ECONOMIA

Petrobras afunda após fala de Lula e bolsa interrompe ciclo de altas

Ibovespa fecha em queda de 0,62%, aos 111.910 pontos – Alexandre Schneider/Getty Images
Por Fernanda Fernandes  

Se dias atrás foi para cima, desta vez foi para baixo. O mercado está atento a tudo que diz o ex-presidente Lula da Silva e tem colocado suas falas no preço, afinal, ele é apontado pelos institutos de pesquisa e até pelos investidores como o favorito na disputa pela presidência. Recentemente, Lula afirmou que os dividendos da Petrobras deveriam ter outro destino que não o bolso dos acionistas.

A minha preocupação não é com acionista de Nova Iorque. A minha preocupação é com o povo brasileiro. […] Não temos que estar preocupados com o lucro. Por que ao invés de pagar dividendos para acionistas a gente não investe em refinarias?

Lula da Silva/Ex-presidente (Em entrevista à Rádio Liberal/Belém – Pará)

Com isso, a Petrobras viu as ações recuarem, respectivamente, -2,97% e -3,96%. Outras empresas de varejo e do setor de consumo também sentiram o impacto do ruído. Foi o caso da Magazine Luiza, que liderou a alta no pregão um dia antes e logo depois perdeu -7,06%, das Americanas (-6,16%); Assaí (-1,36%); Natura (-6,48%); Alpargatas (-4,83%); e Ambev (-3,05%). O Ibovespa fechou o pregão com 111.910 pontos, com queda de -0,62%. O dólar teve mais uma queda, de 0,61%, fechando a R$5,39 reais, menor valor desde 1º de outubro de 2021 (R$5,36).
Apesar do ruído e em meio a expectativas de alta inflação, com previsão da Selic a 11,75% até o fim de 2022, o mercado financeiro deverá continuar na contramão dos mercados americanos, com fluxo estrangeiro bastante intenso nas próximas semanas, avalia o especialista Flávio de Oliveira, head de renda variável da Zahl Investimentos.

Caso haja a ausência de grandes notícias ruins com relação ao nosso mercado interno e com um déficit público do Brasil melhor do que a gente esperava, nossas expectativas permanecem construtivas para o mercado local e a gente continua acreditando que a bolsa pode ter uma trajetória ascendente

— Flávio Oliveira

De toda forma, o mercado já colocou a próxima elevação de juros no radar. O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne no início de fevereiro e a expectativa é de que a taxa básica de juros aumente em 1,5 ponto, para 10,75% ao ano. Mesmo assim, Flávio de Oliveira explica que o real ainda continua consideravelmente depreciado em relação ao dólar e os ativos brasileiros negociando a múltiplos extremamente baixos são fatores atrativos para investidores de outros países. Além disso, segundo o especialista, existe a ausência do fluxo de vendedores, uma vez que houve muitas vendas de participações e ações de investidores locais que migraram para renda fixa no fim de 2021.

A política de preços e de dividendos da Petrobras é um dos pilares de quem investe na companhia. Não que o posicionamento do Lula seja uma grande surpresa, mas quando se coloca esse assunto na mesa é certeza de que vai haver estresse

— Naio Ino/Chefe de renda variável da Western Asset

Além da Petrobras, as varejistas também voltaram a negociar em baixa. “Foi um dia de correção para cima, hoje foi um ajuste na ponta inversa. No fim das contas, é um setor onde nada está muito claro”, diz Ino. Magazine Luiza e Americanas fecharam em quedas de 7% e 6,5%, respectivamente. No lado das altas, o destaque ficou por conta da Braskem. Depois de Petrobras e Novonor (antiga Odebrecht) desistirem de vender imediatamente suas participações na companhia, os investidores se viram obrigados a repor suas posições que tinham sido vendidas. “Existia a expectativa de que a oferta viria com desconto do preço real da ação, o que seria uma oportunidade dos investidores vendidos comprarem papéis mais baratos. Depois do cancelamento, esses investidores tiveram de cobrir as apostas”, explica Ino.

Mercado Internacional
As incertezas em torno de como e em que ritmo se dará o aumento de juros nos Estados Unidos deverão manter o mercado internacional em clima de apreensão, explica Flávio de Oliveira. Na avaliação do especialista, ainda que o Federal Reserve – FED (sistema de bancos centrais americanos) tenha começado a tangibilizar a elevação de juros no mercado americano, o que já estava no radar do mercado, algumas falas de Jerome H. Powell, presidente do FED, foram preocupantes.

Ele (Jerome) falou apenas que iriam começar o processo de alta (nos juros), mas não detalhou muito, principalmente a partir de 2023, quantas elevações seriam e qual seria o ritmo dessas elevações, o que gerou um desconforto no mercado. De forma geral, o que domina o mercado internacional é o risco de inflação, que significa aumento de juros e acaba penalizando as bolsas de valores

— Flávio Oliveira

Outro fator relevante que pode refletir nas bolsas é a crise entre a Rússia e da Ucrânia, que segue sem final definitivo. “Esse tipo de conflito pode gerar elevação no preço das commodities energéticas, como o petróleo, e acaba afetando a inflação global, esse é um ponto negativo no próximo cenário”, afirma Oliveira.


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