Descoberta de água pesada em cometa interestelar revela mistérios sobre formação do universo
Estudo publicado na Nature Astronomy revela que o visitante interestelar nasceu em um ambiente com frio extremo de 243 graus Celsius negativos. Os dados químicos ajudam os cientistas a entenderem como eram os sistemas planetários antes do nosso Sol

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
17/05/2026 | 13h50
Uma equipe internacional de astrônomos liderada por Luis Eduardo Salazar Manzano, pesquisador da Universidade de Michigan, decifrou as origens primitivas de um cometa interestelar ao identificar, por meio de observações inéditas com o radiotelescópio ALMA, no Chile, uma quantidade extraordinária de água pesada em seu interior. A descoberta, publicada na prestigiada revista Nature Astronomy, revela que o objeto celeste, batizado de 3I/ATLAS, se formou há impressionantes 11 bilhões de anos nas regiões mais gélidas e externas de um sistema planetário alienígena, sob temperaturas de congelantes -243°C. O estudo detalha como esse raro mensageiro cósmico, originário de fora do nosso Sistema Solar, funcionou como uma verdadeira cápsula do tempo, permitindo à ciência abrir as portas do passado para compreender o estado da Via Láctea muito antes do surgimento do próprio Sol.

A passagem do 3I/ATLAS pela nossa vizinhança cósmica foi breve, mas histórica. Descoberto em julho ao cruzar o Sistema Solar, o cometa começou a se despedir em dezembro, deixando atrás de si um rastro de dados que revolucionou a astronomia planetária. Ele é apenas o terceiro objeto interestelar já detectado pela humanidade. O que parecia ser apenas mais uma rocha de gelo vagando pelo vácuo revelou-se um tesouro científico quando os pesquisadores apontaram as antenas do Atacama Large Millimeter/submillimeter Array para ele no início de novembro, logo após o cometa atingir sua aproximação máxima do Sol. O calor solar fez com que o gelo guardado em seu núcleo sublimasse, transformando-se em gás e permitindo a leitura de sua assinatura química interna.

O grande trunfo da pesquisa foi a detecção pioneira de deutério, um isótopo pesado de hidrogênio que carrega um nêutron a mais em sua estrutura e que serve como uma espécie de impressão digital cósmica. Para a surpresa da equipe, a abundância de água deuterada no 3I/ATLAS mostrou-se mais de 40 vezes maior do que a encontrada nos oceanos da Terra e 30 vezes superior à dos cometas nativos do nosso Sistema Solar. Essa discrepância química gritante foi o fio condutor que permitiu aos cientistas reconstruírem o berço do objeto. O enriquecimento severo de deutério só acontece sob condições de frio extremo, em nuvens moleculares densas onde a água se forma antes mesmo do nascimento das estrelas.

Essa assinatura química congelada no tempo preservou-se intacta porque o 3I/ATLAS nasceu e passou a maior parte de sua existência nas bordas mais afastadas do disco protoplanetário de gás e poeira que orbitava sua estrela hospedeira. Se tivesse se formado mais perto do calor estelar, as reações térmicas teriam destruído o deutério. A hipótese de um nascimento periférico e gelado ganha ainda mais força porque coincide com dados de estudos anteriores, que já haviam identificado uma concentração excepcionalmente alta de dióxido de carbono no cometa. O uso do radiotelescópio ALMA foi fundamental para essa descoberta, pois sua tecnologia baseada em ondas de rádio de baixa energia permitiu observar o objeto em ângulos muito próximos ao Sol, onde telescópios ópticos tradicionais teriam seus componentes destruídos pelo calor e pela luz intensa.

Embora os astrônomos reconheçam que seja virtualmente impossível rastrear de qual sistema planetário exato o cometa foi expulso, o valor científico do 3I/ATLAS permanece inestimável. Ele oferece um vislumbre de uma era em que a nossa galáxia era jovem e consideravelmente menos rica em metais do que é hoje. Cientistas que não participaram diretamente do estudo, como o astrônomo planetário Theodore Kareta, da Universidade Villanova, destacam que a descoberta ajuda a entender a própria evolução da Via Láctea. À medida que a galáxia envelhece, a composição dos cometas e, consequentemente, dos planetas que se formam ao redor de novas estrelas se transforma, tornando o 3I/ATLAS um elo crucial para sabermos se os mundos distantes são parecidos com o nosso. A expectativa agora se volta para o Observatório Vera C. Rubin, também no Chile, que promete detectar novos visitantes interestelares com maior frequência, ajudando a esclarecer se este cometa ancestral é uma anomalia espacial ou o padrão de um universo ainda incompreendido.




