A força de um jornalista solitário contra políticos poderosos e grandes impérios da comunicação

O surgimento do JORNAL PESSOAL na imprensa amazônica se deu semanas após o assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles (PC do B), em junho de 1987. Contudo, é bem provável que esse crime tenha sido planejado entre o final de março e o começo de abril daquele ano. Naquela ocasião, dois homens, um alto e robusto e outro baixo e magro, se instalaram no Hotel Milano, um local estratégico na avenida Presidente Vargas, centro de Belém (PA). José Roberto Vasconcelos, o Betão, e Marcos Antônio Nogueira, o Marquinhos, vigiavam Paulo e preparavam um plano para outros dois homens que chegariam para matá-lo. Depois dessa execução, Lúcio Flávio Pinto viria a descobrir, amargamente, que liberdade de imprensa só existia na teoria.



Há 39 anos, em Belém, o jornalista Lúcio Flávio Pinto lançava o Jornal Pessoal especialmente para publicar uma investigação de três meses sobre o assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles (PC do B), após a reportagem ser recusada pelo jornal O Liberal por medo de retaliação de anunciantes poderosos envolvidos no crime. Fonteles, advogado de trabalhadores rurais morto em uma emboscada em junho daquele ano, tornou-se o estopim para que Lúcio Flávio rompesse com a grande mídia e criasse um veículo independente, mantido exclusivamente por leitores e dedicado a denunciar a corrupção e a violência agrária na Amazônia.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP
CONJUNTURACONJUNTURA30 de julho de 2019Por Emanoel Reis, Macapá – AP

A história do jornalismo brasileiro possui marcos de ruptura, mas poucos são tão viscerais quanto o nascimento do Jornal Pessoal nas mãos de Lúcio Flávio Pinto. O cenário era o Pará de 1987, um território onde a fronteira entre a lei e o latifúndio era borrada pelo sangue de quem ousava defender o campo. Paulo Fonteles, ex-deputado estadual e advogado destemido, havia sido executado com três tiros na cabeça em uma emboscada na saída de Belém. O crime não era apenas um homicídio; era um recado político. Lúcio Flávio, então o repórter mais prestigiado da região, mergulhou nos subterrâneos do caso e emergiu com nomes, locais de hospedagem de pistoleiros e a teia de mandantes que envolvia os homens mais ricos do estado.

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Ao apresentar as nove laudas de sua apuração à diretoria de O Liberal, Lúcio ouviu o que muitos repórteres temem: o texto era brilhante, mas impublicável. Os acusados eram pilares da economia local e anunciantes vitais do jornal. Naquele instante, diante do impasse entre o silêncio lucrativo e a verdade perigosa, Lúcio Flávio tomou a decisão que definiria as próximas três décadas de sua vida. Ele não apenas deixou o emprego estável e os altos salários; ele decidiu que, se a estrutura da imprensa paraense não comportava a verdade sobre a Amazônia, ele construiria sua própria estrutura, mesmo que fosse um “jornalzinho” grampeado e austero.

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O Jornal Pessoal surgiu com uma estética quase escolar, mas com um peso editorial que abalou as estruturas de poder. Sem publicidade, sem patrocínios e distribuído pessoalmente ou por correio, a publicação tornou-se o único lugar onde se podia ler sobre o que realmente importava: a grilagem de terras, as fraudes no Banco da Amazônia (Basa) e as milícias a serviço de fazendeiros. Lúcio Flávio transformou-se em um “exército de um homem só”, acumulando as funções de repórter, editor, contínuo e distribuidor. Sua inspiração vinha de I.F. Stone, o lendário jornalista americano que provou que a independência real exige não ser amigo do poder.

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A solidão como custo da independência
Manter tal postura em uma região marcada pelo “colonialismo interno” cobrou um preço altíssimo. Lúcio Flávio Pinto não enfrentou apenas a censura econômica, mas a violência física e o assédio jurídico. Ao longo dos anos, foi alvo de 34 processos judiciais — muitos movidos pelos mesmos grupos de comunicação que um dia o empregaram. Foi agredido em restaurantes por diretores de jornais e ameaçado de morte por governadores e empresários. A técnica de lawfare (O termo “lawfare” diz respeito ao uso ou manipulação das leis e procedimentos legais como instrumento de combate e intimidação a um oponente, desrespeitando os procedimentos legais e dos direitos do indivíduo que se pretende eliminar.), muito antes de ganhar esse nome, foi aplicada contra ele na tentativa de sufocar suas finanças e sua saúde.
A reportagem de Lúcio sobre a Fazenda Curuá é, talvez, seu maior triunfo e sua maior tragédia pessoal. Ele denunciou a grilagem de 4,7 milhões de hectares — uma área equivalente à Holanda — pelo empresário Cecílio do Rego Almeida. Enquanto a justiça estadual o condenava por chamar o empreiteiro de “pirata fundiário”, sua apuração servia de base para que a Justiça Federal, anos depois, cancelasse o registro fraudulento e devolvesse a terra à União e aos povos indígenas. Lúcio venceu a causa pública, mas perdeu a paz privada, acumulando condenações financeiras que o obrigaram a recorrer a “vaquinhas” para não ser preso.

O legado de um homem-floresta
Hoje, aos 75 anos e lutando contra o Parkinson, Lúcio Flávio vive cercado por uma biblioteca de 70 mil volumes em seu apartamento em Belém. A montanha de livros é a materialização de uma mente que se recusou a ver a Amazônia como um mero almoxarifado de recursos. Para ele, o jornalismo nunca foi apenas relatar fatos, mas aplicar o rigor das ciências sociais para entender as forças que movem a destruição da floresta. Ele lamenta o que chama de “derrota”, vendo a Amazônia ainda entregue ao abandono, mas seu trabalho permanece como a crônica mais precisa e corajosa da região entre 1966 e 2019.


A trajetória do Jornal Pessoal ensina que a omissão na imprensa é um ato de vontade. Quando os grandes veículos escolhem o que não publicar, eles desenham os contornos da realidade que desejam proteger. Lúcio Flávio Pinto escolheu o caminho inverso. Ele provou que um jornalista solitário, armado apenas com papel, caneta e uma ética inabalável, pode ser mais poderoso do que um império de comunicação. Seu legado não está nos prêmios que recebeu, mas na memória de um Pará que, graças a ele, não pôde fingir que não sabia quem eram os seus algozes.


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