Jocildo Lemos pede exoneração após investigações sobre aportes milionários no Banco Master de Daniel Vorcaro
Sem sucessor e sob suspeita: o vácuo de poder na Amprev após o escândalo dos investimentos

O cenário político e administrativo do Amapá sofreu uma reviravolta nesta semana com a saída oficial de Jocildo Lemos da presidência do Instituto de Previdência do Amapá (Amprev). O pedido de exoneração, entregue diretamente ao governador Clécio Luís (União-AP), encerra um ciclo marcado por uma gestão de números superlativos, mas que acabou sufocada por uma crise de desconfiança envolvendo a estratégia de alocação de recursos do fundo. O estopim para a queda foi a revelação de uma investigação sobre aportes realizados no Banco Master, instituição financeira que atravessa um período de instabilidade e questionamentos no mercado.

Lemos, que estava à frente da autarquia em um período de expansão, tentou blindar sua saída com uma narrativa de sucesso econômico. Em nota oficial divulgada logo após o pedido de demissão, o agora ex-presidente destacou que o fundo de previdência registrou um crescimento nominal de 41% nos últimos três anos, um desempenho que, em condições normais, seria motivo de celebração técnica. No entanto, o brilho dos lucros acumulados foi ofuscado por uma cifra específica: R$ 400 milhões. Esse foi o montante que a Amprev decidiu injetar em títulos e produtos do Banco Master, uma escolha que gerou estranhamento entre analistas do setor previdenciário e órgãos de controle, dado o perfil de risco da instituição em comparação com bancos de primeira linha.
A pressão sobre a gestão de Jocildo Lemos escalou na mesma medida em que reportagens investigativas passaram a esmiuçar os detalhes dessa transação. O ponto central da crítica reside na suposta negligência em observar o princípio da prudência, obrigatório para regimes próprios de previdência social. De acordo com os questionamentos levantados, o instituto teria ignorado opções de investimento em instituições financeiras consideravelmente mais seguras — as chamadas “risk-free” ou de baixo risco — para apostar em um banco que já apresentava sinais de problemas estruturais e financeiros. A escolha por um rendimento potencialmente maior, mas acompanhado de uma fragilidade institucional latente, foi lida por setores do funcionalismo público como uma aposta perigosa com o dinheiro do contribuinte.

Nos bastidores do Palácio do Setentrião, a situação de Lemos tornou-se insustentável à medida que a investigação sobre o Banco Master ganhava contornos nacionais. O temor do governo estadual era de que a crise de imagem da Amprev contaminasse a agenda política do governador Clécio Luís, especialmente em um momento em que a transparência nas contas públicas é cobrada com rigor pela oposição. A saída de Lemos, embora apresentada como um gesto voluntário por meio de um pedido de exoneração, é lida no ambiente político como uma “entrega de cabeça” necessária para estancar a crise e permitir que o governo reorganize o conselho curador do instituto sob uma nova direção, ainda não anunciada oficialmente pela gestão estadual.

A trajetória de Jocildo Lemos na Amprev foi caracterizada por um estilo de gestão que buscava modernizar a carteira de investimentos do Amapá, tentando afastar o fundo da estagnação dos rendimentos tradicionais. Contudo, a agressividade dessa estratégia no caso do Banco Master revelou o flanco exposto da administração: a falta de filtros mais rígidos contra a volatilidade do mercado privado. Reportagens apontaram que o conselho técnico da Amprev teria sido alertado sobre os riscos, mas a decisão política e administrativa de prosseguir com o aporte de quase meio bilhão de reais prevaleceu. Para os críticos, o crescimento de 41% citado por Lemos em sua despedida não justifica a exposição desproporcional do patrimônio líquido do estado a uma única instituição sob suspeita.

O Banco Master, por sua vez, tem sido alvo de escrutínio não apenas pelo Amapá, mas por outros entes federativos que também alocaram recursos no banco. A instituição tem enfrentado dificuldades para manter sua classificação de risco em patamares confortáveis, o que acionou alertas em tribunais de contas por todo o país. No caso amapaense, a investigação busca entender se houve algum tipo de facilitação ou se a decisão foi puramente técnica, ainda que equivocada. A saída do presidente não encerra o processo de auditoria; pelo contrário, abre espaço para que órgãos como o Ministério Público do Amapá e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AP) aprofundem as verificações sobre os contratos assinados durante o último triênio.

Até o momento, o governo do Amapá mantém cautela sobre a sucessão na Amprev. O nome do substituto é aguardado com ansiedade pelos sindicatos de servidores, que agora exigem uma participação mais ativa na fiscalização dos investimentos. A vacância no cargo máximo da previdência estadual ocorre em um momento delicado, onde a confiança do servidor na garantia de seus benefícios futuros está abalada. A transição deve exigir do novo ocupante um perfil técnico inquestionável e uma postura de “retorno às bases”, priorizando a segurança em detrimento da rentabilidade agressiva que marcou os últimos meses da era Jocildo Lemos.

Enquanto o sucessor não é definido, o legado de Lemos permanece em disputa. De um lado, os defensores de sua gestão apontam para o aumento real do fundo como prova de competência administrativa e visão de mercado. De outro, a sombra dos R$ 400 milhões investidos no Banco Master serve como um lembrete dos perigos de se tratar fundos de pensão públicos como se fossem carteiras de investimento privadas de alto risco. O desfecho dessa crise administrativa será fundamental para definir os rumos da previdência no estado e a própria estabilidade fiscal do governo Clécio Luís nos próximos anos.

A exoneração de Jocildo Lemos é, portanto, o capítulo mais recente de uma novela que envolve cifras milionárias e o destino da segurança social do Amapá. A expectativa agora gira em torno das explicações detalhadas que o TJ e o TCE devem exigir sobre o fluxo de caixa da Amprev. No cenário atual, a busca por transparência deixou de ser uma demanda burocrática para se tornar a principal moeda de sobrevivência política de quem quer que assuma o comando de um dos fundos mais cobiçados, e agora mais vigiados, do Norte do país.




