Lideranças indígenas da Amazônia divulgam carta política pela demarcação de terras
Após reunir 8 mil indígenas na capital federal, mobilização encerra ciclo com críticas a projetos de exploração e defesa do protagonismo das bases. Lideranças reafirmam 22 anos de luta coletiva e convocam a sociedade internacional para proteger a biodiversidade originária

DA REDAÇÃO
Com informações da COIAB
19/04/2026 | 22h09
Lideranças indígenas da Amazônia encerraram, em Brasília, o 22º Acampamento Terra Livre (ATL) com a leitura de uma carta política que exige a demarcação imediata de territórios para frear a crise climática e o avanço da exploração predatória. O documento, lido diante de uma assembleia de mais de 8 mil pessoas de todas as regiões do país, sintetiza uma semana de mobilizações na capital federal e reafirma a resistência dos povos originários contra projetos de mineração e a mercantilização da natureza, posicionando a proteção das terras indígenas como a única garantia para o equilíbrio ambiental do planeta.

A cerimônia de encerramento não foi apenas um rito de passagem, mas um grito de continuidade que ecoou pelo gramado da Esplanada dos Ministérios. Ao tomar o microfone, o vice-coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Alcebias Sapará, deu o tom emocional e histórico que balizou esta edição do evento. Com o peso de quem carrega décadas de história nas costas, ele lembrou que o ATL completou 22 anos de uma trajetória marcada por renúncias e coragem. Para Sapará, o movimento atual é o desdobramento direto do esforço de lideranças que já se foram e que deixaram como herança a responsabilidade de manter a terra intocada para quem ainda virá. A fala de Sapará reforçou que a luta indígena não é um evento sazonal, mas uma constante que atravessa gerações, projetando que virão tantos acampamentos quantos forem necessários para garantir o direito de existir.

A carta final do ATL 2026 é um manifesto contundente que rejeita a visão da terra como um ativo econômico. O texto critica abertamente as propostas de privatização de recursos naturais e denuncia o que as lideranças classificam como “falsas soluções” para o aquecimento global — mecanismos de compensação que, na visão dos povos tradicionais, apenas mascaram a destruição continuada. O documento é enfático ao afirmar que não há futuro possível se o território for tratado como mercadoria ou se os povos originários forem vistos como obstáculos ao progresso. Para as organizações, defender os territórios é, literalmente, sustentar a estrutura que mantém o mundo de pé.

O protagonismo das bases foi o fio condutor da fala de Kleber Karipuna, representante da Coiab na coordenação executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Karipuna fez questão de destacar o sacrifício logístico de delegações que atravessaram o país, muitas vezes em viagens de vários dias por rios e estradas precárias, para marcar presença em Brasília. Em um gesto de humildade institucional, ele definiu a coordenação da Apib como um simples instrumento de eco, reiterando que a força real do movimento emana de cada aldeia, de cada cacique e de cada jovem que se deslocou até o Distrito Federal. Sem a pulsação das bases, ele advertiu, a estrutura política no topo não teria legitimidade nem força para pressionar os Poderes da República.

A diversidade do acampamento refletiu a pluralidade do Brasil indígena. Sob o guarda-chuva da Apib, uniram-se organizações como a Apoinme, do Nordeste e Sudeste, a Arpinsul, do Sul, além da Comissão Guarani Yvyrupa e do Conselho do Povo Terena. Essa coalizão de diferentes biomas e cosmologias convergiu para um ponto comum: a denúncia contra o avanço da exploração mineral em terras demarcadas ou em processo de demarcação. A carta convoca não apenas o Estado, mas a sociedade civil e a comunidade internacional a enxergarem os povos indígenas como os verdadeiros guardiões da biodiversidade, cobrando o cumprimento estrito dos direitos constitucionais que, muitas vezes, são ignorados em favor de interesses setoriais.

Ao fim da leitura, o sentimento entre os presentes não era de despedida, mas de reinício. A mobilização de 2026 deixou claro que o ATL é o ponto de partida para um novo ciclo de vigilância. As lideranças retornam aos seus territórios com o documento em mãos para servir de guia nas lutas locais contra invasões e pressões econômicas. A mensagem central deixada em Brasília é a de que a demarcação das terras não é apenas uma pauta setorial de uma minoria, mas uma medida de sobrevivência global. Enquanto houver território sob ameaça, haverá o corpo indígena pronto para o combate, honrando os 22 anos de história do acampamento e preparando o terreno para as próximas décadas de resistência inegociável. A luta, conforme dito no encerramento, apenas muda de cenário: sai do asfalto de Brasília e retorna para o coração das florestas e dos campos de todo o Brasil.




