Esquema de roubalheira em contas da Caixa em Macapá é desmantelado pela PF na “Operação Rastro Financeiro”

Agentes cumprem mandados em agências bancárias para desarticular esquema de fraudes bancárias contra clientes da Caixa



A Polícia Federal deflagrou na manhã da sexta-feira, 13 de fevereiro, a Operação Rastro Financeiro, uma ofensiva estruturada para desmantelar um esquema especializado em invasão de contas e subtração de valores de correntistas da Caixa Econômica Federal. Com o cumprimento de seis mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal, os agentes buscam agora consolidar as provas sobre a cadeia de comando de uma organização criminosa que, embora operasse no ambiente virtual, causava danos reais e milionários ao patrimônio público. As investigações, que correm sob sigilo, revelam um modus operandi sofisticado, onde a tecnologia é utilizada para explorar a vulnerabilidade humana e as brechas de segurança digital, resultando em uma sangria financeira que, em última análise, é suportada pela instituição bancária estatal, responsável por ressarcir os clientes lesados.

O esquema investigado pela PF funciona como uma engrenagem de múltiplas etapas, que começa muito antes do clique fatal da vítima. Segundo peritos em crimes cibernéticos que acompanham o caso, a fraude não é um ato isolado, mas um processo industrializado. Tudo se inicia com a captura de dados, frequentemente por meio de técnicas de “phishing” — o envio de mensagens de texto (SMS), e-mails ou alertas de aplicativos que simulam comunicações oficiais da Caixa. Nessas mensagens, o tom é invariavelmente de urgência: uma suposta atualização de segurança obrigatória, uma conta bloqueada ou uma transação suspeita que o cliente precisaria “cancelar”. Ao clicar no link malicioso, o correntista é direcionado a uma página espelho, visualmente idêntica ao portal do banco, onde insere agência, conta e senha.

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Uma vez que os criminosos conseguem essas informações, o próximo passo é a “quebra” da barreira de autenticação de dois fatores. Para isso, o grupo utiliza técnicas de engenharia social. “O criminoso liga para a vítima fingindo ser do suporte técnico do banco. Com um tom profissional e calmo, ele convence o cliente de que está havendo um acesso indevido e que, para ‘proteger’ a conta, a pessoa deve informar o código de ativação que acabou de chegar por SMS. Na verdade, esse código é o que permite ao fraudador habilitar o seu próprio dispositivo para operar a conta da vítima”, explica um investigador da PF que atua na área de repressão a crimes fazendários. Com o acesso pleno, os suspeitos realizavam transferências via Pix, pagamentos de boletos de altos valores e até contratação de empréstimos pré-aprovados, drenando o saldo em poucos minutos.

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Embora os correntistas tenham sido as vítimas diretas das invasões, o impacto financeiro recai sobre a Caixa Econômica Federal. Como a responsabilidade pela segurança dos sistemas e pela guarda dos valores é da instituição financeira, o banco é obrigado por lei a ressarcir os clientes que comprovam não ter autorizado as transações. Esse prejuízo, contudo, é socializado. “O prejuízo financeiro foi suportado pela Caixa, que ressarciu os valores subtraídos aos clientes, mas é importante lembrar que se trata de uma empresa pública. O dinheiro que sai para cobrir fraudes é recurso que deixa de ser investido em programas sociais ou em melhorias no atendimento”, afirma um consultor jurídico ouvido pela reportagem. A PF aponta que a escala das subtrações ainda está sendo calculada, mas a frequência das operações indica um grupo com grande capacidade de processamento de dados.

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Estes últimos formam a base da pirâmide: pessoas que cedem suas chaves Pix ou contas bancárias para receber o dinheiro desviado em troca de uma porcentagem. Essas contas, chamadas no jargão policial de “contas de passagem”, servem para pulverizar o montante rapidamente, dificultando o rastreio pelo Banco Central e pela própria Polícia Federal. O objetivo da Operação Rastro Financeiro é justamente identificar quem está no topo dessa estrutura, financiando a infraestrutura tecnológica necessária para as fraudes.

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O movimento da Polícia Federal de levar o caso diretamente à presidência do STF, em vez de seguir os trâmites protocolares habituais, gerou ruídos internos na Corte. O gesto é visto como uma tentativa de forçar uma análise sobre o conflito de interesses, cabendo agora a Edson Fachin decidir se há elementos para o afastamento de Toffoli da relatoria. Andrei Rodrigues reforçou que a palavra final é do Supremo, enquanto o gabinete de Toffoli classificou a iniciativa da PF como baseada em “ilações”, argumentando que a corporação não possui competência jurídica para requerer a suspeição de um ministro.

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A operação de sexta-feira focou em coletar novos elementos de prova, como computadores, dispositivos de armazenamento e aparelhos celulares que possam conter o histórico das conversas e a contabilidade do grupo. A investigação também tenta mapear se houve a participação de funcionários ou ex-funcionários que pudessem ter fornecido listas de clientes ou informações privilegiadas sobre o funcionamento interno dos sistemas de segurança da Caixa. Identificar outros integrantes do grupo criminoso é vital para promover a completa desarticulação do esquema, evitando que a organização mude apenas o nome do servidor e continue operando em outros estados.

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Os investigados na Operação Rastro Financeiro poderão responder pelo crime de fraude bancária, tipificado no Código Penal, com penas agravadas pela natureza cibernética da ação. A legislação brasileira foi endurecida recentemente para lidar com o boom de golpes digitais, e as penas para quem comete esse tipo de crime podem chegar a até nove anos de reclusão, além de multa. Além da fraude, o Ministério Público Federal poderá oferecer denúncia por associação criminosa e lavagem de dinheiro, o que elevaria significativamente o tempo de condenação. “A mensagem que a operação de hoje passa é de que o anonimato digital não é absoluto. O rastro financeiro, por mais fragmentado que seja, acaba deixando pegadas que a tecnologia forense hoje consegue detectar”, aponta um dos agentes envolvidos na ação.


Para evitar cair em esquemas como este, especialistas recomendam que o correntista nunca clique em links enviados por mensagens e desconfie de ligações que peçam códigos enviados por SMS. O padrão de segurança dos bancos nunca envolve a solicitação de senhas ou códigos de confirmação por telefone. No entanto, o avanço da Operação Rastro Financeiro mostra que, por trás de cada golpe, existe uma estrutura profissionalizada que se aproveita da boa-fé e da digitalização acelerada da economia. Com a desarticulação desse grupo, a Polícia Federal espera reduzir o índice de reclamações de fraudes contra a Caixa na região e alertar outras instituições para as táticas de evasão de dados que estão em constante evolução.

A Caixa, em nota enviada após a deflagração da operação, afirmou que colabora integralmente com as investigações da Polícia Federal e que investe constantemente em tecnologias de segurança para proteger seus clientes. A instituição reforçou que possui canais oficiais de contestação de débitos e que, comprovada a fraude, os valores são devolvidos em curto prazo. Enquanto isso, os seis mandados de busca cumpridos hoje servem como o início de uma análise pericial profunda que poderá resultar, nas próximas semanas, em novas ordens de prisão para os cabeças da organização que transformou o crime bancário em um modelo de negócio clandestino de alto lucro.


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