Furlan deixa o MDB e se une ao PSD em busca de sobrevivência política no Amapá

A gratidão expressa em ‘caráter irrevogável’ no papel é, na prática, o aviso prévio de uma guerra declarada para 2026 bancada por Barreto e Kassab



O tabuleiro político do Amapá sofreu, nas últimas 24 horas, uma movimentação que altera não apenas a correlação de forças local, mas redefine as estratégias para a sucessão estadual de 2026. Em um movimento que mistura pragmatismo e sobrevivência política, o prefeito de Macapá, Antônio Furlan, encerrou sua curta passagem pelo MDB para se abrigar no PSD. A mudança, formalizada entre a noite de segunda-feira e a manhã de terça-feira, expõe as fissuras internas da política nortista e a dificuldade de acomodação de lideranças ascendentes em estruturas partidárias já comprometidas com projetos de poder consolidados.

Furlan, que havia ingressado no MDB em março de 2024 sob o comando do deputado federal Acácio Favacho, percebeu rapidamente que o “teto” da legenda era mais baixo do que suas ambições. O gatilho para a desfiliação ocorreu em Brasília, após uma reunião com o presidente nacional da sigla, Baleia Rossi. No encontro, ficou claro que o MDB não seria o veículo para uma eventual candidatura de Furlan ao governo do Estado. Mais do que isso, a cúpula emedebista sinaliza um alinhamento cada vez mais nítido com o atual governador, Clécio Luís (União Brasil), deixando o prefeito de Macapá em uma espécie de isolamento estratégico dentro de sua própria casa.

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A saída de Furlan foi selada com a liturgia que o cargo exige, mas que esconde o descontentamento de bastidor. No ofício enviado ao partido, ele utilizou palavras de cortesia, referindo-se ao MDB como uma “honrada agremiação” e afirmando que deixava a sigla com o “coração cheio de gratidão e respeito” em caráter “irrevogável”. No entanto, a rapidez com que o anúncio da nova casa foi feito revela um planejamento prévio.

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Ao lado de Gilberto Kassab, o grande articulador do PSD nacional, e do senador Lucas Barreto — que retoma o papel de mentor político de Furlan —, o prefeito sinalizou que busca um partido com maior autonomia e musculatura para enfrentar o bloco governista local. Kassab, conhecido por sua habilidade em atrair prefeitos de capitais para fortalecer o projeto nacional do PSD, vê em Furlan uma peça importante no xadrez da Região Norte. Para Lucas Barreto, a chegada do prefeito é uma vitória pessoal e política, consolidando um grupo que se coloca como contraponto direto à influência do grupo de Waldez Góes e Clécio Luís.

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A trajetória de Antônio Furlan é marcada por uma notável fluidez partidária, característica que o permitiu transitar entre diferentes espectros políticos em um curto espaço de tempo. Médico de formação, ele iniciou sua caminhada pública no PTB, justamente pelas mãos de Lucas Barreto. Na Assembleia Legislativa do Amapá, chegou a ser líder do governo de Waldez Góes (PDT), hoje ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, demonstrando uma capacidade de interlocução que o levou à prefeitura de Macapá em 2020, então pelo Cidadania.

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Desde então, sua jornada partidária tem sido uma busca por abrigo seguro contra as intempéries das alianças estaduais. Passou pelo Podemos em 2023, migrou para o MDB em 2024 e, agora, chega ao PSD. Essa “metamorfose” partidária, embora vista por críticos como uma falta de identidade ideológica, é lida por seus aliados como um realinhamento necessário diante da hegemonia do grupo governista, que domina as principais estruturas de poder no Amapá.

A escolha pelo PSD não é apenas uma mudança de sigla, mas um retorno às origens políticas sob a proteção de Barreto. O senador tem sido o principal crítico da atual gestão estadual e busca em Furlan o nome natural para polarizar a disputa em 2026. Ao sair do MDB, Furlan evita o risco de ser “engolido” por uma aliança que privilegiaria a manutenção do status quo representado por Clécio Luís.

Em Brasília, a percepção é de que o MDB já faz parte da base de sustentação do governador, restando a Furlan apenas o papel de gestor municipal sem voos mais altos. No PSD, o cenário muda: ele ganha a garantia de comando e a promessa de que a legenda investirá em sua imagem como a principal alternativa ao “establishment” político que governa o estado há décadas.

Por outro lado, o prefeito agora precisa provar que sua gestão consegue manter o ritmo de entregas mesmo estando em um campo de oposição declarada ao Palácio do Setentrião. A política amapaense, frequentemente decidida nos detalhes das alianças de última hora, assiste agora à formação de um novo polo de poder. Furlan aposta que o PSD de Kassab lhe dará a estrutura que o MDB de Baleia Rossi e Favacho lhe negou.


Se a gratidão expressa na carta de saída era genuína ou apenas um protocolo de despedida, pouco importa para o eleitor; o que está em jogo é o desenho de uma disputa que promete ser uma das mais acirradas da história recente do Amapá. O prefeito de Macapá, agora “pessedista”, retira-se da sombra do MDB para tentar brilhar com luz própria, sos a liderança de quem o lançou e com o aval do maior mestre das articulações partidárias do país.


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