Nova sobretaxa norte-americana atinge em cheio a indústria de manufaturados e eleva o dólar, enquanto a diplomacia corre contra o relógio para tentar reverter as sanções em Washington
O governo do presidente norte-americano Donald Trump propôs formalmente a aplicação de uma tarifa de 25% sobre diversas importações brasileiras, em uma medida que atinge também cerca de 60 nações, após o Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluir uma investigação que acusa o Brasil de adotar práticas comerciais desleais. O anúncio, realizado em Washington, dá início a um calendário de consultas públicas que se estende até o mês de julho, período no qual diplomatas e entidades privadas brasileiras buscam articular negociações atenuantes para conter o impacto financeiro. A ofensiva de Washington é justificada por supostas barreiras comerciais no mercado brasileiro, citando nominalmente o favorecimento do sistema Pix em relação aos cartões de crédito estrangeiros, a regulação de big techs, o desmatamento, além de atrasos na concessão de patentes e o desrespeito a decisões corporativas de mídia social e de combate à corrupção.

A medida do governo dos EUA provocou forte apreensão entre entidades setoriais e gerou instabilidade imediata no Ibovespa, além de flutuações no câmbio do dólar. Apesar do tom agressivo da política externa de Trump, o relatório da Casa Branca poupou itens estratégicos que possuem altíssimo peso econômico para a balança comercial brasileira, como petróleo bruto, café, carne bovina, fertilizantes, medicamentos e peças de aeronaves civis. De acordo com analistas, a exclusão dessas commodities e insumos essenciais da lista de sobretaxas foi uma decisão calculada de Washington para evitar choques internos de oferta e pressões inflacionárias sobre a própria economia norte-americana.

Fontes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), que centraliza as informações sobre o processo tarifário em seu portal oficial, apontam que o corpo diplomático trabalha com prazos apertados. O cronograma prevê o envio de defesas formais e comentários por escrito pelas empresas brasileiras até o dia 1º de julho. Posteriormente, nos dias 6 e 7 de julho, serão realizadas audiências presenciais em Washington para debater as acusações, com o prazo final para a definição e eventual aplicação prática das sanções estipulado para 15 de julho.


Especialistas em comércio internacional ponderam que, embora o cenário apresente desafios severos, a economia brasileira possui uma resiliência estrutural capaz de absorver parte dos impactos. Um dos principais colchões de segurança do país é a sólida parceria comercial construída com a China, que se consolidou como o maior parceiro econômico do Brasil há mais de uma década. Esse forte fluxo de exportações de commodities agropecuárias e minerais para o mercado asiático, somado à capacidade de redirecionamento para outros canais globais alternativos, confere aos produtores de base regulada uma rota de fuga caso o mercado norte-americano encolha significativamente.

Por outro lado, críticos do cenário político doméstico argumentam que o relatório norte-americano se aproveita de fragilidades internas. Segundo analistas jurídicos, a insegurança jurídica gerada por recentes decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) tem sido usada politicamente como pretexto pelos Estados Unidos para elevar a pressão sobre o mercado nacional, misturando questões regulatórias de tecnologia com as diretrizes macroeconômicas.

O setor industrial é o que enxerga o horizonte mais sombrio. Os Estados Unidos são historicamente o principal destino dos produtos industrializados e manufaturados fabricados no Brasil. A grande preocupação reside na aplicação cumulativa de tarifas: além dos 25% propostos pela Seção 301, o governo Trump acena com adicionais de 12,5% sob a alegação de uso de trabalho forçado em cadeias produtivas, o que pode somar uma sobretaxa sufocante de até 37,5%. Segmentos com menor margem de lucro correm o risco de perder competitividade internacional de forma fulminante, com destaque para a indústria de máquinas e equipamentos industriais, calçados, produtos de madeira, ferro fundido, plástico e papel-cartão.

Estimativas preliminares elaboradas pela Câmara Americana de Comércio (Amcham) e por consultorias privadas indicam que o “tarifaço” ameaça diretamente entre US$ 9,5 bilhões e US$ 15 bilhões por ano em exportações brasileiras. Contudo, o impacto direto no cotidiano do cidadão comum no Brasil se dará por vias macroeconômicas internas bem desenhadas, a começar pelo câmbio. O aumento do prêmio de risco exigido por investidores estrangeiros tende a desvalorizar o Real frente à moeda americana. Um dólar persistentemente valorizado encarece insumos importados cruciais para a produção nacional, gerando uma nova pressão sobre os índices de inflação.

Esse repasse cambial cria um dilema para a condução da política monetária. Com a taxa Selic fixada em patamares elevados de 14,50% ao ano, o Banco Central encontrará severas dificuldades para iniciar um ciclo de cortes nos juros caso o dólar alto continue pressionando a inflação. Diante deste cenário de incertezas globais e domésticas, o Banco Mundial já revisou para baixo a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, projetando uma expansão tímida de apenas 1,6%, o que exige extrema cautela macroeconômica e pressa nas negociações bilaterais nas próximas semanas.

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