Levantamento da Fian Brasil aponta que quase metade das famílias lideradas por mulheres negras na região Norte convive com a fome, reforçando a necessidade de políticas públicas específicas para este recorte
Nos lares amapaenses e em toda a região Norte, a fome tem cor, gênero e endereço definidos. Um levantamento detalhado divulgado pela organização Fian Brasil em maio de 2026, com base no estudo “As faces da desigualdade: raça, sexo e alimentação no Brasil”, revela que mulheres negras chefes de família no Norte e no Amapá compõem o grupo mais vulnerável à insegurança alimentar grave no país, atingindo quase metade desses domicílios (46,3%), devido a uma combinação estrutural de racismo, desigualdade de gênero e disparidades regionais que persistem mesmo após a saída oficial do Brasil do Mapa da Fome da ONU em 2025.


Principais destaques:
- Abismo regional: O Norte apresenta o índice mais crítico do país (46,3%).
- Recorte de gênero e raça: Há uma diferença de quase 31 pontos percentuais entre a insegurança alimentar de lares chefiados por mulheres negras no Norte em comparação com lares chefiados por homens brancos em nível nacional.
- Concentração de risco: As três maiores barras pertencem exclusivamente a lares chefiados por mulheres negras, evidenciando o ponto central do estudo da Fian Brasil.

O cenário descrito pelas pesquisadoras Veruska Prado e Rute Costa expõe uma ferida aberta na estrutura social brasileira. Embora o país tenha celebrado avanços recentes em indicadores macroeconômicos, a mesa da mulher negra no Norte do Brasil continua sendo a última a ser servida. No Amapá, onde o contexto local já apresentava sinais de alerta em 2024 — com cerca de 291 mil pessoas afetadas pela insegurança alimentar moderada ou grave —, os dados atuais confirmam que a vulnerabilidade é seletiva e cruel. A pesquisa demonstra que a prevalência de insegurança alimentar em lares chefiados por mulheres negras no Brasil alcança 38,5%, um número drasticamente superior aos 15,7% registrados em lares liderados por homens brancos.

Sentada na cozinha de sua casa em uma comunidade periférica de Macapá, Maria do Socorro, 42 anos, personifica as estatísticas. Mãe solo de três filhos, ela trabalha como diarista e, mesmo com a renda mensal, diz que o planejamento das refeições é um exercício diário de sobrevivência. “A gente prioriza o prato das crianças, mas tem dia que o feijão rende menos do que o esperado. Quando olhamos as notícias de que o país melhorou, a gente se pergunta quando essa melhora vai cruzar a nossa porta”, desabafa. O relato de Maria encontra eco nas conclusões das autoras do estudo, que afirmam categoricamente: “Ser mulher e negra significou maior convivência com as desigualdades e injustiças alimentares”.

A análise vai além da simples falta de dinheiro. Ela mergulha nas estruturas históricas de discriminação que impedem que o trabalho se traduza em segurança. Um dos dados mais alarmantes do levantamento indica que o emprego formal não é um escudo suficiente para as mulheres negras. A frequência da fome em lares chefiados por mulheres negras que possuem carteira assinada é equivalente à encontrada em domicílios liderados por homens brancos que estão na informalidade. Isso sugere que, mesmo quando inseridas no mercado de trabalho, essas mulheres ocupam postos com remunerações tão baixas que não conseguem garantir o básico: o direito humano à alimentação adequada.

- Mulheres negras: Representam a maior fatia de vulnerabilidade alimentar no país, com 38,5% de prevalência em seus lares.
- Homens negros: Aparecem em seguida, com 28,9% dos domicílios afetados.
- Mulheres brancas: Registram um índice de 22,2% de insegurança alimentar.
- Homens brancos: Apresentam o menor indicador entre os grupos analisados, com 15,7%.
Este gráfico ilustra visualmente como a desigualdade racial e de gênero se manifesta diretamente no acesso à alimentação básica, destacando o impacto desproporcional sobre a população negra, especialmente as mulheres.

No Amapá, o agravamento dessa situação também passa pela geografia e pelo isolamento. Em comunidades quilombolas e ribeirinhas do estado, a insegurança alimentar é acentuada pela redução da produção para autoconsumo e pela dificuldade logística de acesso a mercados, o que impacta diretamente a nutrição de mulheres e crianças. Para tentar mitigar esse abismo, o governo estadual implementou o programa “Amapá sem Fome”, que entre 2023 e 2025 distribuiu mais de 177 mil kits de alimentos nos 16 municípios. No entanto, especialistas alertam que a distribuição de cestas, embora essencial para o alívio imediato, não desata os nós históricos da exclusão.

As pesquisadoras Prado e Costa destacam que, mesmo no topo da pirâmide social, a desigualdade persiste. Entre os que se declaram empregadores, as mulheres brancas registram os melhores índices de segurança alimentar (95,2%), enquanto as mulheres negras, mesmo na posição de patroas, ficam com 89,4%. Essa diferença de quase seis pontos percentuais em um grupo de renda mais alta evidencia que o racismo opera de forma independente da classe social, limitando o acesso a recursos e redes de proteção.

Enquanto as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam índices mais confortáveis, o Norte e o Nordeste consolidam-se como os epicentros da crise alimentar racializada. No Nordeste, o índice de lares comandados por mulheres negras em situação de insegurança alimentar é de 45,7%, colado aos 46,3% do Norte. Esses números mostram que o Brasil vive realidades paralelas: uma que celebra índices de exportação e outra que observa, silenciosa, o esvaziamento das panelas das mulheres negras nortistas.

A persistência desses dados em 2026, após o retorno do país a patamares mais estáveis de combate à pobreza, acende um alerta sobre a necessidade de políticas públicas que não sejam apenas universais, mas direcionadas. “A fome não é um fenômeno da natureza, é uma construção política”, ressaltam as autoras no estudo. Para o Amapá, o desafio é hercúleo: combater a fome exige não apenas o fortalecimento do programa estadual de alimentos, mas uma revisão profunda nas oportunidades de ascensão profissional e na valorização do trabalho feminino negro.

O estudo da Fian Brasil serve como um espelho incômodo para a sociedade brasileira. Ele revela que, sem o enfrentamento direto ao racismo estrutural e à desigualdade de gênero, o combate à fome será sempre um trabalho incompleto. Para mulheres como Maria do Socorro, a estatística não é apenas um número em um papel acadêmico; é o silêncio do estômago que espera por uma justiça social que ainda não chegou plenamente às margens do Rio Amazonas. A saída do país do Mapa da Fome é uma vitória coletiva, mas o recorte racial e regional prova que, para as mulheres negras do Norte, a batalha pela soberania alimentar está longe de terminar.

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