Estudo da CNM aponta que Macapá e outros municípios terão rombo bilionário com nova jornada de trabalho

A Confederação Nacional de Municípios alerta para a necessidade de contratar 770 mil profissionais para manter serviços básicos, gerando um impacto bilionário que preocupa gestores de todo o país com a perspectiva assustadora do aumento da pobreza



A gestão pública de Macapá e de quase a totalidade dos 5.569 municípios brasileiros enfrenta o risco de um colapso financeiro e operacional caso o Congresso Nacional aprove propostas que reduzem a jornada de trabalho no país. Um levantamento técnico detalhado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), recentemente divulgado em Brasília, revela que a capital amapaense, ao lado de outras 5.568 cidades, pode sofrer graves prejuízos fiscais devido à tramitação do Projeto de Lei 1.838/2026 e da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2025. A medida, embora debatida sob a ótica dos direitos trabalhistas, impõe um desafio matemático hercúleo aos prefeitos: para manter os serviços essenciais à população no patamar atual diante de uma carga horária reduzida, as prefeituras precisariam desembolsar bilhões e realizar contratações em massa que as leis de responsabilidade fiscal dificilmente permitiriam.

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CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

O ponto de maior tensão para os gestores municipais reside na PEC 8/2025, que projeta uma jornada de apenas 36 horas semanais. De acordo com os cálculos da CNM, essa alteração constitucional geraria um impacto direto de R$ 48,4 bilhões nos cofres das prefeituras brasileiras. O rombo financeiro é acompanhado por uma necessidade logística imediata: a contratação de 770,3 mil novos profissionais em todo o território nacional para suprir o vácuo deixado pela redução das horas trabalhadas. Sem esse reforço no quadro de pessoal, áreas vitais como o atendimento em postos de saúde e o funcionamento de escolas municipais ficariam descobertos, penalizando diretamente o cidadão que depende do serviço público.

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A preocupação não é apenas contábil, mas estrutural. O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, manifestou-se oficialmente alertando que o debate em Brasília precisa descer do campo teórico para a realidade das ruas. Em nota, Ziulkoski ressaltou que mudanças drásticas na legislação trabalhista do setor público exigem uma cautela extrema, pois as consequências não ficam restritas aos gabinetes, mas são sentidas na ponta. “É preciso alertar que mudanças tão drásticas devem ser feitas com extrema cautela, uma vez que no caso dos entes públicos, as consequências de medidas legislativas serão experimentadas pela própria população”, afirmou o líder municipalista, reforçando a necessidade de uma discussão mais profunda e menos célere.

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A entidade lembra ainda que o texto da PEC prevê sua entrada em vigor apenas um ano após a promulgação, um prazo considerado curto pelos prefeitos para tamanha reorganização administrativa. Além disso, a estimativa de R$ 48,4 bilhões é vista como conservadora. O estudo da CNM aponta que o impacto real deve ser ainda maior, uma vez que o cálculo atual não computa os custos indiretos com trabalhadores de empresas terceirizadas que prestam serviços essenciais às prefeituras, cujos contratos também precisariam de aditivos financeiros para compensar a redução de jornada dos funcionários.

Em paralelo à PEC, tramita o PL 1.838/2026, que busca alterar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para estabelecer uma jornada de 40 horas semanais. Embora esse projeto de lei apresente reflexos financeiros mais limitados do que a proposta de emenda constitucional, ele ainda assim representa um ônus adicional considerável. O impacto estimado para este caso é de R$ 442 milhões anuais aos municípios, exigindo a admissão de pelo menos 7,1 mil novos servidores para o preenchimento das lacunas operacionais. A CNM explica que a diferença de amplitude entre as duas propostas não reside apenas no número de horas reduzidas, mas no escopo das categorias que seriam atingidas, sendo a PEC muito mais abrangente e profunda em seus efeitos sobre o funcionalismo público municipal.

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O raio-X das carreiras mostra que o impacto não será distribuído de forma uniforme, atingindo com maior força o coração da administração local. Segundo o estudo técnico, as áreas mais vulneráveis são a educação, a saúde, os serviços gerais e os setores técnicos administrativos. São justamente esses pilares que sustentam os serviços básicos e que demandariam o maior volume de reposição de funcionários. Os números são alarmantes: sob o regime da PEC de 36 horas, o país poderia enfrentar um déficit imediato de 96 mil professores nas redes municipais, 58 mil trabalhadores responsáveis pela limpeza urbana e 22 mil técnicos em enfermagem.


Para cidades como Macapá, que já operam em limites fiscais estreitos, a necessidade de repor quase 10% de toda a força de trabalho para manter a estrutura vigente parece um cenário de difícil execução. A confederação destaca que, caso as medidas avancem no Congresso, os gestores precisarão buscar alternativas drásticas para evitar a paralisia dos serviços. Entre as soluções discutidas estão o rearranjo complexo das escalas de trabalho, o que poderia gerar resistência sindical, ou uma aceleração forçada da informatização dos serviços públicos, caminho que nem todos os municípios brasileiros possuem infraestrutura tecnológica para trilhar de imediato. O cenário desenhado pela CNM é de um alerta vermelho que coloca a autonomia financeira das prefeituras em xeque diante das novas diretrizes de Brasília.


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