Ações federais contêm avanço do ouro ilegal, mas garimpo ameaça reservas florestais no Amapá

Boletim do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG mostra que a alta do ouro internacional impulsiona o garimpo ilegal sobre reservas ambientais amapaenses, gerando contaminação por mercúrio, apesar do cerco federal ter reduzido a extração irregular na Amazônia



O Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (CSR/UFMG) lançou um novo boletim de monitoramento que acende o alerta máximo sobre o avanço predatório da mineração ilegal na Amazônia neste meado de 2026. Cruzando alertas de desmatamento com imagens de satélite, o estudo revela que a pressão do garimpo avançou severamente sobre áreas de conservação no Amapá devido à alta cotação do ouro no mercado internacional, provocando contaminação por mercúrio e o assoreamento de rios que sustentam comunidades locais. O diagnóstico detalha como a destruição ambiental ignora fronteiras protegidas, ameaçando até mesmo os limites territoriais de santuários ecológicos isolados, impulsionada por uma engrenagem econômica global.

A maior parte das alterações na cobertura florestal mapeadas pelos pesquisadores concentra-se em Unidades de Conservação de Uso Sustentável, mas o cenário no Amapá desenha um quadro de vulnerabilidade inédito. O histórico Distrito do Lourenço, no município de Calçoene, desponta como um dos principais focos de tensão, servindo de base para o avanço da atividade em direção a áreas de proteção integral. O relatório aponta pressões políticas e físicas para a redução territorial de duas das maiores joias ambientais do estado: o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e a Floresta Estadual do Amapá (Flota), colocando em risco ecossistemas únicos.

CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Essa corrida pelo minério no extremo Norte reflete um panorama nacional complexo e profundamente desigual. Enquanto o estado de Minas Gerais concentra as maiores operações de minas legais do país — a exemplo do complexo minerário de Paracatu —, o Pará historicamente lidera os índices de extrações ilegais. Agora, a vulnerabilidade amapaense mostra que o crime organizado na mineração busca novas fronteiras à medida que a fiscalização aperta nos estados vizinhos. O rastro deixado por essa expansão vai muito além das árvores derrubadas, contaminando as bacias hidrográficas com o despejo massivo de mercúrio e destruindo a calha dos rios pelo assoreamento, o que inviabiliza a pesca e o abastecimento de água para as populações ribeirinhas e indígenas.

Disponibilizado na íntegra no site oficial do CSR/UFMG, o relatório inclui dados geoespaciais completos que servem como ferramenta para que órgãos de controle desenhem operações de combate ao crime ambiental. Especialistas da universidade reforçam que frear a degradação no Amapá exige não apenas repressão policial nas frentes de lavra, mas o sufocamento financeiro das redes que escoam o ouro ilegal para o mercado financeiro e a criação de alternativas de renda sustentáveis para a região.

Preço elevado do metal anula avanços contra garimpo ilegal

A cadeia produtiva do metal mais precioso do mundo vive uma encruzilhada no Brasil. O Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revela que a mudança na gestão do governo federal em 2023, acompanhada de duras operações asfixiantes contra o garimpo ilegal, conseguiu derrubar a proporção da extração irregular de ouro no país de 35% para 20%. No entanto, o documento alerta que a valorização do preço da commodity no mercado internacional seguiu funcionando como um combustível perigoso, impulsionando a destruição de 6.200 hectares de floresta na Amazônia Legal em 2023, um salto de 56% em comparação ao ano anterior. Os dados jogam luz sobre a complexa engrenagem econômica e criminosa que conecta a crise humanitária dos povos Yanomami ao comércio global de ativos financeiros.

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A dinâmica internacional de preços desempenhou um papel crucial no comportamento do setor ao longo do período analisado. Entre março e outubro de 2022, o preço do ouro chegou a registrar uma queda de 14,6%, o que provocou um breve freio no ritmo de exploração. Contudo, a reação foi veloz e, já em 2023, o metal rompeu a barreira dos 2.000 dólares por onça-troy. Essa escalada de preços inflou as margens de lucro e estimulou a expansão da atividade minerária em locais que antes eram considerados economicamente inviáveis, acendendo o alerta em regiões de alta vulnerabilidade socioambiental.

O impacto desse apetite global foi sentido diretamente no chão da floresta. O aumento vertiginoso do desmatamento associado à mineração concentrou-se majoritariamente em Unidades de Conservação de Uso Sustentável, mas também violou os limites de áreas de proteção integral e terras indígenas, onde qualquer atividade dessa natureza é estritamente proibida por lei. As cicatrizes abertas no tecido amazônico traduzem o custo ecológico de uma produção nacional que atingiu a marca estimada de 102 toneladas de ouro in 2022, movimentando uma cifra impressionante de R$ 27 bilhões na economia nacional. No primeiro semestre de 2023, o ritmo manteve-se aquecido, com a extração de 39,6 toneladas, mantendo um patamar semelhante ao do período anterior.

Estudo mapeia gargalos e forte concentração no garimpo ilegal

Geograficamente, a riqueza e os problemas do setor dividem-se entre poucos estados. Minas Gerais liderou o ranking nacional, respondendo por 30% do volume total, seguido de perto pelo Pará, com 25%, e pelo Mato Grosso, com 22%. Quando a análise da UFMG se aprofunda nos critérios de conformidade da lavra, a maior fatia da produção foi classificada como regular, atingindo 80% em 2022 e 81% no primeiro semestre de 2023. Todavia, os volumes operados à margem da lei ainda impressionam: o ouro irregular com evidência de crime representou 16% em 2022 e 15% em 2023, enquanto a fatia irregular sem evidência direta fixou-se em 4% em ambos os recortes temporais.

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O estudo deixa claro que os gargalos da ilegalidade não estão espalhados de forma homogênea, mas sim altamente afunilados na modalidade de lavra garimpeira em pontos específicos do mapa. Os municípios de Itaituba, no Pará, além de Poconé e Peixoto de Azevedo, ambos no Mato Grosso, destacaram-se como os epicentros da produção irregular. Mais do que isso, os pesquisadores identificaram uma severa concentração de responsabilidade na engrenagem financeira do minério. Apenas dez processos minerários foram os grandes responsáveis por gerar 72% de todo o ouro classificado como irregular sem evidência no país. Na outra ponta do balcão, um grupo restrito de somente cinco compradores concentrou assustadores 93% da aquisição desse metal de origem nebulosa, facilitando o escoamento do produto ilícito para o mercado formal.


Combate ao garimpo exige alternativas econômicas além da polícia

Após anos de crescimento acelerado, o ano de 2022 marcou uma importante quebra de tendência, estabilizando os volumes explorados. A virada de chave institucional em 2023 demonstrou a eficácia das ações de comando e controle, provando que o Estado possui ferramentas para sufocar o crime organizado quando há coordenação política. Ainda assim, os pesquisadores da UFMG concluem o diagnóstico apontando que a repressão policial isolada não será suficiente para resolver o problema de forma definitiva. O redesenho da cadeia exige o fortalecimento contínuo dos órgãos de fiscalização e o rastreamento digital do minério, mas demanda, sobretudo, a criação urgente de políticas públicas de transição econômica que ofereçam alternativas reais de emprego e renda digna para as populações locais que hoje dependem do garimpo.


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