Jazidas inexploradas no extremo norte atraem a cobiça mundial para minérios raros e valiosos

Por Emanoel Reis
O contrabando de minérios raros está em espiral crescente no Amapá, onde localizam-se as maiores jazidas de ferro, manganês, ouro, tantalita, tório, torianita, que contém urânio, e outros. Tanta abundância está atraindo a cobiça de políticos e empresários de outras regiões do Brasil e até de outros países, verdadeiros responsáveis pela montagem de esquemas criminosos para extração ilegal dessas riquezas conservadas no subsolo amapaense (leia-se amazônico), protegidas por lei mas ambicionadas pelo mercado internacional. Agentes da Polícia Federal colaboraram com a Polícia Militar na prisão em flagrante de um contrabandista dentro de uma embarcação, no município de Santana, a 20 quilômetros de Macapá. Ele se preparava para deixar o Estado com 1,3 tonelada de tantalita, minério muito usado na indústria eletrônica e com demanda crescente por causa dos smartphones.
Não faz muito tempo, a PF esteve às voltas com um rumoroso caso de contrabando de minério raro, com repercussões nas três esferas de poder no Amapá. Seiscentos quilos de urânio e tório foram apreendidos na zona rural do município de Porto Grande, distante cerca de 120 quilômetros da capital. O material estava acondicionado em sacos plásticos e, segundo o delegado Luiz Carlos Nóbrega, à época responsável pelo caso, estava pronto para deixar o Estado via rio Amazonas. Na ocasião, amostras foram enviadas aos Instituto Nacional de Criminalística em Brasília, Fundação Núcleo de Tecnologia Industrial em Fortaleza e de Rádio-Proteção e Dosimetria no Rio de Janeiro (IRD).
Não é de hoje que a Polícia Federal investiga a extração irregular e venda de minérios de alto valor no Amapá. Conforme alentados relatórios da PF, a prática desse crime é facilitada pelas fronteiras internacionais (Guiana Francesa e Suriname), e pela fronteira com o Pará. O negócio é perigoso mas bastante lucrativo. Só para se ter uma ideia do quanto pode ser rentável, os 600 quilos de urânio e tólio apreendidos em Porto Grande foram avaliados em mais de R$ 1 milhão. Por isso, essa garimpagem criminosa atrai para o Amapá pessoas de diversos Estados, inclusive investidores mal-intencionados.
Foi o caso de Elton Rohnelt, à época assessor do ex-presidente Michel Temer (MDB). Ele foi apanhado tentando convencer comunidades indígenas a praticar mineração na remota fronteira do Brasil com a Colômbia. As investidas incluíram doações de barco e outros equipamentos, pagamento por amostra de minério e promessas de cesta básica. A Constituição prevê mineração em terras indígenas, mas só após regulamentação específica pelo Congresso, ainda inexistente, e consulta a etnias afetadas. Rohnelt, no entanto, alega que há uma brecha. Junto com o seu sócio majoritário, o empresário paulista Otávio Lacombe, eles afirmam que o Estatuto do Índio, de 1973, permite que os indígenas façam garimpagem rudimentar (faiscação e cata).
Deputado federal por dois mandatos, Elton Rohnelt, 77, diz que está apenas orientando o empresário Otávio Lacombe por causa da experiência na região, onde explorava ouro na década de 1980.
“Tudo é com Otávio. Apenas dou a assessoria pela experiência que eu tenho”, disse Rohnelt.
Ele diz ser considerado “uma pessoa querida” pelos índios e afirma que a mineração ajudará as comunidades a sair da miséria. “Está todo dia morrendo alguém. Não tem nada, absolutamente nada. O título da reportagem deveria ser este: sentados com a bunda no minério e estão morrendo de fome.”
Em abril, a reportagem visitou comunidades da etnia baniua, alvo da ação de Rohnelt e Lacombe, e não constatou nenhum indício de fome, mas ouviu reclamações sobre o atendimento de saúde e o acesso à educação.
