O fenômeno do “soft power” chinês através da mídia brasileira não é exatamente uma novidade, mas a escala e a sofisticação apresentadas em 2026 elevam o patamar da discussão. Ao colocar Felipe Santana, um de seus repórteres mais versáteis e conhecidos pela cobertura nos EUA, para desbravar o interior da China, a Globo confere credibilidade e um rosto familiar a uma realidade que, até então, parecia distante e impessoal para o brasileiro médio. A comparação constante com os Estados Unidos dentro da série serve como uma ferramenta narrativa poderosa: ao mostrar que o “sonho americano” hoje possui uma versão com tecnologia 5G e trens de levitação magnética no Oriente, a emissora valida a ascensão chinesa como uma alternativa inevitável de progresso.

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Especialistas em relações internacionais observam que essa mudança editorial pode ser reflexo de uma necessidade de sobrevivência econômica das próprias empresas de mídia. Em um cenário de fragmentação de audiência e queda de receitas publicitárias tradicionais, a abertura para parcerias de conteúdo com governos estrangeiros ou conglomerados globais torna-se uma saída tentadora. No caso da China, o aporte financeiro para a promoção de sua imagem no exterior é virtualmente ilimitado. Embora a TV Globo não confirme o recebimento de verbas governamentais chinesas para a produção de “Entre 2 Mundos”, a mudança radical no posicionamento editorial e a logística caríssima de manter uma estrutura fixa na Ásia indicam que os ganhos — sejam eles diretos ou em futuras parcerias de mercado — justificam o investimento.


Enquanto isso, o público consome uma China tecnológica, limpa e eficiente. Os dilemas sobre a vigilância estatal, o sistema de crédito social ou as tensões em Hong Kong e Taiwan perdem espaço para o brilho dos arranha-céus de Shenzhen e a autonomia das baterias de lítio. A série do Fantástico, ao focar na comparação “entre dois mundos”, acaba por criar um terceiro: um mundo onde a geopolítica é filtrada pela lente da produtividade, e onde a maior emissora do Brasil atua como o principal tradutor dessa nova ordem para milhões de lares, consolidando a percepção de que o futuro, ao menos o que será transmitido na televisão, fala mandarim.


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