Alliny Serrão se distancia de Clécio Luís e aposta em aliança com o investigado Antônio Furlan
Vídeo gravado em reunião de bastidores mostra a deputada estadual articulando acordos com políticos cassados e sob investigação federal, visando pavimentar sua futura campanha rumo ao Senado Federal

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
06/07/2026 | 14h48
A deputada estadual Alliny Serrão (União Brasil), presidente da Assembleia Legislativa do Amapá (ALAP) e pré-candidata ao Senado, rompeu recentemente com o grupo político do governador Clécio Luís (mesmo partido dela) participar de uma articulação estratégica em Macapá, coordenada pelo ex-parlamentar cassado Kaká Barbosa, com o objetivo de selar sua aliança à pré-campanha de Antônio Furlan (PSD) ao governo estadual nas eleições de 2026. A guinada surpreendeu os bastidores locais pela velocidade com que Serrão isolou seu antigo aliado partidário para se aproximar de um bloco marcado por severas turbulências jurídicas. A parlamentar aposta em um pragmatismo agressivo para pavimentar seu caminho rumo a Brasília, redesenhando as forças na região.

Essa movimentação nos círculos do poder amapaense expõe de forma crua as engrenagens de um sistema em que as lealdades institucionais costumam durar apenas até a abertura da janela eleitoral seguinte. O palco físico desse rearranjo de forças foi um encontro estritamente reservado, cujas imagens em vídeo vazaram e ganharam rápida difusão nas redes sociais nos últimos dias. Na gravação, a linguagem corporal dos personagens sob os holofotes revela muito mais do que os discursos oficiais proferidos. Enquanto Alliny Serrão falava de forma efusiva aos articuladores de Furlan, ficou nítido o seu cuidado em executar uma manobra calculada de sobrevivência eleitoral: ela pediu votos exclusivamente para sua própria postulação ao Senado Federal, blindando-se de citar nominalmente tanto o ex-prefeito investigado pela Polícia Federal quanto o atual ocupante do Palácio do Setentrião.


Ao lado da parlamentar, o cenário de evidente desconforto ganhou contornos dramáticos na figura de seu marido, o ex-prefeito de Laranjal do Jari, Márcio Serrão. Nas filmagens que circulam nos bastidores digitais do estado, Márcio aparece com semblante visivelmente constrangido, um reflexo nítido do peso político e reputacional que emanava daquela mesa de negociações. Afinal, validar publicamente uma articulação comandada por Kaká Barbosa impõe um ônus imediato e pesado. Barbosa atua como o principal maestro da pré-campanha de Furlan ao governo, mas carrega o incômodo estigma de ter tido o mandato cassado de forma unânime pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob a acusação de práticas graves de compra de votos e abuso de poder político e econômico.

A aproximação deliberada da chefe do Poder Legislativo estadual com o bloco de oposição liderado por Antônio Furlan altera a dinâmica partidária regional e joga luz sobre o rastro de investigações que cercam o ex-prefeito de Macapá. Furlan abriu mão do comando da capital com o pretexto de focar na disputa majoritária estadual, mas carrega nos ombros o peso de investigações da Polícia Federal que apuram suspeitas de um esquema sistêmico de corrupção na máquina municipal durante sua gestão. Para observadores da cena pública e analistas políticos locais, a neutralidade discursiva adotada por Alliny no encontro — focando estritamente em seu projeto pessoal e ignorando o próprio padrinho do evento — representa uma tentativa de colher o apoio da máquina eleitoral de Furlan sem herdar os desgastes policiais e jurídicos que o acompanham.

Por outro lado, o silêncio obsequioso dedicado ao governador Clécio Luís oficializa o divórcio de um alinhamento político que, até pouquíssimo tempo atrás, ditava os rumos e o ritmo da governabilidade em todo o Amapá. Conforme identifica uma análise do portal, esse isolamento deliberado de gestores em exercício faz parte de uma engrenagem tradicionalíssima que prioriza o controle de fatias do poder imediato e a conquista de vagas no plano federal em detrimento de projetos coletivos de longo prazo para o desenvolvimento do estado.

Com esse movimento, Alliny Serrão parece decidida a pagar o ônus pela alcunha pejorativa de a maior “traíra do Vale do Jari”, um estigma incômodo que pode reverberar com força nas bases que outrora sustentaram sua trajetória pública. Ao abandonar alianças históricas construídas em sua região de origem e reposicionar-se estrategicamente no tabuleiro estadual, a presidente da ALAP calculou que o distanciamento de seu reduto tradicional é um preço perfeitamente aceitável em troca da chancela de novos grupos hegemônicos sediados na capital.

Essa guinada audaciosa traz consigo o risco real de alienar o eleitorado que conhece suas raízes. No entanto, a deputada parece apostar todas as suas fichas de que a viabilidade de seu projeto rumo ao Senado justifica o sacrifício da confiança de lideranças consolidadas no estado. Resta saber se o eleitorado do Vale do Jari e do restante do estado validará nas urnas essa troca da lealdade territorial pela promessa volátil de uma ascensão política que ignora as cobranças diretas da terra que a elegeu.