Para Rohnelt, o desenvolvimento socioeconômico dos povos indígenas “não só estagnou como retrocedeu”. “Esse é o momento de mudar o jogo.”
Gaúcho, o ex-assessor fez fortuna garimpando ouro na região Norte nos anos 1970 e 1980, principalmente na fronteira, onde agora busca explorar tantalita em associação com Lacombe.
“Fui pro rio Içana com 200 pessoas, dois helicópteros e três aviões. Fui fazer pesquisa em todo o rio”, afirma. “Tinha uma estrutura maior do que a do Exército da época.”
Em parceria com Octavio Lacombe, pai de Otávio, Rohnelt diz ter gasto na época US$ 6 milhões para construir uma pista de pouso, hoje incorporada por um pelotão de fronteira do Exército.
Em Roraima, tinha o apelido de “homem do revólver de ouro” —a arma acabou apreendida por ser de uso exclusivo das Forças Armadas.
Torianita é comercializada no Centro de Macapá
A dificuldade em obter informações sobre o contrabando de minério levaram a reportagem do site AMAZÔNIA VIA AMAPÁ até um homem que se apresentava como Marco. Ele disse que em oito dias podia garantir oito mil quilos de torianita, e faz propaganda do produto: “[Serve para] soltar foguete, fazer arma, bomba atômica.” O fornecedor diz que tem material para uma compra muito maior. “Eu acho que vai 15, 20 toneladas consegue tranquilo lá.”
Um garimpeiro que não quis se identificar revela que o comércio clandestino é conhecido e acontece à luz do dia. “Eu conheço um bocado de gente que negocia isso. Quando aparece o comprador, aí eles vão lá, extraem a quantidade que o comprador quer.”
A reportagem fez contato com outro homem que vende o minério radioativo. Em um quarto de hotel, ele entrega uma amostra de torianita de cerca de dois quilos. “Esse material daqui é um dos melhores do mundo. Não tenho nem dúvida de te falar isso aí.”
Não há um levantamento sobre o volume de torianita nas reservas brasileiras, mas estimativas da Indústrias Nucleares do Brasil (INB) – empresa vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia – indicam que o Amapá tem uma das maiores fontes desse minério no mundo. A torianita é encontrada na região oeste do estado.
Radioatividade
Para verificar se o material era mesmo radioativo, a reportagem levou a amostra para a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cenen). A análise comprova que se trata, de fato, de torianita. O minério tem 73,7% de tório – elemento químico que é radioativo mas, segundo especialistas, com praticamente nenhum interesse comercial. O mais importante para quem está interessado no contrabando é que na torianita há quase 8% de urânio. Em seis toneladas do minério, por exemplo, são 480 quilos de urânio.
Questionado se o minério serve para pesquisas nucleares, o especialista Luiz Felipe da Silva, da INB, confirma: “Eu diria que possível é. A gente sabe que tem urânio aqui. Tem até bastante. Muito mais que os minérios habituais de urânio costumam ter.”
O engenheiro da INB diz que o Brasil não usa torianita como fonte de urânio porque o custo de extração seria alto demais. O urânio que abastece nossas usinas vem da Bahia, de um minério chamado uraninita.
Para quem não tem acesso ao material, contudo, a torianita pode ser uma saída, já que o uso de minérios radioativos é controlado por organismos internacionais.
E quem se dispõe a comprar o produto ilegal paga caro. No mercado regular, países que obedecem normas mundiais podem comprar um quilo de urânio puro por 200 reais. Nas negociações clandestinas, contudo, o quilo do urânio ainda misturado à torianita, sem passar por nenhuma purificação, pode chegar a R$ 2.500 o quilo – 12 vezes mais.
