Sumiço de equipamentos digitais na MacapáPrev levanta suspeitas de queima de arquivo
A invasão ao prédio da MacapáPrev relembra outra com dimensões políticas mais explosivas ocorrida nos EUA entre 1972-1974 envolvendo espionagem ilegal e abuso de poder pela administração do presidente Richard Nixon. Começou com a invasão da sede do Partido Democrata no complexo Watergate por aliados de Nixon. O acobertamento dessas ações pela Casa Branca levou Nixon a renunciar em 1974

A madrugada de sábado, dia 14, em Macapá, não foi apenas de silêncio nas ruas, mas de uma operação cirúrgica e silenciosa nos corredores da MacapáPrev. A invasão à sede do instituto responsável pela previdência dos servidores municipais carrega elementos de um roteiro de suspense político: sistemas de comunicação cortados, ausência de arrombamento externo e um alvo milimetricamente selecionado. Do prédio, desapareceram não apenas computadores e processos administrativos, mas também os equipamentos que armazenavam as imagens das câmeras de segurança. O sumiço do “cérebro” digital do monitoramento é o indício mais forte de uma ação orquestrada para apagar rastros, alimentando a principal linha de investigação da Polícia Civil: uma tentativa deliberada de queima de arquivo.

O episódio ocorre em um vácuo de poder e em meio a uma turbulência institucional sem precedentes na capital amapaense. A prefeitura vive semanas de transição forçada após o afastamento judicial e a subsequente renúncia do prefeito Antônio Furlan (PSD). Com o vice-prefeito Mario Neto (Podemos) também afastado, a cadeira de chefe do Executivo passou a ser ocupada pelo presidente da Câmara Municipal, Pedro Dalua (União Brasil), figura de oposição à gestão anterior. Essa dança das cadeiras no Palácio Laurindo Banha reverberou imediatamente na MacapáPrev. Janayna Gomes da Silva Ramos, que presidia o órgão, deixou o cargo em março, pedindo exoneração apenas 24 horas após a saída de Furlan.

A perícia técnica agora se debruça sobre o fato de que os invasores pareciam ter a chave da casa — ou, no mínimo, um mapa detalhado de onde estavam as informações mais sensíveis. Entre o material levado, destacam-se os notebooks que pertenciam ao ex-diretor financeiro, Fabiano Gemaque Valente de Andrade, e à ex-chefe de gabinete da Presidência, Karyna Santos Ramos. Ambos acompanharam o movimento de Janayna e pediram exoneração logo após a queda do antigo governo. O fato de os sistemas de alarme e comunicação terem sido neutralizados antes da entrada reforça a tese de que os autores possuíam conhecimento prévio da estrutura física e tecnológica do instituto.

Para os servidores municipais, o crime não é apenas contra o patrimônio público, mas contra o próprio futuro. A MacapáPrev administra o fundo que garante aposentadorias e pensões, e o desaparecimento de processos administrativos gera um temor imediato sobre a integridade dos registros previdenciários. Nos últimos meses, o instituto já era o epicentro de denúncias graves. Suspeitas de utilização irregular de recursos para finalidades alheias ao pagamento de benefícios e a sombra de um rombo milionário nas contas da autarquia vinham sendo ventiladas pela nova gestão e por órgãos de controle. A invasão, portanto, acontece no exato momento em que o rigor das auditorias prometia devassar as contas da era Furlan.

O que agrava o clima de insegurança institucional é que este não é um fato isolado. Trata-se do segundo ataque a prédios da prefeitura em menos de uma semana com o mesmo modus operandi: foco em danos a equipamentos de informática e desaparecimento de dados. Recentemente, outra unidade administrativa foi alvo de ação similar, o que levanta a hipótese de uma força-tarefa criminosa dedicada ao “apagão” de informações que poderiam servir de prova em futuras investigações cíveis ou criminais.

A Polícia Civil mantém o caso sob sigilo absoluto, mas a pressão popular e política por respostas é crescente. Peritos buscam agora imagens de câmeras de segurança de prédios vizinhos e monitoram registros de acesso digital que possam ter ficado em servidores em nuvem, caso existam. A grande questão que ecoa em Macapá é se os documentos levados eram a prova cabal das irregularidades denunciadas ou se o ato foi uma tentativa desesperada de ganhar tempo.

Enquanto a investigação caminha entre escombros de HDs e gavetas vazias, o sentimento de vulnerabilidade toma conta do funcionalismo. A proteção dos dados previdenciários é, hoje, a prioridade máxima do governo interino de Pedro Dalua, que vê na invasão um desafio direto à sua autoridade e à transparência da gestão pública. Se a intenção era silenciar o instituto, o efeito foi o oposto: o barulho da invasão colocou a MacapáPrev no centro de um furacão político que promete desdobramentos profundos assim que os primeiros suspeitos forem identificados.




