Aliança entre bolsonaristas e Alexandre de Moraes impõe derrota histórica para Jorge Messias no Senado

Articulação inesperada entre Alexandre de Moraes, senadores bolsonaristas e o grupo de Davi Alcolumbre barra indicação do AGU ao Supremo. O movimento revela estratégia de autoproteção da Corte diante de investigações sensíveis e do risco de futuros processos de impeachment



Uma articulação política atípica, que reuniu no mesmo tabuleiro nomes antagônicos como o senador Davi Alcolumbre (União), a oposição bolsonarista e o ministro Alexandre de Moraes, foi o fator decisivo para a histórica rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). O revés inédito no Senado, ocorrido sob o impacto de investigações sensíveis e de um novo cálculo de sobrevivência política, marcou a derrota de um nome de confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e expôs as vísceras de um Judiciário que, diante de um cenário eleitoral incerto para 2026, começou a operar em modo de autoproteção contra possíveis processos de impeachment e retaliações legislativas.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP

A queda de Messias no plenário do Senado rompeu com a tradição de décadas em que as indicações presidenciais ao Supremo eram tratadas quase como uma formalidade. O que se viu nos corredores de Brasília foi o desenho de uma pirâmide invertida de lealdades: enquanto o ministro André Mendonça, expoente da ala conservadora e indicado por Jair Bolsonaro, esforçou-se pessoalmente para viabilizar a aprovação de Messias e foi o primeiro a abraçá-lo após o resultado negativo, Alexandre de Moraes, figura central nos inquéritos contra a extrema direita, atuou como o principal estrategista da derrota do AGU. A movimentação de Moraes, vista com perplexidade por alguns setores do governo, foi descrita por um ministro próximo a Lula como uma espécie de “seguro contra o futuro”, uma sinalização clara aos grupos que hoje o criticam de que ele está disposto a compor para garantir a própria estabilidade.

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Nos bastidores do Palácio do Planalto, a leitura é de que o “modo sobrevivência” foi ativado por Moraes e outros magistrados diante de duas ameaças latentes. A primeira delas é o avanço das investigações envolvendo o Banco Master, cujos desdobramentos geram desconforto na cúpula do Judiciário e levantam o temor de que ministros da Corte possam, eventualmente, ser alvo de implicações legais. A segunda ameaça é aritmética e eleitoral. Com pesquisas indicando um empate técnico e um cenário de total indefinição entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro para a sucessão presidencial, o pragmatismo falou mais alto. Além disso, a futura renovação de dois terços das cadeiras do Senado é percebida pelo STF como um risco real, já que a próxima legislatura deve ser composta por um perfil ainda mais inclinado a abrir processos de impeachment contra integrantes da Corte.

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Dessa forma, ao ajudar a derrubar o nome de Messias, Moraes teria buscado uma “paz armada” com o grupo de Davi Alcolumbre e com a base bolsonarista, entregando-lhes a cabeça do indicado de Lula em troca de um arrefecimento das pressões contra si próprio. Essa estratégia preventiva revela um tribunal que deixou de lado a coesão ideológica para se concentrar na preservação de seus membros individualmente. Para Messias, que gozava de prestígio pessoal no governo, o peso de ser visto como um “legalista” e um defensor da autocontenção acabou sendo o seu maior fardo.

O entorno do presidente Lula também identificou uma segunda camada de resistência, desta vez puramente interna ao tribunal. Havia um esforço deliberado de uma ala influente do STF para evitar o fortalecimento do grupo ligado ao atual presidente da Corte, Edson Fachin. Messias era visto por Fachin e seus aliados como um futuro braço direito na implementação de mudanças estruturais profundas, que incluiriam a criação de um código de conduta e ética mais rigoroso para os magistrados e a limitação de decisões monocráticas. Esse projeto de “autocontenção” batia de frente com o modus operandi consolidado de ministros como Gilmar Mendes e Dias Toffoli, além do próprio Moraes, que preferem um tribunal com maior protagonismo político e liberdade de ação.

A derrota, portanto, não foi apenas uma questão de contagem de votos, mas o resultado de um choque de visões sobre o papel do STF. De um lado, a ala minoritária buscava um perfil que trouxesse o tribunal de volta para dentro das balizas clássicas do Direito; do outro, a maioria pragmática agiu para impedir a entrada de um elemento que pudesse restringir o poder de movimentação da cúpula atual. No meio desse fogo cruzado, a oposição bolsonarista encontrou a oportunidade perfeita para impor uma derrota simbólica e dolorosa ao governo, contando com o apoio silencioso de quem, em tese, deveria ser seu maior adversário.

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A imagem de André Mendonça consolando um Jorge Messias abatido é o símbolo máximo dessa inversão de papéis. Enquanto o ministro “terrivelmente evangélico” agiu por uma solidariedade de princípios e talvez por uma visão de longo prazo sobre a estabilidade institucional, aqueles que Messias considerava aliados de primeira hora no combate ao golpismo foram os mesmos que, no escurinho dos telefonemas de bastidores, selaram seu destino. O governo agora se vê obrigado a recalcular sua estratégia para a próxima indicação, sabendo que o critério de escolha já não passa apenas pela confiança de Lula, mas pelo crivo de um Supremo que aprendeu a negociar sua própria existência com as forças que ele mesmo jurou combater.


O impacto dessa rejeição reverbera como um aviso: no Brasília de 2026, a lealdade é um conceito fluído e a sobrevivência jurídica está acima das afinidades partidárias. O episódio Messias deixa claro que Alexandre de Moraes decidiu estender pontes para a direita para não se ver isolado caso o pêndulo do poder mude de lado. Para o Palácio do Planalto, resta a amarga constatação de que o STF, longe de ser um bloco monolítico de apoio, tornou-se um ator político que joga conforme a conveniência do momento, muitas vezes sacrificando os próprios aliados em nome de uma imunidade que o futuro incerto parece ameaçar.


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