Prefeito interino de Macapá evita detalhar crise financeira após queda de Antônio Furlan por corrupção

Relatórios do Tesouro Nacional revelam colapso fiscal na capital amapaense sob o comando de Antônio Furlan, que recorreu a empréstimos emergenciais para tentar mascarar a insolvência e a malversação de recursos



O prefeito interino de Macapá, Pedro DaLua (União), classificou como “fragilizada” a situação estrutural e administrativa da capital amapaense durante entrevista coletiva concedida na terça-feira, 5 de maio, no Palácio Laurindo Banha. A declaração ocorre após DaLua assumir o cargo em virtude do afastamento do titular, Antônio Furlan (PSD), determinado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), sob justificativa de que o cenário de deterioração das contas públicas e a descontinuidade de serviços essenciais exigiam uma intervenção imediata para garantir a governabilidade e a preservação do patrimônio municipal. Embora o gestor interino tenha evitado detalhar a extensão do passivo ou enumerar as irregularidades encontradas, o termo utilizado por ele soou como um eufemismo diante do rastro de insolvência financeira e suspeitas de corrupção que marcam o fim da era Furlan.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

A cautela retórica de DaLua contrasta severamente com os dados técnicos e o histórico recente da administração municipal. Ao assumir o mandato em janeiro de 2021, Antônio Furlan herdou uma prefeitura em condições diametralmente opostas às que entrega agora. Registros oficiais e declarações do ex-prefeito e atual governador do Amapá, Clécio Luís (União), confirmam que a transição ocorrida há cinco anos foi pautada pela abundância de recursos. Naquela ocasião, Clécio entregou as chaves do município com aproximadamente R$ 1,2 bilhão em caixa, valor que englobava convênios federais, verbas carimbadas para obras de infraestrutura e um saldo superavitário de R$ 67 milhões, fruto de uma política de ajuste fiscal rigorosa. O cenário permitia, à época, que o novo prefeito iniciasse o mandato com salários rigorosamente em dia e contratos operacionais garantidos.

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Entretanto, o que se viu nos anos seguintes foi uma dilapidação progressiva desse patrimônio público. A gestão Furlan, agora sob a vigilância do STF e de órgãos de controle, passou a ser sinônimo de gastança. A “fragilidade” citada por Pedro DaLua é, na verdade, o resultado de cinco anos de uma política fiscal que priorizou o marketing político, obras de vitrine e festanças em detrimento da saúde financeira da capital. Em agosto de 2024, um relatório da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), publicado no Diário Oficial da União, já acendia o sinal vermelho para os órgãos de fiscalização: Macapá apresentava um rombo estimado em mais de R$ 300 milhões. A publicação chocou a população, que via o contraste entre a propaganda oficial e a realidade de obras paralisadas por falta de pagamento.

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A crise financeira não ficou restrita aos gabinetes; ela transbordou para os canteiros de obras e para a mesa do trabalhador. Bairros como o Marabaixo 3 tornaram-se símbolos do abandono, com pavimentações interrompidas e máquinas silenciosas. Mais grave que o concreto parado foi o impacto social: o atraso crônico no pagamento de contratos de empresas terceirizadas mergulhou milhares de famílias macapaenses na incerteza. Sem receber os repasses da prefeitura, as empresas suspenderam pagamentos e demitiram funcionários, gerando um efeito cascata de inadimplência no comércio local. A gestão de Furlan, que começou com bilhões em conta, terminou com o nome da cidade inscrito nos cadastros de inadimplentes e sob suspeitas de malversação de recursos, peculato e corrupção.

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O desespero financeiro da gestão afastada atingiu o ápice em novembro de 2024. Com o crédito esgotado e a arrecadação própria insuficiente para cobrir o buraco das contas públicas, Antônio Furlan articulou uma manobra política desesperada na Câmara de Vereadores. Com o apoio do então presidente da Casa, Marcelo Dias, o Executivo enviou e aprovou em regime de urgência um projeto de lei para a contratação de um empréstimo de R$ 200 milhões. A justificativa oficial — pavimentação e mobilidade urbana — foi recebida com ceticismo pela oposição e por especialistas em contas públicas, que enxergaram na medida uma tentativa tardia de estancar uma sangria provocada por anos de má gestão e possível desvio de finalidade dos recursos públicos.

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A atual fala do prefeito interino, embora contida, revela a dificuldade de reorganizar uma máquina pública que sofreu uma debâcle financeira sem precedentes na história recente do município. Ao não detalhar a gravidade dos problemas, Pedro DaLua pode estar tentando evitar um pânico institucional ainda maior, mas os números da STN e as ordens judiciais vindas de Brasília falam por si. O cenário de “fragilidade” descrito na terça-feira é o diagnóstico de um organismo administrativo que foi levado à exaustão por ações predatórias.

Agora, o desafio de DaLua e das equipes de transição forçada é realizar uma auditoria completa para identificar onde os recursos bilionários deixados em 2021 foram drenados. A prestação de serviços essenciais, como saúde e limpeza pública, operam no limite da capacidade, refletindo o colapso de uma prefeitura que, há menos de quatro anos, era modelo de equilíbrio fiscal na região Norte. O silêncio do ex-prefeito Antônio Furlan sobre as acusações de corrupção e a origem do rombo financeiro apenas aumenta a pressão sobre os novos gestores.



O futuro de Macapá depende agora da capacidade da nova administração em renegociar dívidas e recuperar a confiança dos órgãos federais para o desbloqueio de convênios. Enquanto Pedro DaLua evita termos mais fortes, a população da capital amapaense aguarda que o termo “fragilizada” seja traduzido em números reais, expondo a verdadeira face da crise que paralisou a cidade e levou o Supremo Tribunal Federal a intervir no destino político da maior cidade do estado. A história da gestão Furlan, que começou em berço de ouro financeiro, termina sob o peso de investigações e um déficit que comprometerá as próximas gerações de munícipes.


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