O ex-prefeito Antônio Furlan ladeado por assessores e influenciadores digitais investigados pela Polícia Federal por integrarem esquema milionário de difamação e propaganda política financiado com verbas da prefeitura
A Polícia Federal deflagrou, na manhã da terça-feira (26 de maio), em Macapá (AP), Belém (PA) e Canela (RS), a Operação “Palanque Digital” para desarticular uma organização criminosa suspeita de desviar cerca de R$ 25 milhões dos cofres públicos da capital amapaense. A ação cumpre 35 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Eleitoral, tendo como principal alvo o ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan (PSD), além de ex-administradores municipais e influenciadores digitais. A investigação aponta que a verba pública era utilizada para financiar uma complexa estrutura de produção de conteúdo digital em larga escala, cujo objetivo era promover politicamente a imagem do ex-gestor, espalhar desinformação e atacar sistematicamente seus adversários políticos por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens.

O desdobramento das investigações revela as engrenagens de uma suposta “milícia digital” institucionalizada no coração da administração municipal. De acordo com os elementos colhidos pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, o ex-secretário de Comunicação de Macapá, Juarez Menescal, e o publicitário Diego Santos são apontados como os mentores intelectuais da estrutura. A dupla teria arquitetado um esquema que utilizava servidores nomeados em cargos de confiança dentro da prefeitura. Em vez de exercerem funções públicas tradicionais voltadas ao atendimento da população, esses funcionários atuavam como operadores de uma rede oculta de propaganda e difamação na internet.

Durante as primeiras horas da operação na manhã de terça-feira, o ambiente político do Amapá foi sacudido por desdobramentos imediatos. Juarez Menescal acabou preso em flagrante, mas não pelo crime eleitoral em si, e sim por posse ilegal de arma de fogo encontrada em sua residência durante o cumprimento dos mandados judiciais. Um cenário idêntico se repetiu no município de Canela, no Rio Grande do Sul, onde uma segunda pessoa, cuja identidade ainda é mantida sob sigilo pelas autoridades, também foi detida em flagrante pelo mesmo crime de porte ilícito de armamento.

Apesar de a Polícia Federal adotar a praxe de não divulgar oficialmente o nome dos investigados devido às restrições legais da Lei de Abuso de Autoridade, os bastidores políticos e investigativos confirmaram o envolvimento de figuras centrais da comunicação macapaense. Entre os alvos que receberam os agentes federais em suas residências e locais de trabalho estão influenciadores conhecidos do público amapaense, como Edi dos Santos Souza, o “Soedi”, Jean Machado, popularmente chamado de “Bambam News”, Jonatas Nascimento, “O Fabuloso”, e Huelton Rodrigo Sales, proprietário da página de amplo alcance regional “Ispia Amapá”.

As bases da investigação ganharam contornos mais nítidos a partir de revelações que já tramitavam nos bastidores do Poder Judiciário do Amapá. Em depoimento prestado no dia 25 de março ao 1º Juizado Especial Cível de Macapá, no âmbito de um processo que apurava crimes de calúnia e difamação, o ex-servidor municipal Gleidson Alves Barros detalhou o funcionamento da engrenagem. Ele confirmou em juízo a existência de um grupo intitulado “artilheiros”, composto majoritariamente por servidores públicos comissionados. Esse grupo funcionava como uma central de disparos em massa de mensagens e conteúdos digitais criados especificamente para a defesa cega da gestão de Furlan e para o bombardeio digital de opositores, tudo sob a coordenação e comando direto do ex-secretário Menescal.

O montante financeiro sob suspeita impressiona os investigadores e a opinião pública. O desvio estimado em R$ 25 milhões teria sido pulverizado ao longo de meses para manter a fidelidade e o engajamento de comunicadores, influenciadores de nicho e operadores de redes sociais recrutados pela cúpula da antiga gestão municipal. Os mandados de busca e apreensão executados na data de hoje buscam reunir provas materiais robustas, como computadores, aparelhos celulares, mídias digitais e documentos financeiros, capazes de comprovar o caminho do dinheiro público e a exata extensão do dano causado ao erário de Macapá.

O modus operandi investigado pela Polícia Federal na Operação Palanque Digital acende um alerta sobre as novas fronteiras da corrupção e dos crimes eleitorais na era da hiperconectividade. O uso de estruturas paralelas financiadas com impostos dos cidadãos para moldar a opinião pública de forma artificial e destruir reputações configura um duplo golpe na sociedade: além do evidente prejuízo financeiro a serviços essenciais como saúde e educação, fere de morte a legitimidade do debate democrático e a lisura dos processos eleitorais na região.

As buscas interestaduais em Belém e no Rio Grande do Sul indicam que a rede de apoio e os tentáculos do esquema possuíam ramificações que iam muito além das fronteiras geográficas do Amapá, possivelmente utilizando prestadores de serviços de tecnologia e publicidade em outros estados para mascarar a origem e o destino final das verbas. Os materiais apreendidos pela Polícia Federal serão agora submetidos a perícia técnica e análise detalhada por parte dos peritos criminais e promotores de Justiça, o que deve balizar os próximos passos das denúncias criminais e ações de improbidade administrativa contra o ex-prefeito Antônio Furlan e os demais envolvidos no esquema milionário.

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