Veículos de comunicação que omitiam a precariedade dos alagados durante a gestão anterior agora cobram soluções imediatas do prefeito interino, tentando blindar o pré-candidato ao governo de investigações da Polícia Federal
Em uma reviravolta que expõe as engrenagens da política e da comunicação na capital amapaense, veículos de imprensa locais começaram a exibir uma enxurrada de reportagens denunciando a precariedade dos bairros periféricos de Macapá, atribuindo a crise ao prefeito interino Pedro DaLua (União), que assumiu o cargo há pouco mais de 70 dias. A súbita preocupação midiática com os alagados e as áreas de ressaca ocorre logo após a renúncia do ex-prefeito Antônio Furlan (PSD), em março de 2026, para disputar o Governo do Estado, em meio a um rastro de investigações federais e anos de forte investimento em publicidade oficial. O fenômeno escancara como o aparato de comunicação, que silenciou durante os cinco anos e meio da gestão passada diante do abandono do subúrbio, agora é mobilizado para blindar o legado do antigo aliado e transferir o passivo de problemas estruturais crônicos para o atual ocupante do Palácio Laurindo Banha.

Durante mais de meia década, a receita adotada pela gestão de Antônio Furlan priorizou o cartão-postal em detrimento do saneamento básico. O foco quase exclusivo na revitalização do centro da cidade, na construção de praças ornamentadas e na decoração exuberante de pontos turísticos garantiu ao ex-prefeito altos índices de aprovação e uma blindagem midiática praticamente intransponível. Enquanto os cofres municipais financiavam uma narrativa de cidade perfeita nos principais telejornais e programas de rádio da capital, a realidade nas passarelas de madeira e nas áreas periféricas era de absoluto isolamento. “Nenhum apresentador de programa sensacionalista pisava aqui para mostrar nossa passarela caindo ou o esgoto correndo a céu aberto quando o antigo prefeito mandava na cidade”, desabafa a dona de casa Maria do Socorro Santos, moradora de uma área de ressaca no bairro Congós, evidenciando o contraste entre a propaganda e o cotidiano.

A calmaria política desmoronou com o avanço de investigações da Polícia Federal (PF) sobre supostos desvios de recursos públicos, tendo como epicentro o Hospital Geral Municipal, obra que era apresentada como a joia da coroa da administração. O desgaste culminou no afastamento temporário determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e na posterior renúncia definitiva de Furlan, que antecipou sua saída para viabilizar sua candidatura ao Palácio do Setentrião. Com a vacância, o então presidente da Câmara de Vereadores, Pedro DaLua, assumiu a liderança do Executivo municipal com a missão de administrar um município financeiramente asfixiado e estruturalmente dividido.

Ao assumir a cadeira, DaLua herdou um passivo complexo de problemas represados, que vão desde contratos emergenciais de lixo com sérias pendências até a paralisação de obras fundamentais nas regiões mais vulneráveis. Contudo, em vez do esperado período de trégua institucional para o diagnóstico da máquina pública, o prefeito interino passou a enfrentar uma agressiva ofensiva dos mesmos veículos que antes orbitavam no entorno financeiro de Furlan. Problemas históricos de drenagem e pavimentação, acumulados ao longo de 66 meses de omissão nas periferias, passaram a ser tratados pela crônica local como negligências exclusivas dos primeiros 70 dias da nova administração.

Essa dinâmica reflete um movimento clássico de transição de poder, no qual grupos políticos utilizam seus braços midiáticos para moldar a opinião pública e pavimentar o caminho eleitoral. Ao focar excessivamente nas demandas urgentes do subúrbio e culpar o governo interino, a imprensa que apoiava e ainda apoia Furlan tenta criar uma cortina de fumaça sobre a origem real do abandono social de Macapá. Especialistas em comunicação pública apontam que a estratégia visa desvincular a imagem do pré-candidato ao governo das investigações criminais e do deficit de infraestrutura deixado nas periferias, fixando no imaginário popular a ideia de que a cidade piorou apenas após a sua saída. Enquanto o embate político se acirra nos estúdios e nos bastidores partidários, a população das pontes e dos alagados segue aguardando que o debate se converta em serviços essenciais e dignidade urbana.

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