Vídeos de delegado, ações judiciais no Tribunal Regional Eleitoral e acusações mútuas entre candidatos transformam a segurança pública no tema mais polêmico da disputa pelo governo estadual amapaense
A disputa pelo Governo do Amapá nas eleições deste ano transformou a segurança pública e o combate ao crime organizado no principal campo de confronto entre o governador e candidato à reeleição, Clécio Luís (união Brasil), e seu principal adversário, Antônio Furlan (PSD). Nos últimos dias, vídeos em redes sociais, declarações de autoridades e ações no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AP) evidenciaram uma escalada de tensão motivada pela repercussão de uma reportagem nacional da Record sobre supostas ligações entre políticos e facções. O epicentro da crise envolveu o delegado Estéfano da Silva Santos, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), cujo pronunciamento público para negar vínculos entre Furlan e o crime organizado acabou alçado à disputa eleitoral.

A controvérsia ganhou fôlego quando o delegado Estéfano gravou um vídeo após a exibição da reportagem nacional, esclarecendo que sua entrevista original tratava estritamente de rotas do tráfico e de investigações técnicas, e pontuando que a divisão não aponta indícios que relacionem o candidato Dr. Furlan a facções criminosas. A manifestação gerou divergências internas na corporação, culminando em uma carta de apoio assinada por 41 delegados que endossaram o caráter institucional da fala, enquanto a Associação dos Delegados de Polícia do Amapá (Adepol-AP) criticou a vinculação pública de policiais a candidaturas, alertando contra o uso político da instituição. Para a vendedora ambulante Selma Amaral de Souza, de 32 anos, moradora do bairro Santa Rita, a situação gera desconfiança: “A gente fica sem saber em quem acreditar quando vê a polícia dividida e os candidatos brigando na televisão por causa de facção”.


Diante do uso do vídeo do delegado pela campanha de Furlan, a coligação do governador Clécio Luís, “Juntos por Todo o Amapá”, ingressou com representação no TRE-AP sob a acusação de abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Contudo, o desembargador Agostino Silvério Junior negou a retirada imediata do conteúdo, ponderando que, na fase processual inicial, não havia elementos suficientes para configurar utilização abusiva da estrutura estatal em benefício eleitoral. Em paralelo, Clécio levou o discurso de combate ao crime organizado para a sua propaganda, afirmando em entrevista à TV Equinócio que não negocia com criminosos e mencionando uma notícia sobre a suposta nomeação de doze pessoas ligadas a facções para cargos na Prefeitura de Macapá na gestão do ex-prefeito e candidato ao governo, Antônio Furlan.

Reagindo às investidas do adversário, Furlan acionou a Justiça Eleitoral para pedir direito de resposta e a remoção das inserções de Clécio, argumentando que as declarações genéricas contra “adversários” o associariam de forma indireta ao crime organizado. No sábado (19), o desembargador Rommel Araújo indeferiu o pedido urgente de exclusão, sob o entendimento preliminar de que as falas não identificavam nominalmente o candidato da oposição. Especialistas em direito eleitoral apontam que o uso de temas sensíveis como a segurança pública em campanhas acirradas frequentemente mancha a linha entre o debate político legítimo e a propaganda descontextualizada, exigindo cautela extrema dos tribunais para não interferir desproporcionalmente no pleito.

O debate também mobilizou o secretariado de Estado, com o titular da Justiça e Segurança Pública, Cézar Vieira, defendendo que o enfrentamento ao crime organizado deve permanecer como uma atribuição estritamente técnica e policial, baseada em provas produzidas para subsidiar o Ministério Público e a Justiça, e não convertida em palanque político. A politização da segurança pública reflete um cenário de crescentes pressões institucionais e sociais, onde o eleitorado assiste a um embate acirrado a menos de duas semanas do primeiro turno. O aposentado João Batista Silva, 67, resume o sentimento da população: “O que a gente mais quer é paz e que a polícia trabalhe com tranquilidade, sem virar arma de palanque político para nenhum lado”.

Apesar do turbilhão político nos tribunais e nas redes sociais, as forças de segurança mantêm o foco operacional, evidenciado por ações recentes da Draco, comandada por Estéfano, que resultaram na apreensão de cerca de R$ 2 milhões em espécie e no bloqueio de outros R$ 3 milhões em uma investigação aprofundada de lavagem de dinheiro ligada ao tráfico. Esse paradoxo — entre a atuação técnica rigorosa das delegacias especializadas e a exploração eleitoral das pautas criminais — demonstra como a segurança pública deixou de ser apenas uma promessa de governo para se tornar o eixo central da disputa pelo poder no estado. Resta saber se o eleitor conseguirá filtrar o debate institucional em meio à avalanche de discursos polarizados e contestações judiciais que marcam a reta final da campanha amapaense.

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