Exposição no Centro Nacional de Folclore destaca a produção artesanal do distrito de Maruanum, moldada com barro e resinas amazônicas. O evento reúne obras de dezoito artesãos, entre adultos e crianças, reafirmando a resistência cultural e a renovação desta tradição
As mãos que moldam o solo escuro do distrito rural de Maruanum, no Amapá, chegam pela primeira vez ao Sudeste para revelar um segredo que une a ancestralidade indígena à matriz africana. No próximo dia 30, às 17h, o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Rio de Janeiro, inaugura a exposição “Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum”, uma mostra inédita que apresenta 208 peças produzidas por artesãos quilombolas. A iniciativa, realizada em parceria com a Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro, marca um momento histórico de visibilidade para uma tradição que resiste a 80 quilômetros de Macapá e que agora inicia formalmente sua trajetória para se tornar Patrimônio Imaterial do Brasil.

Pela primeira vez na história,
o segredo do barro amazônico
deixa o distrito de Maruanum
para revelar, no Rio de Janeiro,
a alma de uma arte ancestral.
O caminho do barro até as prateleiras do museu no Catete foi longo, atravessando décadas de espera e desafios logísticos. O desejo de realizar a mostra pulsava na instituição há mais de 15 anos, mas a natureza impunha seu próprio ritmo. A produção das louças é intrinsecamente ligada à sazonalidade amazônica e à dificuldade de obtenção da matéria-prima, fatores que, somados a questões orçamentárias, adiaram o projeto. Segundo a antropóloga Ana Carolina Nascimento, coordenadora técnica de Pesquisa e Projetos Especiais do CNFCP, a concretização da exposição agora é motivo de celebração após um intenso trabalho de campo realizado em outubro de 2025, no qual as histórias e técnicas dessas famílias foram documentadas detalhadamente.
Entre cinzas de caripé e resina,
as mãos quilombolas moldam
peças que unem a herança
indígena à matriz africana
sob as bênçãos da Mãe do Barro.
A técnica empregada pelas louceiras é um exercício de simbiose com a biodiversidade da floresta. Não se trata apenas de modelar argila; o processo exige o domínio de elementos específicos, como as cinzas resultantes da queima da casca do caripé (Licania scabra) e a jutaicica, uma resina vegetal extraída do jatobá. A alquimia desses componentes garante a resistência e a estética única das peças, mas o rigor técnico é acompanhado por uma profunda dimensão espiritual. Há uma série de restrições rituais que as artesãs obedecem com devoção, especialmente durante a queima e a extração do material. O momento mais emblemático ocorre logo após a retirada do barro: em um gesto de gratidão, as mulheres moldam pequenas peças e as devolvem ao buraco de onde a terra foi tirada, uma oferta à entidade espiritual conhecida como “Mãe do Barro” ou “Vovó do Barro”. Entre cantos de “ladrões” de marabaixo, elas pedem proteção e agradecem pela colheita do solo.

Aos 85 anos, a mestra Marciana
lidera a comitiva de artesãos,
provando que a tradição vive
e se renova no brilho dos olhos
dos pequenos louceiros do Amapá.
Atualmente, essa herança cultural é mantida viva por um grupo de 26 pessoas residentes em um complexo de 16 vilas no Maruanum. Embora a tradição seja predominantemente feminina — com 20 mulheres à frente do ofício —, há sinais claros de renovação e quebra de paradigmas: dois homens e quatro crianças também dominam a arte. A presença de meninos no processo é vista com otimismo pela antropóloga Ana Carolina, que enxerga neles o potencial de atrair outros jovens, garantindo que o conhecimento não se perca com o tempo. Esse esforço de continuidade ganha o reforço do Instituto Federal do Amapá (Ifap), que desenvolve projetos de educação patrimonial e oficinas na comunidade para sistematizar a transmissão desse saber.

A exposição no Rio de Janeiro funciona também como uma vitrine política e estratégica para a preservação do território. Michel Bueno Flores da Silva, superintendente do Iphan no Amapá, destaca que a visibilidade nacional é o primeiro passo para o registro da técnica como Patrimônio Imaterial. Para ele, o processo de salvaguarda vai além do reconhecimento simbólico; trata-se de garantir instrumentos concretos para defender as áreas de coleta de matéria-prima e assegurar que a valorização econômica da arte esteja alinhada aos sentidos culturais e espirituais da comunidade. É um reposicionamento do Amapá no cenário cultural brasileiro, evidenciando a centralidade das produções amazônicas na identidade nacional.

Muito além de uma exposição,
o evento é o marco inicial para
o registro oficial de um saber
que agora busca o título de
Patrimônio Imaterial do Brasil.
A abertura da mostra contará com a presença de uma figura central nessa história: a mestra Marciana Dias. Aos 85 anos, ela é a louceira mais velha em atividade no Maruanum e uma guardiã fundamental dessa tradição, tendo fundado a Associação de Louceiras ainda em 1992. Além de sua maestria com o barro, Marciana é uma referência no marabaixo, a manifestação cultural mais emblemática do Amapá. No dia da inauguração, ela participará de uma roda de conversa ao lado da louceira Castorina Silva e Silva, da pesquisadora Céllia Costa e do reitor do Ifap, Romaro Silva. O debate promete aprofundar as discussões sobre decolonialidade e as estratégias pedagógicas para a preservação de saberes tradicionais, temas que Céllia Costa estuda desde 2011 e que hoje são o foco do Centro sobre Cerâmica do Maruanum (Cemadere).

No ritual do Maruanum, o barro
retirado é sempre devolvido
em forma de oferta e cânticos,
um pacto de respeito absoluto
com a biodiversidade da floresta.
Ao todo, 18 artistas, entre adultos e crianças, assinam as peças que estarão expostas e disponíveis para venda no Ponto de Comercialização Permanente do CNFCP. A exposição integra o programa Sala do Artista Popular, que desde 1983 abre espaço para a produção artesanal brasileira. Após o encerramento da temporada carioca, no dia 1º de julho, a mostra seguirá para o Amapá, retornando às origens em Macapá e no próprio distrito de Maruanum. A visitação no Rio de Janeiro é gratuita, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer um Brasil profundo, onde a terra não é apenas recurso, mas uma divindade que ensina, nutre e conta histórias através das mãos de suas filhas e netas.

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