A entrada de Alliny Serrão na disputa majoritária fragmenta o eleitorado governista no Amapá, deflagra uma crise de autofagia nos bastidores e ameaça as chances de reeleição do bloco governista em outubro
Em meio a um cenário de profunda fragmentação interna e desgaste eleitoral, as principais lideranças políticas do Amapá deflagraram, neste início de segundo semestre de 2026, uma guerra de bastidores que ameaça implodir as chances de sobrevivência do grupo governista nas urnas em outubro. Comandado pelo senador Davi Alcolumbre e pelo governador Clécio Luís (ambos do União Brasil), o bloco governista tomou a decisão de lançar quatro pré-candidaturas diferentes para disputar as duas únicas vagas disponíveis ao Senado Federal. A estratégia, que à primeira vista desafia a lógica matemática e a sobrevivência partidária, ocorre em um momento em que as principais pesquisas de intenção de voto apontam para uma vitória consolidada da oposição, desenhando um quadro de “fogo amigo” e autofagia política que transformou o palanque oficial em um verdadeiro salve-se quem puder.

A crise ganhou contornos dramáticos após a divulgação dos dados dos institutos de pesquisa mais recentes, que acenderam o sinal vermelho nos palácios do Setentrião, sede do governo estadual, e Laurindo Banha, sede da Prefeitura de Macapá. O levantamento da Atlas Intel, realizado em abril de 2026 com mais de mil entrevistados, já mostrava a oposição na vanguarda, com a ex-primeira dama da capital amapaense, Rayssa Furlan, liderando com 33,7% das intenções de voto, seguida de perto pelo senador Lucas Barreto (PSD), com 26,4%. Naquela amostragem, o senador Randolfe Rodrigues, atual líder do governo federal e peça-chave do consórcio governista, amargava um incômodo terceiro lugar, com apenas 16,3%, enquanto o deputado federal Acácio Favacho (MDB), outro pré-candidato ao Senado, aparecia com 5,9%. O cenário, que já era preocupante, tornou-se ainda mais hostil em junho, quando a pesquisa do Instituto Veritá consolidou o favoritismo absoluto da oposição: Rayssa Furlan disparou para 52,6% e Lucas Barreto cravou 40,2%, deixando as duas cadeiras em disputa temporariamente fora do alcance dos governistas.

Em vez de unificar forças para tentar reverter o prejuízo, o comando político do estado optou por pulverizar ainda mais o seu eleitorado. A mais recente e ruidosa movimentação envolve a entrada intempestiva da deputada estadual Alliny Serrão, também do União Brasil, na disputa majoritária. Até há poucos meses, Serrão ocupava a estratégica função de coordenadora de campanha do governador Clécio Luís. Em dezembro de 2025, ela chegou a declarar publicamente sua lealdade incondicional ao grupo, definindo-se como uma “soldada” cujo futuro político dependia diretamente das decisões de Davi Alcolumbre. A calmaria durou pouco. Em uma manobra surpreendente em pleno ano eleitoral, Clécio Luís anunciou a substituição de Alliny Serrão por Dejalma Espírito Santo, ex-secretário de Estado de Mobilização e Participação Popular, na coordenação, empurrando a antiga aliada diretamente para a fogueira da disputa ao Senado, mesmo sem que ela tivesse sido testada nos levantamentos de opinião pública anteriores.


Para analistas políticos locais e membros dos próprios partidos aliados, a conta simplesmente não fecha e a estratégia beira a irracionalidade eleitoral. Com Randolfe Rodrigues tentando desesperadamente estancar a sangria de votos em terceiro lugar, Acácio Favacho em quinto e o vice-governador Teles Júnior (PDT), também pré-candidato ao Senado, sem pontuação expressiva, a introdução de uma quarta candidatura no mesmo campo ideológico funciona como uma espécie de canibalismo político. Como Alliny Serrão disputa o mesmo perfil de eleitor de centro e de centro-esquerda que compõe a base histórica de Randolfe Rodrigues, cada ponto percentual conquistado pela ex-coordenadora será, na prática, subtraído diretamente do espólio do líder do governo Lula, no Congresso Nacional.

Nos bastidores da política amapaense, o diagnóstico é de que Alcolumbre e Clécio Luís operam com pleno conhecimento dos danos colaterais, o que levanta questionamentos se a desarticulação é fruto de pura incompetência estratégica ou de uma ação deliberada de controle de danos. Três correntes interpretativas dividem as salas de reunião em Macapá. A primeira delas sugere que o governador Clécio Luís utilizou a força de trabalho de Alliny Serrão enquanto ela se mostrou estritamente necessária na organização da máquina e, posteriormente, optou por isolá-la em uma candidatura sem chances reais de vitória, garantindo que ela termine o pleito sem mandato e sem capital político para cobrar faturas futuras.

A segunda leitura aponta para os interesses de Davi Alcolumbre, que teria chancelado o nome de Serrão para mantê-la sob amarras partidárias, evitando que ela migrasse para o palanque da oposição e fortalecesse o arco de alianças de Rayssa Furlan ou Lucas Barreto, mesmo ciente de que o preço dessa contenção seria o sacrifício definitivo da reeleição de Randolfe Rodrigues. Por fim, a hipótese mais sombria desenhada por interlocutores do governo descreve um ambiente de pânico generalizado. Diante de números que desenham uma derrota acachapante em outubro, o pacto de governabilidade interna teria ruído, fazendo com que cada cacique político tente salvar a própria pele e articular a sobrevivência de seus feudos particulares, mesmo que isso signifique empurrar os antigos parceiros de jornada para o precipício eleitoral.

Enquanto as convenções partidárias se aproximam e o tom das discussões internas se eleva, o eleitor do Amapá assiste ao espetáculo de um grupo político que parece ter perdido o rumo programático em troca de uma guerra de egos e sobrevivência. O cidadão amapaense, no fim das contas, torna-se o espectador de um tabuleiro onde a ex-coordenadora de campanha vira candidata da noite para o dia e o principal senador da base governista luta para não ser rebaixado, expondo que o pragmatismo das urnas foi substituído pelo mais absoluto caos.

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