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Ícone da luta antirracista e professora emérita da UFPA, Zélia Amador morre aos 74 anos

Nascida em território quilombola, pioneira das ações afirmativas na universidade e fundadora do Cedenpa faleceu aos 74 anos em Belém, deixando marco definitivo no combate ao racismo estrutural no Brasil

Uma das fundadoras do Cedenpa, Zélia dedicou sua trajetória à garantia de direitos das comunidades quilombolas no Pará — Imagem: Divulgação/UFPA

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
09/09/2026 | 16h26


A professora emérita, pesquisadora e ativista paraense Zélia Amador de Deus, uma das vozes mais contundentes da luta antirracista e da defesa das comunidades tradicionais no Brasil, morreu na terça-feira, 8, aos 74 anos, em Belém (PA). Ela estava internada em tratamento contra um câncer que vinha enfrentando nos últimos meses. A perda silencia uma trajetória de mais de cinco décadas dedicada a transformar a estrutura excludente do ensino superior brasileiro e a assegurar a demarcação das terras remanescentes de quilombos na Amazônia, um trabalho que fincou raízes na base comunitária e ecoou até fóruns internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU).


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
CLASSIFICADOSCLASSIFICADOS12 de maio de 2020Emanoel Reis, Macapá – AP

Companheiros de militância, lideranças políticas e a comunidade acadêmica lamentaram a partida de Zélia, destacando a densidade teórica e a generosidade pedagógica com que ela enfrentava o debate racial. Para a socióloga e pesquisadora de relações étnico-raciais Laura Santos, a professora foi pioneira em desmontar o mito da democracia racial na região norte. “Zélia ensinou ao país que pensar a Amazônia sem encarar a presença, o território e os direitos da população negra é perpetuar um apagamento histórico. Ela não apenas teorizou o racismo estrutural; ela ocupou espaços institucionais áridos para derrubar cancelas que impediam jovens negros e indígenas de entrarem na universidade”, afirmou Santos.

A trajetória que moldou uma das principais intelectuais negras do país começou longe dos palácios acadêmicos. Zélia nasceu em 24 de outubro de 1951, no território quilombola de Mangueiras, na Ilha do Marajó, no Pará. Aos 15 anos, migrou com a família para a capital paraense, estabelecendo-se no bairro operário da Sacramenta. Em Belém, iniciou sua formação no Externato Santo Expedito e, mais tarde, ingressou no Instituto Catarina Labouré e no Instituto de Educação do Pará (IEP), onde teve os primeiros contatos com o engajamento coletivo por meio da Cruzada Mariana, de grupos jovens paroquiais e do movimento secundarista.

Durante os anos mais duros da ditadura militar, seu inconformismo a levou a atuar na Ação Popular (AP) e, posteriormente, na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). No início da década de 1970, ingressou na licenciatura em Língua Portuguesa da Universidade Federal do Pará (UFPA), instituição com a qual entrelaçou sua biografia. Fez especialização em Teoria Literária na própria UFPA em 1978, concluiu o mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) dez anos depois e obteve o título de doutora em Ciências Sociais pela universidade paraense em 2004.

O percurso acadêmico de Zélia nunca andou descolado da política pública. Entre 1993 e 1997, ocupou o cargo de vice-reitora da UFPA, marco de representatividade em uma época em que a presença de mulheres negras em postos de comando universitário era estatisticamente irrelevante. Nessa trincheira, articulou a fundação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) e do Grupo de Estudos Afro-Amazônico (GEAM), células acadêmicas decisivas para pautar a reforma do ensino superior no país.

Sua formulação teórica e pressão política desaguaram diretamente na formulação e na aprovação da Lei nº 12.711/2012, a Lei de Cotas, dispositivo legal que nos últimos dez anos transformou o perfil demográfico das universidades federais do Brasil, ampliando em mais de 200% o ingresso de estudantes pretos, pardos e de baixa renda no ensino superior, segundo levantamentos de institutos de pesquisa educacional.

Paralelamente à academia, Zélia ajudou a fundar, na década de 1980, o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), organização que liderou batalhas históricas pela titulação de terras quilombolas no estado. A relevância de sua articulação a credenciou como uma das representantes do Brasil na histórica Conferência Mundial contra o Racismo da ONU, realizada em Durban, na África do Sul, em 2001, evento que consolidou as bases conceituais das ações afirmativas no mundo ocidental.

Para quilombolas e estudantes formados sob sua orientação, o impacto de sua atuação permanece vivo no cotidiano. “Dona Zélia nos ensinou que a nossa terra é nossa identidade e que o diploma de faculdade também podia ser nosso direito”, disse o ativista quilombola paraense Raimundo Nonato da Silva. “Ela entrava na nossa comunidade com a mesma humildade com que discursava nos grandes congressos.”

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O velório de Zélia Amador de Deus foi marcado para a noite desta terça-feira, a partir das 22h, no tradicional Teatro Waldemar Henrique, no centro de Belém, onde amigos, pesquisadores e movimentos populares se reúnem para prestar as últimas homenagens à educadora que redesenhou o pensamento social paraense.

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