ECONOMIA

Propostas de redução da jornada de trabalho podem resultar em perda de R$ 76,9 bilhões no PIB brasileiro

Redução para 40 horas semanais pode elevar preços em 6,2%, encarecendo supermercados, roupas e serviços para o consumidor brasileiro

Operários em linha de montagem: setor industrial pode sofrer retração de 1,2% no PIB caso a jornada de trabalho seja reduzida para 40 horas sem aumento proporcional da produtividade nacional — Foto: Agência Brasil

DA REDAÇÃO
Com informações da Confederação Nacional da Indústria (CNI)
08/04/2026 | 11h06

A economia brasileira pode encolher 0,7% e sofrer uma perda nominal de R$ 76,9 bilhões caso o Congresso Nacional aprove as propostas de redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, segundo um levantamento inédito divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O estudo, que analisa os impactos macroeconômicos de Projetos de Emenda à Constituição como a PEC 148/2015 e a PEC 8/2025, alerta que o encarecimento da mão de obra sem o contrafluxo do ganho de produtividade pode gerar um efeito cascata de inflação e perda de competitividade internacional, atingindo de forma mais severa o setor industrial.


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O diagnóstico da entidade patronal coloca em números um temor antigo do setor produtivo: a desidratação da produção nacional em um cenário de custos crescentes. A indústria, que detém grande parte dos postos de trabalho formais e opera com cadeias de suprimentos altamente integradas, seria o epicentro do choque, com uma retração projetada de 1,2% em seu PIB setorial — o que representa uma cifra de R$ 25,4 bilhões que deixariam de circular no setor. Para Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, a vulnerabilidade do setor reside na sua exposição ao mercado global; um aumento súbito nos custos de produção retiraria o produto brasileiro das prateleiras externas e abriria espaço para o avanço das importações no mercado interno.

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O efeito dessa mudança, no entanto, não ficaria restrito aos portões das fábricas. A lógica econômica descrita no estudo aponta para uma pressão inflacionária direta no bolso do cidadão. Para manter o ritmo atual de entregas com menos horas trabalhadas, as empresas precisariam elevar o custo operacional, repassando esse valor ao longo de toda a cadeia. A projeção média de aumento nos preços ao consumidor final é de 6,2%, mas o impacto se torna mais palpável quando fatiado por categorias essenciais: a alimentação fora de casa poderia subir 6,2%, roupas e calçados 6,6%, e as compras mensais em supermercados teriam um acréscimo médio de 5,7%.

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Dentro deste cenário, o setor de serviços, que é o maior empregador do país, também sentiria o baque com uma alta média de 6,5% em seus preços. O argumento central da CNI é que, sem um aumento correspondente na produtividade — a capacidade de produzir mais com os mesmos recursos —, a redução da jornada atua como um imposto invisível sobre o consumo. Ricardo Alban, presidente da CNI, reforça que a história das relações trabalhistas sempre caminhou para a melhoria das condições e a redução gradativa da carga horária, mas ressalta que esse movimento precisa de sustentabilidade técnica para não acelerar o processo de desindustrialização que o Brasil enfrenta há décadas.

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A preocupação institucional da entidade recai sobre a velocidade com que o tema pode tramitar no Legislativo. Alban defende que discussões desta magnitude, que alteram a estrutura de custos de milhões de empresas, não podem ser pautadas por calendários eleitorais ou pressões de curto prazo. O setor produtivo prega a necessidade de um debate transparente, que considere as disparidades regionais e o porte das empresas. Para um pequeno negócio de serviços em uma cidade do interior, o impacto de quatro horas a menos por funcionário pode significar a necessidade de uma contratação inviável, enquanto para uma grande multinacional, o problema se traduz em perda de competitividade frente a competidores asiáticos ou europeus.

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O estudo da CNI funciona como um alerta para a necessidade de medidas de transição. Se a redução da jornada for inevitável por pressão social ou política, Marcelo Azevedo sugere que o país precisa discutir simultaneamente como mitigar os impactos negativos. Isso passaria por reformas que desonerassem outros pontos da folha de pagamento ou incentivos à automação e modernização tecnológica, permitindo que a “travessia” para um novo modelo de trabalho não resulte em fechamento de postos ou queda na renda real das famílias devido à inflação.


No fim do dia, a matemática da CNI é direta: a redução das horas sem o amparo da eficiência produtiva reduz a renda nacional. “Essa perda de competitividade faz com que haja mais importações e menos exportações. Isso se traduz em redução da produção e da renda e, consequentemente, em queda do PIB”, resume Azevedo. O debate agora se desloca para as comissões do Congresso, onde parlamentares deverão equilibrar o desejo social por mais tempo livre e melhores condições de vida com os riscos de um desequilíbrio fiscal e econômico que pode, paradoxalmente, encarecer o custo de vida daqueles que a medida pretende beneficiar. O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio onde o bem-estar do trabalhador não atropele a viabilidade do emprego.


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