MANIPULAÇÃO DE MINÉRIO RADIOATIVO AUMENTA RISCO DE CÂNCERNão é simples construir uma bomba a partir da torianita. O físico Luís Carlos de Menezes, da Universidade de São Paulo lembra que são necessárias tecnologia sofisticada, que poucos países têm, e grandes quantidades de urânio. Ainda assim, ele faz um alerta sobre esse mercado ilegal de material radioativo no Brasil. “O destinatário final pode ter diferentes fornecedores e somar uma quantidade expressiva. Possivelmente, em uma atividade desse tipo, o interesse é ter urânio não controlado. Fazendo uma metáfora, é como bandido que quer arma não controlada.” Risco de câncer A facilidade com que se tem acesso a esse material perigoso impressiona. Dependendo da quantidade, os negociantes têm a torianita praticamente à pronta entrega, e eles nem precisam ir ao garimpo. Em Macapá, e em cidades perto da capital amapaense, garimpeiros guardam o minério radioativo dentro de casa, dispostos também a participar desse negocio altamente arriscado. A polícia encontrou 250 quilos de torianita no quintal de uma casa, em Macapá. No ano passado, mais uma tonelada do minério foi apreendida na cidade. “A cidade inteira está cheia de torianita. Muita, não é pouca não. Essas pessoas que mexem não têm muita consciência e não sabem o perigo que elas correm”, diz um dono de garimpo que não quis se identificar. Segundo o professor de química José Marcus Godoy, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), o material pode trazer riscos à saúde. “Essa pessoa que tem em casa grande quantidade de torianita, e está se expondo por um período muito grande, tem certamente uma maior probabilidade de vir a contrair um câncer.” Entrega garantida Os comerciantes desse mercado ilegal não só vendem a torianita, como também garantem a retirada do minério do território brasileiro. E a principal rota de saída é por água, mas nunca pelos portos. Pequenos barcos que podem sair de qualquer ponto do Rio Amazonas levariam o material radioativo até grandes embarcações, longe da costa e da fiscalização. “Com o barco, a gente chega até Belém, entendeu? Lá embarca num caminhão”, diz um comerciante ilegal, que também oferece a opção de retirar o material em um navio. “Aí já são outros caminhos, entendeu? Mas a gente tem como fazer.” Uma característica física do minério facilita o transporte ilegal: a torianita é muito densa. Uma garrafa pet de dois litros cheia de torianita teria 16 quilos, enquanto com água pesaria apenas dois quilos. Por isso, os negociadores dizem que o minério pode ser facilmente escondido em cargueiros porque ocupa menos espaço do que outros materiais. Destino desconhecido “Teve uma época aí que eu estava negociando com o pessoal do Iraque, os árabes. A única informação que eu tinha é que ia para o Iraque”, diz um traficante. Investigações revelaram indícios da participação de grupos de mineração, empresários e até uma ONG no tráfico de torianita. A polícia não conhece ainda o destino ou os compradores do urânio brasileiro. Chaneiko, Skibinsk e Farid são alguns nomes de estrangeiros suspeitos de envolvimento nas negociações com a torianita. A Comissão Nacional de Energia Nuclear disse, por meio de sua assessoria, que não sabe se o minério está sendo usado para construção de arsenal nuclear. Mas é importante saber quem está por trás desse mercado, afirmam representantes do órgão. “Se trata, mais do que tudo, de olhar o que tem na torianita que pode interessar, se o interesse é tecnológico ou militar. De toda maneira, é preocupante que esse ilícito se dê na fronteira brasileira”, diz o físico da USP Luís Carlos de Menezes. Por sua vez, a Polícia Federal no Amapá se recusou a falar sobre as investigações de contrabando do urânio brasileiro. Em nota, a direção da Polícia Federal, em Brasília, informou que está intensificando as operações na região e que os trabalhos de apuração dos fatos ainda estão em andamento. Ainda segundo a nota, qualquer divulgação neste momento prejudicaria o inquérito. “Não tenha dúvida de que pode chegar a mãos erradas, e o aparelho do estado brasileiro tem que reprimir e controlar melhor esse quadro”, sentencia o juiz federal João Bosco Costa Soares (foto acima).

Não é simples construir uma bomba a partir da torianita. O físico Luís Carlos de Menezes, da Universidade de São Paulo lembra que são necessárias tecnologia sofisticada, que poucos países têm, e grandes quantidades de urânio.
