ECONOMIA

Dívida pública federal chega a R$ 9 trilhões mas caixa do Tesouro garante pagamentos por nove meses

Impulsionado por emissões e juros altos da Selic, endividamento do país ultrapassa limite previsto no plano anual, mas Tesouro Nacional eleva reserva de liquidez em caixa para garantir o pagamento de compromissos com investidores por mais de nove meses

Apesar de o avanço mensal de dois vírgula sessenta e seis por cento romper balizas fiscais, alívio na geopolítica externa favorece captações e prazo de refinanciamento da dívida federal se mantém dentro da margem de segurança estipulada pelo governo

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
28/06/2026 | 17h55

O Tesouro Nacional informou que a Dívida Pública Federal (DPF) saltou para o patamar histórico de R$ 9 trilhões em maio de 2026, registrando uma alta de 2,66% em comparação ao mês anterior, impulsionada por uma forte emissão líquida de títulos e pela apropriação positiva de juros no período, o que acabou por posicionar temporariamente o estoque do endividamento brasileiro fora dos limites originalmente previstos no Plano Anual de Financiamento (PAF) para o ano corrente. O avanço expressivo acendeu alertas no mercado financeiro e na equipe econômica, uma vez que a meta estipulada pelo PAF para todo o ano de 2026 prevê uma oscilação entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. Com o resultado de maio, a dívida acelerou seu ritmo de crescimento de forma mais acentuada do que as projeções iniciais apontavam.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Segundo os dados detalhados divulgados pela pasta, a variação mensal de R$ 234,4 bilhões foi explicada pela combinação de dois fatores centrais: uma emissão líquida de R$ 134,46 bilhões, que representa o volume de novos papéis que o governo colocou no mercado acima do total de títulos que foram resgatados ou comprados de volta pela União, somada a uma apropriação positiva de juros no montante de R$ 99,94 bilhões, uma dinâmica que ocorre quando os retornos dos investimentos em títulos superam os juros efetivamente pagos aos investidores.

Apesar do crescimento no volume total da dívida, um indicador de sustentabilidade conseguiu se manter dentro da normalidade operacional exigida pelas metas anuais. O prazo médio da DPF, que mede o tempo que o governo federal leva para refinanciar os seus compromissos financeiros com o mercado, encurtou levemente, passando de 4,12 anos observados em abril para 4,07 anos em maio. Essa sutil redução não chegou a romper as diretrizes de segurança da gestão fiscal, uma vez que o PAF de 2026 estabelece uma banda de flutuação tolerável entre 3,8 anos e 4,2 anos para esse indicador de maturidade dos papéis.

O comportamento do mercado doméstico e o apetite dos investidores pelos títulos públicos brasileiros em maio foram diretamente influenciados pelo cenário geopolítico global. De acordo com a avaliação feita pelo coordenador-geral de Operações da Dívida Pública, Helano Borges Dias, o mês foi marcado por uma clara redução da aversão ao risco por parte dos grandes agentes econômicos internacionais e locais. Esse alívio nas tensões financeiras foi motivado, principalmente, pelas perspectivas de uma resolução diplomática para o prolongado conflito entre os Estados Unidos e o Irã, o que acabou abrindo espaço para que o Tesouro Nacional operasse com maior previsibilidade nas suas captações.

Para compreender a fundo a magnitude desses nove trilhões de reais, vale lembrar que a dívida pública é o principal mecanismo que o Tesouro Nacional utiliza para financiar o deficit orçamentário do governo federal, ou seja, para cobrir os momentos em que a máquina pública gasta mais recursos do que arrecada por meio de impostos. Essa estrutura de endividamento, que ao final do ano de 2025 somava R$ 8,6 trilhões, é classificada pela forma de captação e pela moeda dos fluxos de pagamento, guardando uma dependência histórica severa da política monetária do Banco Central.

Quase metade de todo o estoque da dívida pública brasileira atual está indexada de forma direta à taxa básica de juros da economia, a Selic, que se encontra em um patamar bastante restritivo de 14,25% ao ano. Em termos percentuais, a taxa flutuante Selic responde por 48,99% da composição da DPF, seguida pelos índices de preços baseados na inflação oficial, o IPCA, com 26,26%. Os títulos prefixados, que têm o rendimento definido e travado no momento da emissão, respondem por 21%, enquanto a parcela atrelada ao câmbio representa apenas 3,75% do bolo total.

Na divisão de quem financia o Estado brasileiro, as instituições financeiras nacionais se consolidaram como o maior grupo detentor da dívida, ampliando sua participação de 31,46% em abril para 31,54% em maio. Já a Previdência Social registrou recuo em sua fatia, que caiu de 23,32% para 22,92%. Os fundos de investimento aparecem logo em seguida com uma participação de 21,74%, equivalente a um estoque de R$ 1,8 trilhão. O capital estrangeiro, representado pelos investidores não residentes, detém 10,14% do total, somando R$ 881 bilhões, enquanto as seguradoras respondem por 3,39%, o próprio governo por 2,79%, e outros agentes diversificados do mercado detêm os 7,49% restantes.

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Como uma espécie de amortecedor para garantir que o país não dê calotes em momentos de estresse financeiro severo, o chamado “colchão” da dívida pública, que é a reserva de liquidez guardada na Conta Única do Tesouro Nacional junto ao Banco Central, apresentou uma melhora significativa. Esse montante de segurança teve um aumento expressivo de 10,90% em maio na comparação com o mês anterior, saltando de R$ 1 bilhão para R$ 1,2 bilhão, garantindo que o caixa atual da União seja suficiente para quitar os vencimentos de títulos públicos pelos próximos 9,14 meses sem a necessidade imediata de novas emissões emergenciais.

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