CULTURA

Mostra no Rio reúne um século de pioneirismo visual produzido por mulheres artistas da Amazônia

Ao conectar acervos históricos e linguagens contemporâneas, evento no centro do Rio evidencia a força de criadoras amazônicas que transformam memória, vivência familiar e resistência política em linguagem visual potente

Na mostra “Amazônicas”, a pintura é suporte para histórias de matriarcas e a vanguarda afro-indígena, revelando a força de 21 protagonistas das artes visuais da região Norte — Imagem: Divulgação

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
08/09/2026 | 11h39

Quando se fala em Amazônia, o imaginário nacional costuma ser rapidamente capturado pela exuberância da fauna, pela vastidão da flora ou pelos alarmantes índices de desmatamento. No entanto, uma ocupação silenciosa e histórica de mulheres tem transformado essa mesma floresta em linguagem visual, pensamento crítico e resistência política. É esse fôlego estético que o Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ), no centro da capital fluminense, abriga até 16 de novembro de 2026 com a abertura da mostra “Amazônicas: Poéticas femininas”. A exposição reúne 80 criações de 21 artistas pioneiras e contemporâneas do Pará, Acre e Amazonas — incluindo a Ilha de Marajó —, jogando luz sobre um século de produção feminina do Norte do país que desafia a invisibilidade imposta pelos eixos tradicionais da arte brasileira.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Inaugurada na semana em que se celebra o Dia da Amazônia — efeméride instituída oficialmente em 2007 para marcar o dia 5 de setembro —, a mostra é fruto de uma ampla pesquisa acadêmica de mestrado e doutorado conduzida pela curadora e diretora artística Sissa Aneleh, idealizada em parceria com o Museu das Mulheres (Museu DAS). O projeto chega ao Rio após passar por Belém, Fortaleza e Brasília, estruturado em quatro núcleos curatoriais: Materialidades Ancestrais, Gravura Feminina, Amazônia Pictórica e Performáticas. Ao romper com a barreira geográfica, o evento marca a inédita convergência entre as cenas artísticas de Belém e Manaus sob a perspectiva das mulheres, reposicionando o território não apenas como cenário pitoresco, mas como corpo, suporte e sujeito de sua própria história.

A gênese desse panorama remonta a quase um século de produções que enfrentaram o duplo isolamento: o regional e o de gênero. Dados históricos e acadêmicos apontam como as mulheres da região Norte foram sistematicamente relegadas às margens dos circuitos oficiais de consagração estética ao longo do século 20. Documentos da Pinacoteca do Estado do Amazonas ilustram esse resgate: três obras do acervo público manauara deixam o estado pela primeira vez para integrar a exposição. Trata-se de telas e gravuras de pioneiras como Rita Loureiro, que nos anos 1960 e 1970 legitimou a pintura como ofício profissional exercido por mulheres em Manaus, e Maria Auxiliadora Zuazo, gravurista atuante na mesma década. A presença desses trabalhos atesta que a vanguarda modernista e contemporânea sempre esteve viva nos ateliês amazônicos, ainda que à margem do cânone do Sudeste.

Essa linhagem reverbera de maneira contundente nas biografias das autoras e no impacto direto que suas vivências exercem sobre suas comunidades. Em Belém, as obras revelam a força estruturante do matriarcado, visível na trajetória de nomes como Val Sampaio, cuja fotoperformance remete à saga de uma indígena submetida ao trabalho escravo que, após conquistar a liberdade na cidade, ergueu uma linhagem familiar chefiando sozinha filhos e netos. Em Manaus, a pulsação urbana se manifesta no trabalho da grafiteira Wɨra Tini, autora do primeiro mural em grande escala assinado por uma mulher na capital amazonense em tributo à maternidade indígena; na mostra, ela documenta em pintura e vídeo quatro gerações de sua própria linhagem — tia, mãe, filha e avó.

Outro nó central desatado pela curadoria é a interseção entre negritude e indigeneidade, frequentemente dissociadas pela historiografia oficial brasileira. Em obras de Keila-Sankofa, a identidade afro-indígena nortista ganha contornos de denúncia e afirmação, desmistificando a ideia de uma Amazônia puramente homogênea. Ao lado de assinaturas como Auá Mendes, Rafa Bqueer, Diná Oliveira, Rita Huni Kuin e Yaka Huni Kuin, as técnicas transitam com fluidez entre pintura, escultura, fotografia, arte digital e videoarte, demonstrando que a tradição ancestral convive harmoniosamente com linguagens de vanguarda.

Para além da contemplação estética, a iniciativa se desdobra em impactos práticos no tecido social por meio de oficinas presenciais de economia criativa do programa Avanço das Mulheres. A meta é capacitar mulheres em funções técnicas e de gestão cultural — como produção executiva e curadoria coletiva —, setores historicamente restritos a pequenos círculos. O diálogo intergeracional é reforçado por recursos de acessibilidade universal, incluindo audiodescrição, obras táteis e intérpretes de Libras, além da oficina educativa Sons da Natureza, que aproxima crianças e estudantes de escolas públicas das réplicas sensoriais da fauna e flora marajoaras.

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A tecnologia também se faz presente no Espaço Petrobras Amazônicas, onde óculos 3D e realidade aumentada projetam os visitantes em imersões espaciais, ao passo que a videoinstalação coletiva Mensagem para a Amazônia recolhe depoimentos do público sobre preservação climática. Ao entrelaçar memória documental, formação econômica e sensibilidade estética, a mostra transcende as paredes do museu para demonstrar que preservar a Amazônia passa, indelevelmente, por escutar as mulheres que dela nascem e vivem.

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