Reconhecimento da Unesco aos teatros de Manaus e Belém desafia país a promover reparação histórica
Reconhecimento inédito da arquitetura imperialista na Região Norte desafia o país a valorizar povos tradicionais e evitar que os dividendos do turismo fiquem restritos às duas grandes capitais

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
31/07/2026 | 12h04

A inclusão do Teatro Amazonas, em Manaus, e do Theatro da Paz, em Belém, na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco marcou o inédito reconhecimento da Região Norte como detentora de um patrimônio cultural da humanidade, mas reacendeu uma reflexão crítica sobre a opulência e a violência do ciclo da borracha. Apresentada de forma conjunta sob a candidatura “Teatros da Amazônia”, a conquista foi celebrada por órgãos internacionais e pela imprensa como um marco da riqueza arquitetônica nacional. Contudo, historiadores e pesquisadores locais, como o arqueólogo acreano Marcos Vinicius Neves, apontam que o título deve ir além do entusiasmo estético para servir como oportunidade de reparação histórica.
Essa releitura do passado torna-se urgente porque a suntuosidade das duas casas de espetáculos, erguidas na virada do século 19, foi custeada pela exploração predatória do látex em toda a bacia amazônica. Enquanto as capitais do Pará e do Amazonas concentravam os lucros do capitalismo imperialista e ostentavam modernidades urbanas, o interior vivia uma realidade oposta. Povos indígenas sofriam massacres, trabalhadores extrativistas enfrentavam a miséria e regiões produtoras estratégicas — a exemplo do Acre — eram submetidas ao abandono e a violentos conflitos territoriais, sem retorno de investimentos em infraestrutura básica.
Assim, o novo status concedido pela ONU impõe o desafio de reinterpretar essa memória, reconhecendo os povos da floresta como os legítimos construtores desse patrimônio material. Além disso, a chancela abre espaço para exigir que as futuras rotas turísticas e os dividendos econômicos gerados pelo selo internacional não permaneçam restritos a Manaus e Belém, mas sejam distribuídos de forma equânime, promovendo um desenvolvimento justo e reparador por toda a Amazônia Legal.


Erguer as duas suntuosas casas de espetáculo no virar do século 19 exigiu a exploração predatória do látex por toda a bacia amazônica — custando vidas indígenas e o abandono de regiões produtoras como o Acre —, enquanto os lucros milionários do capitalismo imperialista eram brutalmente monopolizados pelas elites das capitais paraense e amazonense. Assim, o novo status concedido pela ONU desafia o país a reinterpretar a memória regional, garantindo que o prestígio e os futuros dividendos econômicos do turismo beneficiem, de forma equânime, os povos da floresta que historicamente financiaram essa opulência.

Construídos no auge da Belle Époque Amazônica, os teatros foram erguidos com dividendos da exploração da borracha, matéria-prima que inseriu a região no centro do capitalismo imperialista liderado por potências europeias e pelos Estados Unidos. Contudo, essa aparente modernidade urbana restringiu-se aos grandes centros exportadores. Enquanto Belém inaugurava iluminação elétrica e Manaus exibia luxo arquitetônico, o interior da floresta enfrentava um cenário devastador. A corrida pelo látex resultou no extermínio de povos indígenas, no abandono de regiões produtoras como o Juruá acreano e na exploração extrema de seringueiros e populações extrativistas.

Analistas ressaltam que o título internacional não deve ser motivo de rejeição ou contestação raivosa, mas sim uma oportunidade para reinterpretar a história sob uma ótica mais justa. O verdadeiro protagonismo da construção desses espaços pertence aos trabalhadores invisibilizados que extraíram a riqueza da mata, e não exclusivamente às elites econômicas da época. A preservação da memória, portanto, exige combater a continuidade de uma expropriação cultural, reconhecendo os povos da floresta como os legítimos construtores desse patrimônio material.

O modelo de desenvolvimento concentrador que permitiu a erguição dos monumentos deixou marcas profundas na divisão territorial e econômica do Norte. O Acre, por exemplo, viveu um período de intensa produção entre 1880 e 1912, mas viu seus recursos serem drenados primeiro pelos governos estaduais vizinhos e, posteriormente, pelo governo federal após a criação do território federal em 1904. A escassez de investimentos básicos em infraestrutura, saúde e educação no estado gerou um atraso histórico cujos reflexos persistem no presente. As decisões políticas e tributárias daquele período moldaram uma estrutura de dependência financeira que ainda afeta a dinamização econômica de diversas localidades amazônicas.

Diante do novo status concedido pela Unesco, surge o desafio prático de evitar os erros do passado na distribuição dos dividendos econômicos e culturais. Espera-se que o reconhecimento alavanque a captação de recursos para conservação e atraia um fluxo contínuo de visitantes, dinamizando a economia local. No entanto, especialistas ponderam que a gestão do turismo deve ser planejada com cautela para evitar os impactos negativos do turismo de massa predatório, fenômeno que já sobrecarrega a infraestrutura e a qualidade de vida de históricas cidades europeias.

Para que a chancela internacional se converta em reparação e progresso real, o planejamento precisa ir além dos limites urbanos de Manaus e Belém. A proposta defende a criação de rotas turísticas integradas e políticas públicas que alcancem estados como Acre, Rondônia, Roraima, Amapá e Maranhão. Ao repartir os benefícios econômicos de forma equânime entre as comunidades ribeirinhas e os diversos territórios da bacia amazônica, o reconhecimento dos teatros deixa de ser apenas uma celebração do passado eliteizado para se transformar em um instrumento de justiça social e valorização da diversidade regional.





