Ação conjunta entre Ministério Público e forças policiais investiga a venda de gabaritos no concurso de Mazagão. O escândalo aprofunda a crise ética na prefeitura, que já acumula denúncias de malfeitorias nos últimos cinco anos em diversas secretarias do executivo
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Amapá, deflagrou na tarde de domingo (26), em Mazagão, a Operação Gabarito. A ação visa desarticular um esquema de venda de respostas no concurso público da prefeitura local, que teria contado com a participação de gestores municipais e movimentado propinas de até R$ 30 mil por vaga.
A ofensiva, realizada em conjunto com as polícias Federal e Militar, marca o ápice de uma crise ética que assola o município de 24 mil habitantes, situado a 30 quilômetros da capital, Macapá. Nos últimos cinco anos, sucessivos escândalos de corrupção e malversação de recursos públicos tornaram a cidade alvo de investigações constantes. O cenário em Mazagão, outrora reconhecida por sua importância histórica e cultural, vê-se agora nublado por uma sequência de operações policiais que parecem não ter fim.

O episódio mais recente feriu de morte a esperança de milhares de candidatos que buscavam a estabilidade no serviço público de forma honesta. Segundo o Ministério Público, a fraude foi meticulosamente planejada: o acesso privilegiado aos cadernos de questões permitiu que gabaritos fossem comercializados por valores que oscilavam entre R$ 10 mil e R$ 30 mil, dependendo da remuneração e do prestígio do cargo em disputa.
Engrenagem criminosa e ação estatal
As diligências revelaram que a organização criminosa agia com desenvoltura dentro da própria estrutura administrativa, ferindo os princípios basilares da moralidade pública. A investigação ganhou corpo após uma troca estratégica de informações com a Superintendência da Polícia Federal no Amapá. O que começou como uma suspeita pontual transformou-se em uma operação de fôlego quando os investigadores identificaram que o esquema abrangia potencialmente todo o certame, realizado nos turnos da manhã e da tarde.

Enquanto os candidatos realizavam as provas, a engrenagem do Gaeco, apoiada pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope), já estava em movimento para interromper o fluxo do lucro ilícito. Durante o cumprimento dos mandados, foram apreendidos aparelhos celulares e anotações comprometedoras que, segundo os promotores, reforçam a tese de uma associação criminosa profissionalizada.

Para a população local, o sentimento é de um amargo déjà vu. Nos últimos cinco anos, as secretarias municipais tornaram-se frequentadoras assíduas do noticiário policial. Denúncias de desvios em verbas da saúde, educação e infraestrutura acumulam-se em pastas nas prateleiras das polícias Civil e Federal, ganhando agora o reforço do Gaeco no combate à lavagem de dinheiro e à corrupção sistêmica.

Respostas e repercussões jurídicas
Em resposta ao terremoto político, a prefeitura, sob a gestão de Manoel Souza, conhecido como Chico Nó, emitiu nota oficial com tom de distanciamento e perplexidade. A administração afirmou ter sido “surpreendida” e negou qualquer conhecimento prévio sobre o vazamento das respostas. O texto sustenta que a lisura dos processos é prioridade e anunciou a criação de uma comissão administrativa, composta pela Procuradoria Jurídica e pela Controladoria Geral do Município, para auditar o ocorrido. No entanto, o discurso oficial esbarra na contundência das investigações, que apontam diretamente para indivíduos infiltrados no alto escalão.

“O impacto social de uma fraude em concurso público é devastador, pois mina a confiança no mérito e na igualdade de oportunidades. Jovens e trabalhadores de todo o Amapá, que investiram tempo e dinheiro, veem agora o sonho da aprovação sob suspeita de nulidade”, assinala a advogada Maria Bessa de Castro, especialista em Direito Penal.
Segundo a especialista, caso as acusações de fraude e associação criminosa sejam comprovadas, os investigados enfrentam penas que podem ultrapassar os nove anos de reclusão, além de multas e a perda definitiva de cargos públicos.

O Ministério Público reitera que a repressão a esse tipo de crime é vital para garantir que a administração pública não seja tratada como um balcão de negócios. A Operação Gabarito lança luz sobre uma ferida aberta: a profissionalização do crime de colarinho branco em cidades de pequeno porte, onde a proximidade entre o poder político e os interesses privados costuma ser mais estreita.
Enquanto o caso segue sob segredo de justiça para a coleta de novos dados, a mensagem é clara: em Mazagão, o cerco está se fechando. A sociedade amapaense aguarda, agora, os próximos passos do Ministério Público e a resposta do Judiciário diante de tamanha afronta ao interesse público.

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