Famílias de baixa renda comprometem orçamento com dívidas para custear comida e contas básicas
Com orçamento sufocado pelo custo de vida, famílias de menor renda usam limite bancário para comprar alimentos, enquanto especialistas alertam que renegociar dívidas não resolve sem alta dos salários

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
10/08/2026 | 11h40
A taxa de endividamento entre as famílias brasileiras com renda de até três salários mínimos (R$ 4.863) atingiu o recorde histórico de 84,9% em julho, puxada pela inflação de itens básicos e pela facilidade de acesso ao crédito rápido no pós-pandemia. O dado, apurado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) em levantamento exclusivo com 17,8 mil famílias em todas as capitais e no DF, revela uma crise silenciosa: para a classe média-baixa e as camadas mais vulneráveis, o cartão de crédito e o cheque especial deixaram de ser ferramentas de consumo eventual para se tornarem um remendo indispensável para pagar as contas do mês.


Nas periferias, a estatística ganha rosto e nome. A servente de limpeza Maria das Graças Silva, 42, moradora da zona norte de Macapá, sustenta três filhos com R$ 2.200 mensais. Ela faz parte dos 38,5% de endividados da baixa renda que já estão com contas em atraso. “Antes eu parcelava uma roupa ou um eletrodoméstico. Hoje, parcelo a compra do mercado em três vezes no cartão e uso o limite da conta para pagar a luz. Quando cai o salário, metade vai direto para cobrir os juros. A gente não compra mais nada além do que come, mas a conta não fecha”, relata.


O cenário descrito por Maria reflete a dinâmica que o economista-chefe da CNC, Fábio Bentes, conceitua como a transformação do crédito em um “puxadinho do orçamento”. O orçamento exíguo faz com que pequenas variações no preço dos alimentos ou imprevistos de saúde desequilibrem completamente as finanças diárias. Na mesma faixa de renda, a parcela dos ganhos mensais comprometida exclusivamente com o pagamento de dívidas subiu para 30,6% em julho.

O avanço da bancarização digital após a pandemia de covid-19 é apontado como um dos catalisadores ocultos desse fenômeno. Se por um lado a abertura de contas digitais incluiu financeiramente milhões de brasileiros, por outro expôs um público sem educação financeira formal a taxas de juros abusivas no rotativo e no crédito pessoal não consignado.

Os dados da CNC encontram eco em outros diagnósticos de conjuntura econômica. O Indicador de Estresse Financeiro da Fundação Getulio Vargas (FGV), calculado a partir da Sondagem do Consumidor, mostrou que a pressão sobre as famílias de menor renda (com ganhos até R$ 2.100) subiu de 25,6 para 26,8 pontos de junho para julho, atingindo o nível mais elevado em meses. A deterioração combinada sugere que o arrocho no custo de vida continua sufocando as camadas populares de forma desproporcional.

A persistência do endividamento recorde também lança dúvidas sobre a eficácia das medidas governamentais de socorro. Críticos questionam o alcance do Desenrola 2.0, programa federal voltado à repactuação de débitos. No entanto, economistas ressaltam que renegociar uma dívida antiga não impede que o trabalhador continue se endividando no dia a dia para custear despesas correntes.

Para o economista e professor de finanças públicas Carlos Eduardo Oliveira, o nó da questão é estrutural e não será resolvido apenas com limpeza de nome. “Programas de renegociação abrandam o sofrimento imediato, mas são um enxugamento de gelo se a renda real não crescer. A família renegocia um débito com desconto, mas, se o preço da cesta básica continua alto em relação ao salário mínimo, em poucos meses ela volta a recorrer ao cartão de crédito para comprar comida”, analisa.

Análises comparativas de médio prazo indicam uma leve atenuação na inadimplência severa — a fatia dos que declaram não ter nenhuma condição de quitar as pendências recuou marginalmente quando comparada a períodos anteriores do mesmo ano —, mas a margem de manobra dessas famílias continua no limite. Sem uma recuperação expressiva do poder de compra ou uma reforma no custo do crédito rotativo no país, a fatia expressiva de 43% da população urbana que compõe esse estrato social continuará equilibrando o orçamento doméstico no fio da navalha.