Ainda assim, ele faz um alerta sobre esse mercado ilegal de material radioativo no Brasil. “O destinatário final pode ter diferentes fornecedores e somar uma quantidade expressiva. Possivelmente, em uma atividade desse tipo, o interesse é ter urânio não controlado. Fazendo uma metáfora, é como bandido que quer arma não controlada.”
Risco de câncer
A facilidade com que se tem acesso a esse material perigoso impressiona. Dependendo da quantidade, os negociantes têm a torianita praticamente à pronta entrega, e eles nem precisam ir ao garimpo. Em Macapá, e em cidades perto da capital amapaense, garimpeiros guardam o minério radioativo dentro de casa, dispostos também a participar desse negocio altamente arriscado.
A polícia encontrou 250 quilos de torianita no quintal de uma casa, em Macapá. No ano passado, mais uma tonelada do minério foi apreendida na cidade. “A cidade inteira está cheia de torianita. Muita, não é pouca não. Essas pessoas que mexem não têm muita consciência e não sabem o perigo que elas correm”, diz um dono de garimpo que não quis se identificar.
Segundo o professor de química José Marcus Godoy, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), o material pode trazer riscos à saúde. “Essa pessoa que tem em casa grande quantidade de torianita, e está se expondo por um período muito grande, tem certamente uma maior probabilidade de vir a contrair um câncer.”
Entrega garantida
Os comerciantes desse mercado ilegal não só vendem a torianita, como também garantem a retirada do minério do território brasileiro. E a principal rota de saída é por água, mas nunca pelos portos. Pequenos barcos que podem sair de qualquer ponto do Rio Amazonas levariam o material radioativo até grandes embarcações, longe da costa e da fiscalização.
“Com o barco, a gente chega até Belém, entendeu? Lá embarca num caminhão”, diz um comerciante ilegal, que também oferece a opção de retirar o material em um navio. “Aí já são outros caminhos, entendeu? Mas a gente tem como fazer.”
Uma característica física do minério facilita o transporte ilegal: a torianita é muito densa. Uma garrafa pet de dois litros cheia de torianita teria 16 quilos, enquanto com água pesaria apenas dois quilos. Por isso, os negociadores dizem que o minério pode ser facilmente escondido em cargueiros porque ocupa menos espaço do que outros materiais.
Destino desconhecido
“Teve uma época aí que eu estava negociando com o pessoal do Iraque, os árabes. A única informação que eu tinha é que ia para o Iraque”, diz um traficante.
Investigações revelaram indícios da participação de grupos de mineração, empresários e até uma ONG no tráfico de torianita.
A polícia não conhece ainda o destino ou os compradores do urânio brasileiro. Chaneiko, Skibinsk e Farid são alguns nomes de estrangeiros suspeitos de envolvimento nas negociações com a torianita.
A Comissão Nacional de Energia Nuclear disse, por meio de sua assessoria, que não sabe se o minério está sendo usado para construção de arsenal nuclear. Mas é importante saber quem está por trás desse mercado, afirmam representantes do órgão. “Se trata, mais do que tudo, de olhar o que tem na torianita que pode interessar, se o interesse é tecnológico ou militar. De toda maneira, é preocupante que esse ilícito se dê na fronteira brasileira”, diz o físico da USP Luís Carlos de Menezes.
Por sua vez, a Polícia Federal no Amapá se recusou a falar sobre as investigações de contrabando do urânio brasileiro. Em nota, a direção da Polícia Federal, em Brasília, informou que está intensificando as operações na região e que os trabalhos de apuração dos fatos ainda estão em andamento. Ainda segundo a nota, qualquer divulgação neste momento prejudicaria o inquérito. “Não tenha dúvida de que pode chegar a mãos erradas, e o aparelho do estado brasileiro tem que reprimir e controlar melhor esse quadro”, sentencia o juiz federal João Bosco Costa Soares (foto acima).