Placa fixa em tubulação industrial alerta para o fornecimento limitado na capital amapaense, evidenciando as perdas técnicas e comerciais crônicas que sufocam os novos investimentos em saneamento básico
Quase quarenta por cento de toda a água potável produzida no Amapá desaparece antes mesmo de alcançar as torneiras da população. O dado alarmante consta no “Estudo de Perdas de Água 2026”, divulgado nesta semana pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a consultoria GO Associados, com base nos registros mais recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. De acordo com o levantamento, o estado registra um índice de desperdício de 39,27% na distribuição, um gargalo estrutural crônico na Região Norte provocado por tubulações obsoletas e fraudes no consumo, o que acaba por dilapidar os recursos financeiros que deveriam financiar a universalização do saneamento básico local.

Essa ineficiência na distribuição escancara uma realidade indigesta para um estado cercado por imensas reservas hídricas, evidenciando que a abundância na natureza não se traduz automaticamente em segurança hídrica dentro das residências. O volume que se perde pelo caminho seria suficiente para abastecer milhares de famílias amapaenses que ainda sofrem com a intermitência no fornecimento ou com a completa ausência de rede encanada. Na prática, a cada dez litros de água que recebem tratamento rigoroso, passam por processos químicos dispendiosos e demandam alto consumo de energia elétrica nas estações de tratamento, quase quatro litros simplesmente evaporam do sistema comercial ou escorrem para o subsolo sem qualquer proveito social.

Especialistas do setor apontam que esse prejuízo invisível se divide em duas frentes igualmente complexas e desafiadoras. A primeira delas diz respeito às chamadas perdas físicas, que ocorrem quando o recurso vaza diretamente de adutoras rachadas, juntas desgastadas e ramais antigos que interligam as vias públicas aos imóveis. Como a maior parte da malha subterrânea das principais cidades amapaenses foi implantada há décadas e passou por longos períodos sem a devida manutenção preventiva, a fadiga dos materiais transforma a rede em um verdadeiro escoador de recursos públicos e ambientais.


Por outro lado, o relatório joga luz sobre as perdas comerciais, apelidadas no jargão técnico de perdas aparentes. Trata-se da água que é efetivamente consumida pela população, mas que não gera faturamento para as empresas operadoras. Esse cenário é alimentado por um misto de hidrômetros antigos e descalibrados, que já não registram a passagem do fluxo com precisão, e pela proliferação de ligações clandestinas, popularmente conhecidas como gatos. Em muitas periferias e áreas de ressaca, a falta de regularização urbana empurra os moradores para soluções improvisadas, criando um emaranhado de mangueiras que prejudica a pressão do sistema e expõe a rede de distribuição a riscos severos de contaminação externa.

O impacto socioeconômico desse cenário é profundo e cria um círculo vicioso difícil de romper. Para tratar a água que se perde, as companhias de saneamento gastam rios de dinheiro com produtos químicos importados e com contas de luz elevadas para manter as bombas funcionando. Como quase 40% dessa produção não se reverte em receita financeira, o caixa das empresas permanece sufocado, minguando a capacidade do estado de receber novos investimentos privados ou públicos que seriam destinados à expansão da coleta de esgoto e à melhoria da própria qualidade da água.

Quem mais penalizado é o cidadão comum, que arca com tarifas muitas vezes elevadas para compensar a inadimplência e o desperdício do sistema, além de conviver com o fantasma do desabastecimento em períodos de maior consumo. O relatório do Instituto Trata Brasil funciona como um alerta urgente para a necessidade de modernização da gestão do saneamento no Amapá, indicando que a eficiência no combate aos vazamentos e a regularização das ligações comerciais são passos tão urgentes e prioritários quanto a construção de novas e imponentes estações de tratamento. Sem estancar o ralo que consome o orçamento e o patrimônio ambiental do estado, a promessa de universalizar o acesso à água potável e dignidade para toda a população amapaense continuará escorrendo por entre os dedos.

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